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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Um Concerto de Piano

Dum piano antigo as notas propagam-se como as águas

Inquietas, revoltadas, duma força natural, suprema,

Em meios tons, caindo gota a gota, vaga a vaga,

Lançando, de súbito, a mudança num dramático movimento

Numa cena ousada em que parecia ser uma comédia,

Que iríamos assistir. Basta!, por ordem do Maestro,

Rasgou-se a partitura. Sobe velozmente, Pégaso da imaginação,

Ao cume inatingível, solitário, interdito,

Longe da corrompida sensibilidade humana e fatídica,

De aplaudir sempre quem nunca se deve aplaudir

Cedendo palmas douradas ou folhas de louro,

A quem parece, ao movimentar-se, um tronco velho,

De velha oliveira, que prospera só e desespera.

 

Desfalece, inesperadamente, num larguetto meloso

Com mãos entrelaçadas com a poética melancolia,

Lembrando antigos gozos de sorrisos verdadeiros

Roubados nos momentos em que perguntamos

Donde veio tamanha eloquência, estrondosa ousadia?

Parece que o piano tem boca com hálito a primavera

Ou ruidosas passadas pela relva cortada, perfumada,

Caminhando, incauto, com as mãos atrás das costas,

Abrindo a jaula aos inúteis pensamentos

Festejando, docemente, o novo Verão da vida.

 

Ah o allegro maestoso, equilibrando-se por um muro

De diamante erguido nas moradas celestes

Roubando aos deuses risos e lágrimas felizes

De beber harmonias dóceis como o canto das aves,

Sons graves! Como a despedida! Junte-se a multidão,

Partirei em breve e nada mais deixarei além do cunho

Do meu amor por vós. Amigos! Se pudesse, ficaria

Embalado nestas horas azuis tão raras na vida.

Desenha-se-me na mente outros empreendimentos,

Empresta-me, ó Júpiter, o teu ceptro,

Para escrever na areia a tua melódica expressão,

Poderei esquecer-me. Não quero que as musas me virem costas,

«Adeus, amado por deus!», choram as Plêiades,

E as argênteas e azuladas filhas de Nereu

Humedecendo os olhos com lágrimas de espanto,

Abraçando o génio, dedicando-lhe poemas,

Honrando-o com a mais saborosa ambrósia,

Enaltecendo-o com o mais doce dos néctares.

«Adeus! Eu voltarei», sorria ele, de invejável plenitude

Sonhando que aquela seria também um dia

a sua morada. E transformou, com toque alquímico,

Toda a minha séria tonalidade menor… para maior.

 

Improvisos

Há versos que são escritos como ensaios,
Improvisos dos músicos de orquestra
antes de início dar-se ao baile, à festa
Lançando notas como o alto céu raios.
 
Há versos que são esboços de planetas,
desenhados no papel da imaginação,
E porque não escrevê-los? Porque não
Dar-lhes brilhantes caudas de cometas?
 
Tinta vermelha, pena de veludo
dourado sol, dourando nosso peito,
Mostra-me o que me vales num momento;
 
Diz-me se em nada grito aflito tudo!
Desfaz-me em leve cinza meu defeito,
De desfazer-me em nada em pensamento!

Renascença

Estanco a ferida fresca que sangrava,

No papel branco, verde, azul, vermelho,

Que se apresenta gasto, exausto, velho

Em que nas horas nuas flutuava,

 

O arrepio das águas quando as ondas,

Violentamente lutam com os ventos

Um bando de flamingos, pensamentos

Tão frágeis nos dorsos das anacondas.

 

Um renascer, primeiro!... o renascer

Sentar-me à espera então que o sol me nasça

No escuro vale, onde Eco se propaga,

 

Foi quando última vez que o vi nascer

desejando um dia novo me renasça

À minha porta, em que uma luz se apaga?

Décima Oitava

De condenado, andei a declarar-me,

Como se me fizesse algum sentido,

No meu passado alegre e triste, a atar-me

As mãos, os pés, para não ser esquecido

Se amante me faltava, a noite fez-se

Amante enquanto foste um sonho, apenas,

Sonho vago em cinza, em pó desfez-se

Conforto achando em almas mais pequenas.

 

Contei-te muito e não te contei nada

Contei-te só o que saber querias

Da íngreme subida pelas escadas

Das espirais sonoras desses dias

Em que um espectro eu era. Andava cego

De vãs esperanças, próprias de quem bebe

Da tenra juventude que renego

Vendê-la a quem dela já não recebe.

 

Formam-se amor questões em nossa mente

Vendando-nos os olhos do que somos

Vivendo à natureza vagamente,

Oposto ao que nestes tempos nós fomos.

Confuso, como anónimo na festa,

Entrando, sem convite e sem licença

Desenho dum enigma em nossa testa

Em que fingimos ser um ser que pensa.

 

Contei-te sobre o pânico iminente,

Voraz, devorador da minha alma

Pesado me era o ar, o ar me era urgente

Perdendo o equilíbrio o tino, a calma

Esta que vive em mim jamais cessando,

Seu soluçante abraço se me cola

Seu seio sumptuoso murmurando

Que: “tu és quem não bate bem da tola”

 

Terei algum prazer falar-te disto,

No que na minha carne já se entranha

Nas horas em que perco em falar nisto

Quando no escuro a minha alma se acanha?

E se me vês transposto passo a passo,

Verso a verso, minuto a minuto,

Em que me desfaleço num abraço

Tornando este torpor meu diminuto.

 

Quantas estações em nós próprios vencemos

Um rigoroso Inverno em que se vê,

Numa nossa montanha alta que temos

Um sol a irradiar-se sem porquê

A neve derreter-se pouco a pouco,

A sombra debandar dessa montanha

O serenar do som do mar tão rouco

Na fase de Diana mais estranha.

 

Talvez sem equilíbrio eu tenha andado

Durante muito tempo a minha vida

Invoco a sombra escura do passado

No presente, não lhe dando outra saída.

Porque livrar-me dela bem me esmero,

Combate sempre em forças desigual

Entre uma calma de anjo e o desespero

Combate eterno entre o meu Bem meu Mal.

 

Da Morte não se sabe quase nada,

Na vida do amanhã pouco se sabe

Minha balança, flor abençoada

Num verso o Universo meu não cabe.

Que enigma milagroso tão profundo

Sinto que a minha mente desespera

Quando asas bate e presa num segundo,

Fica na teia à sombra da quimera.

 

Esperança, amor, é vida no embaraço

Nesta confusa loja de brinquedos

Vivamos verso a verso, passo a passo

Cravando as nossas garras nestes medos,

Que cresce no espírito, verdete

Que cresce em nosso lar mais puro e casto

Canção cantada sempre com falsete

Em que me fere o agudo e o grave é gasto.

 

Não vês polido espelho nos meus olhos,

Quase de idiota tanto ao ver-te os teus

Brilharem no meu espelho sem sobrolhos

Carregados, que alcançam altos céus?

Frases exactas escritas com a mente

Quando me entra eloquência como um vento

Na porta, triunfante, independente,

Para varrer-me o inútil pensamento.

 

Serei a tua barca nos dilúvios,

A polar estrela que te encanta e guia

Serei também Pompeia nos Vesúvios,

Abrindo a boca, a lava e… Poesia.

Serei o lenço limpo perfumado,

Em que te absorve em ti prantos contidos

Verei também num acto consumado

Serem medos por teus olhos vencidos.

 

Cresce-me a límpida água, fonte pura

Meus lábios se refrescam, revigoram

Os ditos temperados de ternura

Onde nossas línguas mais se namoram,

Tão pouco (mas que tanto me é) me falta

Feliz me faz, amor, quando regresso,

No fim da tarde ao lar em que me salta,

Aos braços, esse amor, valor sem preço.

 

Veremos juntos anjo o que reserva,

Afasta o pensamento do amanhã,

Vem contemplar comigo a sombra na erva

A frescura abençoada na manhã.

Bem sabes, sobre ser feliz, as linhas

Do meu louco discurso inacabado

Mas tu, anjo celeste, me adivinhas

Quando me tens nos braços sossegado.

 

Quando um clarão se acende em minha vida,

Rapidamente vejo um lindo rosto

Amante, amiga, amada, flor querida

Nas nuvens numa tarde dum sol-posto

Vinte e oito primaveras escreveste,

Em papel impecável branco e fino

Meu equilíbrio de ouro em que estiveste

Nas ondas tumultuosas do destino

SONO DE CRIANÇA

Desfez-se o decorado silêncio puro de ouro,

Da exalação profunda, inquieta do meu filho,

Dormindo, como dorme, no fundo, o meu tesouro

À espera que lhe venham contemplar o seu brilho.

 

Desfez-se em leve cinza num grotesco gesto

O sono, filho, o embalo, que tua mãe criou

Mudo e quedo mudo o ouvido onde não presto

Do crocitar de corvos, que por aqui entrou.

 

A noite (como o dia) a mais niguém pertence

O dia é que convém a quem sofre e se cansa

Alguém de noite grasna, alguém de noite esquece,

Que a noite só pertence ao sono da criança.

Vivo

Mandou-me a Vida airosa embelezá-la

Vesti-la com riquíssimos vestidos

Mandou-me o meu demónio esquartejá-la,

Espalhar a febre pelos meus sentidos.

 

Mandou-me o céu pintá-lo de outra cor,

Além do alegre azul ou cinza triste

Mandou-me a alma encontrar o meu amor

Eu encontrei-te e nada me pediste.

 

Vivo como as flores que florescem

Logo ao primeiro sinal da Primavera,

Com seu hálito novo fresco e doce

 

Quero viver como as árvores crescem

Ou rio que corre sempre e nunca espera

Como se caprichoso amante fosse.

 

Aspirações

    Deixa-me levar-te num tapete flutuante,

E amortalhar-te numa estrela coruscante,

Deixa-me escrever-te os versos românticos,

E murmurar-te ao ouvido o cântico do Cânticos.

 

    Deixa-me saber-te os íntimos segredos,

Que na mulher são escarpas afiadas e penedos,

Deixa-me polir meu nobre sentimento

Para não ser objecto, adorno ou esquecimento.

 

    Deixa-me adivinhar-te os mil e um desejos,

Sejam festins os dias, as noites tais festejos

Deixa-me sussurrar-te ao ouvido de querer

Que sejas livro aberto para o folhear e ler.

 

    Deixa-me transformar-te numa biblioteca

templo sagrado antigo, Maia ou Azteca

Leva-me no carro que é por cisnes puxado

Que voa como a pena por um vento embalado.

 

    Deixa-me no átrio brilhante da Loucura,

Regressarei em breve para o lar da Razão pura

Que seja o chão que as águas tuas recebe

Onde mais ninguém sabe, onde mais ninguém bebe.

 

    Deixa-me aplicar-te o bálsamo das feridas

A chuva abençoada das flores ressequidas

Deixa-me tocar-te nas tuas frias mãos

Deixa que as nossas almas se tornem bons irmãos.

O vento

É um vento que vem vindo lá do fundo

dançando… pára!... e vibra, novamente

É um pensamento vivo do profundo

Do ser, por se sentir exausto, ausente.

 

É um vento que me traz Tempo e saudade

Pousando a mão suave no meu rosto,

Nem sombra, nem luz clara, nem verdade

Disposto a dar-me um gosto ao meu desgosto.

 

Tem ágeis asas de águia, que planando

O vento passageiro vem dizer-me,

Que me virá varrer num qualquer dia;

 

Vibrante, rodopia e vai cantando

Suaves melodias pra esquecer-me,

Que um dia, amor, serei, folha, Poesia.

 

Musa Real

Amor, das nove musas, nunca tive

Aquela ardente graça e transparência,

Tenho plena e valiosa consciência,

Que nunca em Hipocrene uma hora estive.

 

Por que bem perto um rio me murmura

Palavras desiguais e florescentes

De todas as tristezas que tu sentes

Que vem dizer-te o quanto a noite é escura.

 

Traz-me riqueza o que me inspira tanto

Traz-me tristeza o que me encanta e gosto

Também me traz a voz que não conheço

 

Não têm, as nove Musas, o teu canto

Nenhuma delas tem teu lindo rosto

És real, e, bem ou mal, nunca me esqueço.

Todas as horas

Não são só rubras horas que retemos

Dos bons momentos juntos que passamos

Nem horas em que as horas convertemos

Nem quando nossos nus corpos colamos

Não foram tantas horas que escolhemos

entre húmidos confortos que provamos

mas todas essas horas que vivemos

Em que Musa, mais tarde nos lembramos.

 

Foram também os dias que sofremos

Em que no dia uma noite pintamos

Aves livres, vadias, nos detemos

Os voo quando em aves transformamos

Desejos e caprichos por não termos

O amor que num papel branco passamos

Contando antigas histórias que vivemos

Quando corremos juntos como gamos.

 

Quatro estações diferentes nos passaram,

À frente, melhorando nossos traços

Quatro ventos na fronte em nós sopraram

Em diferentes notas e compassos

Quatro concertos que anjos nos tocaram

Abrindo céus azuis, celestes espaços

Foram quatro elementos que lançaram

À terra, que nos tornam os olhos baços.

 

Vejo-me em ti de novo, claramente

Nítida transparência nos teus lagos.

Aos teus olhos lancei, ousadamente

Meus olhos, dois falcões ávidos, magos

Quem foi a mão que me empurrou na mente

Sem nunca ter pensado nos estragos

Que muitas vezes causam, vagamente

A corte entre murmúrios doces, vagos.

 

Incrível! Já conhece a clara luz,

A árvore da semente que plantámos

Já riso e choro em nós dentro produz

Tristeza e alegria que provámos,

Já com olhar astuto nos conduz

A ver se o ninho ou colo reprovámos

Contemplação perfeita que reduz

Tristeza que no lar entrar deixámos.

 

Há nesta roda vida um movimento

Há neste pensamento a conclusão

Que a vida gira em cada sentimento

Num músculo chamado coração,

Primeiro com paixão, depois tormento

Depois esquecimento e com perdão

Em que se cria um vasto firmamento

Amor nascido em berço de paixão.

Há tempestade em ti

Em ti, há tempestade, há vendaval

Porque já vejo virem as gaivotas

Da boca, que são frases que não notas

Aflitas que se escapam desse mal.

 

Imprime, o mundo, um louco ritmo intenso

Teus braços têm gestos desiguais

Se ao menos nos meus lábios desses mais

Ondas na vastidão do mar imenso!

 

Sinto-me um lenho frágil combatendo

A gigantesca tempestade em frente,

Olhares de falésias e rochedos,

 

Amor, gigantes ondas vou vencendo

Enquanto houver vigor, naturalmente

Mas tu, ergues-me em terra altos penedos

 

Ave em queda

É como quando, amor, leio um poema

Passando verso a verso, passo a passo,

Um a um, desço a alma tua escadaria,

O mesmo que não ter sublime tema,

Nos poemas que se quer escrever no espaço

Onde esse ar se converte em poesia.

 

eu vejo o quanto sofres pelos olhos,

telas que passam filmes de tristeza

ruas cheias de pétalas de rosa,

dançando com o vento; e nos sobrolhos

tens fardos mais pesados que a fraqueza

Do mundo, ave ferida e desgostosa.

 

Se essa tristeza tua fosse só,

Voo breve da borboleta esvoaçante

Que aflita, só dum poiso anda à procura,

Num desespero maquinal da mó

Que esmaga exactamente o concertante

Benigno afecto meu que o mal perfura.

 

Bem tento a grande custo dar-te mais

Mais do que a própria vida mo permite

Escolher a melhor cura, o bom remédio

Mas todas as carícias são mortais,

Oiço o silêncio que o teu peito emite

Sofres dessa tristeza tua assédio.

 

Ferve-me a fronte. O sangue não me flúi

Bem vês no verso rude, triste, estranho

como se fosses árvore que dá fruto;

Se dessem fruto os versos que escrevi,

Talvez me ouvisses mais onde me tenho

Cidade onde o silêncio é diminuto.

 

Se ao menos te arrancasse dessa teia,

Tecida por Aracne com grande arte

Se ao menos fosse espada que a cortasse,

Se fosse o mar de Homero, e tu, sereia

Se eu fosse o fero Marte pra abrandar-te,

A tua guerra interna te cessasse…

 

Há no teu rosto a sombra que desliza

Por montes, quando nuvens se amontoam

E passam lentamente vagarosas,

Iluminado rosto, Mona Lisa

Tens traços que mais altos se me entoam

Pisando as mesmas nuvens langorosas.

 

Um sopro só, e tudo terminava,

Num gesto brusco, num estalar de dedos

Como terminam os longos diálogos

E num costume de ave te aninhava,

Determinando o fim dos teus degredos

deixando a dor entregue aos vãos monólogos.

 

Montanha, onde água brota lá do alto,

Onde meus lábios poisa pra sorver,

A minha inspiração quando me tento

Extravasar-me em vento num planalto,

Como se fosse fogo pronto a arder,

Eu quase expludo, amor, quase rebento.

 

Minha ondulante rica e extensa seara,

Que no meu verso dás a tenra espiga

Salgueiro onde me deito junto ao rio

Sombra, que nunca em vida, me deitara

Minha rainha, mais do que isto: amiga

Fiel que agora treme e não é de frio

 

Já foste, da alegria, embaixatriz,

Já foste a luz que cega o ódio humano

Também já foste a minha tentação,

Já foste do meu mundo, imperatriz

Já foste Lua cheia em meu engano

Verdade dentro da minha ilusão.

 

Já foste a chave de ouro que abre portas

Quando procuro à noite o que há perdido

Já me queimaste incenso no teu templo,

Já converteste em vidas, horas mortas

No tempo onde me tenho corrompido

No leito, a bela estátua que contemplo.

7

Despe o casaco amor antes que seja,

Tarde demais, meu anjo, pra despi-lo

Despe também a alma antes que veja

O que lhe fez o corpo antes de ouvi-lo.

 

Tira-me amor também todo o cansaço,

Pra que no nosso amor te seja escravo

Extrai dentro de mim um beijo, abraço

O que quiseres: rosa, orquídea, cravo

 

Amemo-nos no meio da escuridão,

Onde mais se desvendam mil segredos

Pensemos que na vida tudo é vão,

Se nos vestimos com a cor dos medos.

 

De noite é que o silêncio mais nos morde,

De noite é que o teu beijo mais me anima

De noite é que ninguém é conde ou lorde

De dia é que perdemos nossa estima.

 

De dia é quando a noite em nós existe,

Na mão tirana empunha o ceptro, e nós

Ficamos mansos mas a sombra insiste

Em que haja sombra em nossa alma e na voz.

 

De noite é quando há luz em nosso leito

Depois que a chuva geme no telhado

Mesmo que seja fundo o nosso peito

Depois que foi de dia esvaziado.

 

E é neste vagaroso carrossel

Que eu quero a vida longa no elixir

Prende-me a vida inútilnum cordel

Talvez faça sentido este existir…

 

De Pai para Filho

Um dia hei-de agarrar-me ao que não tenho

Saudade deste dia em que me lembro

Do dia em que o vivi soturno e estranho

Como um chuvoso dia em Novembro.

 

Um dia hei-de enfeitar-me com meus versos

Sendo o restante desta minha herança

Obra nascida entre ódio e desconfiança

Onde os sentidos ficam submersos.

 

Tu, que serás um dia um homem feito

A arca dos meus segredos será tua

Talvez sejas o oposto ao que hoje sou

 

Que nunca ganhes, filho, este meu jeito

De cortejar a Terra, o mar, a Lua

Que nunca nunca em vida se encontrou

 

Ode inútil

Dentro de um cubículo... e se de repente

Estalasse dentro de mim uma fúria compulsiva

Deitando tudo a perder, ardesse por inteiro

E transformasse em cinzas o mundo que criei

E me dissesse falso, em vida, um cadafalso

Um mentiroso em verso que diz sentir

As máquinas complexas do pensamento?

Um espasmo arrepia-me num sopro o corpo inteiro

A alma rebola pela ladeira de relva verde

Num jardim no Paraíso. Estarei lá, não é preciso

Pairar sobre o abismo separando-me do real

E do irreal, do que comove e me perturba

Do que me chama à razão e logo a chama

Arde-me nas veias, sem veias, mil veias

Profusas dentro, interno de mim, fora de mim

De ser um átomo nesta vida impaciente

Ansiosa, meiga donzela, a ansiedade

Persistente. Ah, se todo o amor soasse assim

Valeria a persistência de Verónica bondosa

Enxugaria as lágrimas dos rios e dos mares

Acolheria todos os pássaros que voassem

Perto do banco de pedra onde me sento

Todo o dia, sem pressa, sem cansaço

Fechado num quarto escuro de silêncio,

Abraçado por milhares de braços femininos

Nos jardins da Babilónia antiga e nova

Pouco importa. Cheira-me a um perfume

Fresco, azul, suave, límpido, puro, vindo

Das florestas encantadas por onde Adónis

Andou, atraindo a atenção fervorosa de Vénus.

E quem me diz que um dia não a verei

Passar à minha frente e sentar-me, ouvindo-a

Contando as mesmas histórias ao mancebo

Por quem se apaixonou? Sei lá! Um dia

Derramarei sobre a cabeça as cintilantes estrelas

Caindo a pique todos meteoros e cometas

Setas de fogo, mísseis e morteiros

Lançados pelas bocas espontâneas das deusas infernais.

Por vezes desperto-as, fúrias dentro de mim

 

(sim, meu amor na terra e no Invisível,

Liga-lhe a dizer que estarás a tempo e horas

No sítio combinado onde eu me apresso para sair.)

 

Agora, calmo e suspenso num lago de vidro

Vibro mais que mil guitarras juntas,

Distorcendo a voz fecunda de mistério

Saboreando lábios frescos, água límpida

Dos lagos que um dia irei drená-los

E afogar-me neles, num êxtase prolongado

Abandonado, suave, brando, plácido

A placidez dos mortos, a calma heróica, firme.

 

(O quê: ele disse-te isso?

Quanto tempo é preciso hibernar nos troncos,

Das árvores, para que esfrie a estupidez?

A estúpida e desnecessária conversa vem,

Como um baloiço velho, rangendo a nada)

 

Um dia, sempre um dia, só num dia

Rasgo-me diariamente a pensar nesse dia,

Peso-me na balança de Témis, a ver se o dia,

Pesa-me mais pensar nele do que pesar-me

Tarde, de me encontrar no equilíbrio,

De quem não ama, chora e sente sofregamente

De refrescar-se na sombra verde escura,

Dum frondoso e vaidoso salgueiro junto de água

Roçando levemente os ramos no belo rosto do rio

Pedindo quase que o lave e leve

Aquela verde transparência bela e eterna.

 

Onde está o Jacinto que Apolo feriu,

E Dafne chorando dentro dum tronco de loureiro

Onde está Juno perseguindo o Velho Júpiter,

(Mesmo sendo o Pai dos deuses presta contas

À esposa que o não larga, que o vigia)

Onde está Mercúrio tocando a suave flauta

Pesando as pálpebras a cem olhos bem despertos?

Onde andam Galateia e Aretusa?

Certamente, andam nas compras, pelas montras

Comprando pulseiras, fios e diamantes,

Rendidas ao encanto da humanidade inteira.

 

E aquelas ninfas de cabelos verdes

A refrescarem-se nas piscinas azul turquesa

Rodeadas de palmeiras, música e bebidas

De néctares ou vinho sempre vertidos por Baco

Completamente embriagado, ainda a maldizer,

De toda a raça Lusa em frente ao mar Atlântico?

 

Mas tudo se dissipa, tudo se quebra. Ouve-se

Ao longe, onde o horizonte nos separa,

O conhecido do que se vai conhecendo

Um trovão acompanhado de um clarão

Que esclarece a noite num momento curto

Assim cessa a minha Ode à minha Loucura,

Nas coisas em que penso quando falo a alguém

Se entrelaçado nas perguntas desnecessárias

Como aquele que falou à minha bela Musa

De tudo o que me mata, me rói e me deprime

Na estima de ser-se vivo, amando no presente

O momento derradeiro, na busca vã da vida

Onde se vive só sem haver busca alguma.

 

Pouso num ramo da árvore de mim

Enrolo-me o bastante para me chamar serpente

De reluzentes escamas, de boca cor da noite,

Dizendo que me venha tentar agora

Enquanto existe fôlego, centelha

De escrever os versos sem que escreva versos

De propagá-los como se propaga a praga,

De insectos pelos campos cultivados,

De caminhar por pomares riquíssimos,

De frutos saborosos, de ideias e poemas

Que colho agora um, e depois outro,

Para que possa ter a boca fresca quando falo,

À frente quando imagino toda esta Ode inútil

Cintilações

Sonho co’ o que não vejo à minha frente

Meus olhos brilham mais que mil cristais

Cintilam que as estrelas, muito mais

Flutuações que a mente me consente

 

Sou dos felizes, estranho e dissidente

Vivo num reino ansioso, sonolento

Do que me inspira e absorve o pensamento

Água do mar na areia fina e quente.

 

Render-me ao ser do qual me transformei

Suporto-o, como rigoroso Inverno

De me julgar assim, já nem recuo

 

Escondo o que escrevi, o que chorei

Condeno o ódio às chamas deste Inferno

Donde vim e me resumo num amuo.

Desde quando?

Foi desde que momento em que apurei

Mais do que qualquer um dos meus sentidos

Que agora andam no corpo bem perdidos?

Foi desde quando? Ignoro. Ah, não, já sei

 

Penso que era no mês de Abril, depois

De ter estado tanto tempo em casa,

Depois que me quebrei, e jurei pois

Não mais quebrar, menti, a minha asa

 

Foi desde que empunhei a minha espada,

Sem ter a minha espada, quando a vi,

Enferrujada, antiga, e embainhada,

Na languidez do corpo em que vivi

 

Os lábios de uma flor por renascer

Da terra, onde germina a vida imensa

Depois que o sonho veio florescer

Sem fim, numa planície verde extensa

 

foi desde que me lembro do crepúsculo

Entrar no seio branco do papel,

Entumecendo o meu vermelho músculo

Provando, amargo e doce, o doce mel.

 

Foi quando a solidão bateu-me à porta

E numa ingenuidade de criança

Deixei-a entrar. Vinha suspensa, absorta

Que, sem saber, levou-me a esperança

 

Foi desde que a verdade era mentira

Vestida com roupas íntimas loucas

Que num louco querer ela não tira

(E destas mentiras não foram poucas)

 

Foi desde que estendi a mão a alguém

Lhe reservei consolo no meu peito

Aquele quente que um coração tem,

Que logo esfria se lhe muda o jeito

 

Se sente na firmeza uma fraqueza

Ou manifesta ter a chama ardente

Do fogo que consome com franqueza

Florestas infinitas vorazmente

 

Foi desde que senti a mordedura

Fatal duma serpente que nos tenta

Tudo o que a tentação permite e apura

Tudo o que a tentação me representa

 

Foi desde que voltei costas ao mundo,

(que agora pago um preço elevadíssimo)

Sentindo o chão sem fim nesse profundo,

Beleza de ser-se humano e brevíssimo.

 

Foi desde que rasguei limitações,

de vãos valores muito bem falados

Que no íntimo geram turbilhões

De mil ventos confusos, revoltados

 

Foi desde que sorri ao ver nascer

O meu primeiro sol no céu azul

Achando-o belo e enfim, desaparecer

Na escura vastidão de Norte a Sul

 

Foi desde o tempo em que me tornei gente,

Porém, não me lembrando dessa imagem

Em que foi desde o tempo, certamente

Que o Belo amei, ouvindo-o da voragem

Pergunta e Resposta

Quantas mudanças mais, amor, precisas

Nas sombras que te cobrem no que vales?

Quantos bens inventaste para os males

Nas frases que me exalas indecisas?

 

Nem descrever-te o meu amor sincero

A pena valerá. Que pena dura

Olhar-te sem que sinta uma ternura

Numa cena silvestre, que amo e quero.

 

Palavras que disser, não valem nada

Falar-te como amigo, ó minha amada

que tempestade é solta. O que me queres?

 

«Quero-te apenas só ter-te a meu lado

Qual gato que no mundo anda ignorado

Para ser tua sempre que quiseres.»

A tua dor é doce

Tinhas encantos sóbrios de ave lúcida

meu astro esclarecido de luar

e a Lua por mais bela era translúcida

que andava pelos cantos a chorar.

 

Tu tinhas nos teus olhos a magia,

que tem a Natureza quando vem

na estação que me traz a Poesia,

que, por exemplo, o Inverno já não tem.

 

Agora que és, que penso em que não posso

pensar no que tu foste e agora és

Ainda és tu! Deixa-me olhar-te bem!

 

Horas que nos apertam no pescoço

as mãos, pisam-nos tanto com os pés

quando domar a dor não nos convém !

Ave ferida

Florida, reluzente, livre e forte,

Bela, como a estátua da Liberdade,

Assim te conheci, estrela do Norte

Sem manhas, sem rancor e sem vaidade,

Crê, minha amada flor não é por mim

Crê antes que me dói por ver-te assim.

 

Encolhes como um punho contraído

Num sítio em que se vê sangue vermelho

Relaxa no meu ombro, anjo dorido

Serei, dessa tristeza, ao sol, o espelho

A reflectir com raios fulminantes

Nos olhos da tristeza, como dantes.

 

Demora a funda cova, a sepultura

Bem sei que olhos alheios cravam facas

Nem sei se vale a estranha acupunctura

Se sentes como se cravassem estacas

Como ao lendário e sedutora vampiro

No coração. Dizes-me: “é mais um tiro.”

 

Na mente que não cessa de pensar,

Enquanto dura a clara luz do dia,

É como se estivesse a debandar

Cá dentro, a mesma luz clara do dia,

Mas eu já não distingo a luz e treva

Pior: tudo me enoja, tudo me enerva”

 

E cais nesse buraco em espiral

No cais sem mar sem tua embarcação

Leme quebrado tendo temporal

À frente, diariamente, a confusão

Nos dias que se vergam as vontades

Nesta selva, na Feira das Vaidades.

 

Este silêncio de ouro e de cigarras

Ordenador de ideias e loucuras

É nesta altura em que se afiam garras

Cravando na Tristeza mil ternuras

Que tanta inveja tem da humana gente

Oiço-a a ranger a vida como o dente.

 

Parece que também oiço o escarninho,

Que se propaga em eco em mim também,

Oferecendo sempre o doce vinho

Libertação de Baco que não tem

Libertação nenhuma. É momentânea

Prendendo pernas, mãos, à alma espontânea

 

Dorme como as pedras nesse rio

Que todo o dia dá um beijo ao Tejo

Longo e demorado, sem fastio

Que um rio ser também é meu desejo

Regando à minha voltas, belas flores

Florindo e suspirando por amores.

 

Lembra-te, amor, também como começa

A dissipar-se a névoa pelo sol

Que não é sol, também não é promessa

É dura pena de ficares mole,

Lama onde se enterram fundo os pés

Voltando, novamente, a ir outra vez.

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