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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Inspiração

Amo a noite, o escuro, o corpo, a cama

A mágoa a enrolar-se na escuridão,

Amo aquele beijo húmido, a chama

Um novo incêndio no meu coração.

 

Amo a nudez dos astros e da lua

A trégua dada pela a amarga vida

Amo o esplendor quando te estendes nua,

Como um lençol de seda, adormecida.

 

Amo, no quarto, a sombra azul escura

Se meus lábios demoram-se nos teus,

Amo o salso suor sem ser secura

Na boca, os olhos teus, fixos nos meus.

 

Amo os libertos cheiros dos dois sexos

A búzios a limos e algas marinhas

Amo as nocturnas frases e os amplexos

E as tuas mãos coladas quase às minhas.

 

Amo os desenhos feitos por meus dedos

Na tua lisa pele cor de leite

Amo esta hesitação como se os medos

Fossem também de noite belo enfeite

 

Amo seguir com olhos de falcão,

Contornos do teu corpo são, roliço

Amo quando me aceitas com paixão,

E quando não, amo como um noviço

 

E quando para trás a fronte inclinas

Para deixar-te escrito o meu poema

A ver-te como nos lençóis declinas

Para mudar de enrendo ao nosso tema

 

O enrubescer das faces se demonstras

Maior e voluptuoso entusiasmo

E o percorrer das línguas cada encosta

Que servimos de entrada antes do orgasmo.

 

Amo entreter-me como uma criança,

Feliz dentro da loja de brinquedos

Amo dizer-te versos de esperança

E dissipar-te os teus pungentes medos.

 

Amo beijar-te as pétalas rosadas,

Amo acender mil velas no desejo

Amo ter nossas línguas enroladas

Como as cobras com seu álgido beijo

 

Amo ver-te o cabelo em desalinho

Como vaidosos e verdes salgueiros

Amo aninhar-me no teu morno ninho

Os sons dos lábios húmidos, inteiros

 

Amo o final que soa a sinfonia

Do rei do romantismo, alemão louco

Talvez na nona, aquela Ode à Alegria

Na orquestra em que também contigo toco

 

Amo matar-te a sede e saciar-te,

A fome, que depois, tens de conversa

Trazer-te a água fresca e contemplar-te

Depois ver-te no sono já submersa.

 

Amo este matutino cheiro de ontem

Nas madeiras e cortinas entranhado

O ouro reluzente que o sol tem

Que de manhã, o sol é abençoado.

 

és tu

És tu quem me acompanha, passo a passo

Num melífluo compasso bem seguro,

És tu que, na tormenta, se inseguro,

Me seguras, com longo e imenso abraço.

 

És tu, que me transformas, branda e doce

Com brandura terrena nos meus dias

E eras tu também que me seguias,

Meu passo incerto como se ébrio fosse.

 

És tu, amor, o meu véu de Verónica!

(Quanto a vida ensinou-me ser irónica

Na voz que embala oculta o que decreta!)

 

És tu, na La Pietá que me seguras

Como uma mãe seu filho; assim me aturas

Belíssima, magnânima, concreta

A eremita

(a Maria João de Sousa Brito)

 

Quase eremita luta a vida inteira

Armada de caneta e de pincel,

Escreve excelsos versos, doce mel

Na tela é sol, exacta e verdadeira.

 

Com pouco vive, mas desfaz-se em tanto

Na vida, em verso ou prosa ou na amizade

Um anjo iluminado entre a maldade

Águia que alcança os céus sem mágoa ou pranto

 

Corre-lhe o sangue ardente em suas veias

O canto que há num rio de sereias

Nos dias em que a sombra empesta o ar

 

Numa leitura assídua, eis seu soneto

Que me compõe no peito um minuetto

Sentindo o que há no peito pra acordar

Em pouco tempo

Faltava pouco tempo pra voltar,

A ser uma bebida e ser bebido,

Quebrei a lei da vida e decidido

Na livraria, eu estava para entrar,

 

Não fui capaz de ler os livros todos,

Que pena! Livro a livro folheava

Como se verso a verso devorava

Retendo os que gritavam de maus modos.

 

Restava-me um tempinho, espaço curto

Para beber bem quente o meu café,

sugando o meu cigarro com prazer

 

Ainda ouvi notícia de outro furto

Como se ouvisse propagar-se a fé

E isto foi tudo o que consegui ler.

Esplanada

O ócio da esplanada faz-me bem,

Transborda o meu vazio como um rio

Eu tenho fome sede, calor, frio

Tenho meu nome que ninguém mais tem.

 

A minha alma num sopro se dispersa,

Com opulentos olhos de pecado

Tirando a blusa ao seio abandonado

a uma mulher sensível e perversa.

 

Olha, que bela fêmea! E como a mesa,

Se regala e bem sente em cima os seios

Meio despidos, deslumbrantes, cheios

Dois mundos formidáveis, com certeza.

 

Beleza? Todos falam no conteúdo,

Por tudo, tudo o que muda é um exterior,

Que tem o cavo som do meu estertor,

De dia, quando vejo mal em tudo.

 

Feliz e louco andando de baloiço

Contraste entre a Loucura e a Razão

Brilhando um pouco eu sinto a solidão

Qual violino eléctrico que eu oiço.

 

Acordo os meus sentidos sem querer

Como se acorda à noite alguém que dorme

Eu vejo além um lindo seio enorme,

Que quase pede esmola para o ver.

 

Na roupa, as vivas cores, várias formas

Os braços nus roliços, transparentes

São garras afiadas languescentes

Nem são braços humanos, são mais armas.

 

Vejo, esclarecido e apaixonado,

Como um garoto pela professora,

Acende-se um rastilho que arde fora

Da minha alma no corpo ultrapassado.

 

Os meus cincos sentidos multiplico-os

Por mil. Reino cinquenta mil sentidos

Num castelo onde estão bem protegidos

Pela Razão onde austero castigo-os.

 

Meus óculos escuros que me escondem

Dilatações espontâneas da retina,

Cantam canções com pompa e pantomina

Versos que ninguém escreve e ninguém tem.

 

Grande mistério é ver, neste jardim

Tudo o que penso das formosas flores.

Que pensarão? Será que dão louvores

Que enigma? Que ideia terão de mim?

 

Respeito a boa máxima: que ignora

Tudo o que dizer possam, mas não penso

Meu pensamento alonga-se e pertenço

A quem saber quer tudo senão chora

 

Seguiu-se o verso no dia seguinte

Que se me não lembrasse eu ignorava

Lembrou-me então dos versos que deixava

Nesta esplanada com igual requinte.

 

Nem sei que nome dar a esta doença

A minha alma parece um microscópio

Um visionário olhando o telescópio

Como se cá sentisse má presença.

 

A minha boca bebe água sagrada

É como um elixir da longa vida

Assim se encontra a minha alma perdida

Que além de ser estranha é bem amada

 

Não quero alimentar meu corpo mais

Pesam-me as pernas, braço, mãos e dedos

Pairando vai a névoa dos meus medos

Que das pedras, das flores, são iguais.

 

O homem sorridente triunfante

Vestindo fato escuro com gravata

Sinto lá dentro um nó que não desata

E tem no olhar um líquido brilhante.

 

Na idade, uma mulher ultrapassada,

Que mal aceita a ruga a cor da pele,

Tem uma cor escura como o fel

Que se bebe nesta mesma esplanada.

 

Começa-me a faltar a simpatia

Que tinha pela inteira humanidade

Nela, sou prisioneiro que se evade

E corro para os braços da Poesia.

 

Faltam-me amigos meus de longa data

Amantes das delícias vis, mundanas

Que sobre a terra ó deus tão bem enganas

Nesta amargura que entedia e mata.

 

Não sou muito diferente desta gente,

O esforço que se faz para ser feliz

Todo o ser que alma tem se contradiz

Quando diz ser no instante e longo mente.

 

Ó mundo meu, concede-me esta sombra

A sombra que o chapéu do sol me faz

No fundo, em guerra, encontro alguma paz

Num metro de Beleza que me assombra.

Devaneio

Aceno como um louco e digo adeus

Nos versos meus soltando um grito mudo

Que nunca grita o fogo que arde em mim,

Enfim, fogo não arde, chama de vela,

Pinto numa tela toda a vida,

Sempre envolvida em lava de vulcão,

Grita-me o coração a tempo inteiro,

Que sejas verdadeiro o tempo todo,

Sempre num modo brando de poeta

Em linha recta, como Aquiles bravo,

E agora escavo fundo a cova escura,

Sem ser a sepultura antecipada,

Repousa, ó minha amada, ainda pulsa

O que repulsa a morte tanto a vida

Como ver-te envolvida nos meus braços,

Ouvindo os passos no ranger dos dedos,

Sem medos, no teu corpo atapetado

Durante um bom bocado, me exaltando.

O que vou dando é pouco, amor, bem sei

Nisto pensei durante a vida inteira

Eu tenha, da oliveira, uma tristeza,

Sem cura, a natureza de quem cega,

E rega em solto pranto o campo extenso

Ao qual pertenço, o traço numa tela

Exacto, àquela imagem que espalhara

Onde me ampara ou não ser ou ter sido

Se entendido por tão pouca gente,

Mas lentamente, no ritmo das horas,

Sei porque ignoras minhas ambições

Por serem ilusões de uma criança.

Porém tanta esperança ela fornece

Nunca se esquece o riso puro e terno

Ou sonho interno que dentro se guarda

Na caixa duma mansarda em ruínas,

E tudo o que me ensinas não me esqueço,

E se mereço ignoro. Assim me encontro

Num ponto em que mantenho útil andar

Sem me acalmar, bem sei, fervendo em pouco,

Por ser em tudo louco onde me vejo

Na água, arquejo como a árvore esquálida

Numa cálida noite de Verão,

Onde questão alguma em nada existe

E só persiste em Tempo a mágoa, amada

Beijada mão, na vénia à natureza,

 

Enfim, nada te soa este poema,

Meu louco devaneio do momento.

Confuso, assim me soa o pensamento

Servindo à Liberdade um belo emblema

 

Do Avesso

I

 

Farei hoje somente o que me cabe

Só o que me cabe! Mais do que isto é crime,

Se houver quem não me entenda ou não me estime

saiba o pouco que só de mim se sabe.

 

Se houver no meu sorriso mancha escura

Na multidão, derrame hediondo óleo

No mar, então que esguiche o meu petróleo

Pois hoje eu não sou quem alguém se atura

 

Vou dum extremo ao outro porque adoro

Ter lúgubre ou alegre melodia

A claridade, irmã da escuridão

 

Ninguém se obrigue a ouvir meu desaforo

Nem ter nos versos alma ou harmonia

Hoje não tenho alma, nem coração

 

II

 

Guardem-me essas palavras amigáveis

Pra quem delas precise, eu só preciso

Ver para além das coisas contornáveis

Entrando novamente no paraíso.

 

De lá fui expulso. Eu próprio assinei

A ordem de expulsão escrita em verso,

Acharam-me, cruel, fatal, perverso

Na alta montanha onde me repousei.

 

Virei-me contra o mundo pois virei-me

Contra mim próprio. Quem se vira contra

O mundo é porque paz não tem consigo

 

Achei-me contra o mundo pois achei-me,

Perdido onde ninguém, amor, se encontra

Porque sem ti, me encontro, sem abrigo

Combate

Entre águia e tigre a águia sempre alcança

Um solo azul que ao tigre lhe é interdito

Mesmo que cá na terra esteja escrito

Espalhar em seu redor desconfiança

 

Entre asa e garra a garra também vence

Quando rugido urgente espanta e fala

Feroz língua que tantas línguas cala

Que ao tigre a selva inteira lhe pertence.

 

Entre homem e animal o Mal e Bem

Com medo, encaram com fogo nas ventas

Uma força medonha desconhecida

 

Já entre anjo e demónio há também

Combate como as hostes que sustentas

Em ti, quando te vejo, assim perdida...

 

Camões

Quantas vezes repetiste formosura

Ó grande astro celeste da Poesia

Quantas vezes reviraste a luz do dia

Ó Poeta, e demandar tua ventura?

 

Quantas cantaste em teus versos sofridos

Drogando tenras flores com teus versos

Que ficaram cá na terra tão dispersos

Que ainda em vida foram também lidos?

 

Quantas vezes me escapaste entre os dedos

Só por querer-te, em vão, sempre alcançar-te

Sujeito a pertencer-te antes de mim

 

Quantas vezes quebraste ódios e medos

Ou vieram nove musas para salvar-te

Da bruma eterna a glória depois do fim?

Assinatura

Se me inteirar dos meus magros poemas

Guardados numa caixa aveludada

Será esquecida, a minha alma, fadada

Erguer, águia imperial, pendões e emblemas

 

Da marca a esquecimento nunca entrando

Na galeria eterna onde lá estão

Poetas, meus irmãos, que ainda vão

Dizendo o que não sentem, blasfemando.

 

Anfitrião no Inferno foi Virgílio

Bondoso, recebendo o grande Dante

Salvando-o duma loba fera e má;

 

Nos céus, do meu destino, não há concílio

Por mais que um véu celeste se levante,

Eu vejo que meu nome não lá está.

Solo de Trompete

Foi desde que me deram para as mãos,

Um grande amigo, um mágico trompete,

Que me tornei pupilo da solidão,

Foi desde que fundei impérios vãos

E à Musa lhe arranquei belo corpete,

Para bem perto estar do coração.

 

Foi desde que entornei a taça inteira

Pela garganta seca, inconformada

De haver mais qualquer coisa maga à volta

E desde então que a vida me é matreira

Bondosa, austera, vil, na caminhada

Frenética corrida de alma à solta.

 

Nem sempre fui sozinho. Sempre, não.

Mas não mais quero ser se rodeado

De gente sem que gente seja e esteja

Na oposta margem, terra de ilusão,

Se bem que me confunde este meu lado

Onde meu corpo morre, a alma festeja.

 

Foi desde que agarrei sujo papel,

E fez-se espelho à frente; ele agarrou-me

Como se me puxasse para si

Mais doce que esse milagroso mel,

Sem saber como, a vida resgatou-me

A ver o que na vida nunca vi.

 

Era invisível, máquina poética

Tomando a Liberdade lentamente,

Como crescendo em solo de violino,

Ou flâmula de fogo, ou vela bélica

Ou lâmina volúvel diferente

Que me tornei proscrito do destino

 

Traçando-o, sempre, sempre, em linha incerta

Para dizer-te, ó vida, o quanto subo

Aos céus, e caio quando me transformas

Num pó dourado ou pomba, descoberta

Miragem visto por estreito tubo

De várias cores, infinitas formas.

 

Foi desde que senti minha viagem,

Por mim como se fosse o globo azul

Um lenho mais pequeno que uma flor

Que usei a silenciosa linguagem

Bebi mais que uma vez ventos do sul

Mostrando em mim no sol novo esplendor.

 

Grato me sinto a ti, maestro amigo

Ó professor Raul que tantas vezes,

Desesperavas só por me ensinar,

O que eu tocar ouvia como abrigo

Durante tantos anos, tantos meses

Como se fosse um deus vivo no altar.

 

Foi desde que não queria ser igual

Como se fosse um mago envolvimento

Como se desejasse aproximar-me

Da imensidão do céu, como se um mal

Tão nítido qual claro pensamento,

Estivesse perto para consolar-me.

 

A música, a música sempre a música,

Novo membro no corpo me assaltando

Noites seguidas novas melodias,

Até que fosse tudo menos física

Pontes em fogo, em chamas lagos, dando

Meu próprio Mundo novo, luz aos dias.

 

E desde que a vaidade tomou conta,

E o sonho converteu-se em pesadelo

Agora colho o que há muito plantara

Sonho atrás de sonhos, que remonta

Os tempos como um vento no cabelo

Soprado pela vida que ignorara.

 

Ah, coisas que me faltam sem faltarem

Verdes canções sinceras não maduras

Ah tempestade que no mar despoja

Quantas loucuras só para me amarem

Ásperas músicas, canções obscuras

Eu era areia fina, do mar, esponja.

 

Levem-me longe versos pela graça,

Da solidão dos claustros, das masmorras

Além da linha exacta do horizonte,

Por tudo o que farei, e agora faça,

Não quero que lume novo me morras

Até ser cinza ou pó e talvez… fonte!

No escuro

De noite, as minhas mãos são criminosas

Cometem no teu corpo esbelto o crime

Trepando como aranhas viciosas

Na lisa pele, onde, amor, mais te anime.

 

Bem sei que é crime à noite ver-te louca

Já dorme o mundo inteiro, mas não quero

Dormir, enquanto não beijar-te a boca

Água que extingue o fogo, o desespero.

 

Na árdua empresa para reanimar-te

No escuro, quando acaba o mesmo dia

Vem um silêncio estranho declarar-me

 

Que mesmo que arda é tarde para amar-te

O que contigo agora eu mais queria

Mas... não? Boa noite, então! Vou apagar-me!

 

Sextina II

Quis por engano, amor, que me cruzasse

Com o teu, meu olhar, como o destino

Ali sempre estivesse à minha espera

Em ânsias fervilhando ingénuo amante

Eu, que essa esperança alimentava

Desde logo que me lembro ser gente.

 

Por mais que em vida tanto mal passasse

Tornou-se, ao conhecer-te, sol divino,

O fim do meu Inverno, e a Primavera

Tornou-se desse Inferno protestante

Porque cativa em treva atrofiava

O corpo, o coração, a alma, a mente.

 

Pensei que nunca mais já te encontrasse

Agora, à Aurora, ao sol, a fronte inclino

Quem muita espera, sofre e desespera.

Que agora este meu canto se levante

eu, que a glória inútil demandava

Tornei-me dela um forte pretendente.

 

Quis que, meu coração, te declarasse

Em verso verdadeiro, calmo e fino

A força que em mim cresce e me tempera

Melhor o dia, leve e refrescante

Contrário à noite escura em que lembrava

A Lua em que aparece vagamente.

 

Fez com que novamente me mostrasse

Valor de quem não cede ao que é indigno

Vivendo nada mais que antes quisera

Não quero mais que meu canto te encante

E espantes quem bem fundo a cova escava

Essa tristeza torpe e deprimente.

 

Quis que no passado muito errasse,

Razão perdesse, e fosse um bom ensino

A Vida sempre estranha doce e fera

E me demonstra ser gratificante

Mostrando seres Ceres que me lavra

E leva a lava meu vulcão ardente.

 

Quis que o rumo errado meu mudasse

De mim, escoasse o que fosse maligno

Música, que no meu corpo impera

Converte a rude pedra em diamante

Porque nem uma jóia antes brilhava,

Era um museu vazio indiferente.

 

Quis que um vento brando me soprasse

e me trouxesse um gosto matutino

De me sentir desperto como eu era.

E que me seja, amor, o verso errante

Sempre, na canção que me embalava

Quando a esperança me era vida ausente.

Ave Verum corpus

 Surgiu dos céus azuis uma hoste angélica

Como se fosse Mozart o culpado

Divino, erguendo as mãos como inspirado

Chamando os anjos da morada célica.

 

Era mais que uma música indiferente

Seu Ave Verum Corpus resgatado

Da imensidão do céu, que não consente

Que alguém olhe o que nunca foi olhado.

 

Trouxeram-lhe a divina partitura

Como se nunca fosse por ele escrita

Em êxtase, num transe de loucura:

 

Por Deus amado escreve e Deus lhe dita

Excelsas harmonias com ternura

Àquela ingénua e pura alma bendita

Línguas de fogo

É como descobrir mentira coxa

Nervosa e desmanchada. É como ler

Os mais simplórios versos numa roxa

Pálpebra, e vê-la doce adormecer.

 

É ver com olhos lânguidos de fogo

Fogosas línguas conquistarem montes,

E vê-los perto bem onde me afogo

No fundo do teu corpo sem horizontes.

 

É como quando um fruto proibido

Nos oferece mais que só trincá-lo,

Nos abre portas pronto a ser comido

Aberto e descoberto pra consolá-lo.

 

Ó falo que me falas noutros modos

Que arrastas as grilhetas deste inferno

Curva-te humilde antes que engulam todos

Os céus rosados límpidos de Inverno.

 

Ó fenda apetecida onde me estreito

Libera-me do dia num segundo

Ó gesto musical raro e perfeito

Puxa-me para dentro do abismo fundo

 

Tormento

Da libido é a culpa, amor excessivo

transborda como quando a chuva cai

o rio enchendo vai, tornando-o vivo

e do meu corpo a libido não sai.

 

Pudesse sê-lo, um dia, decorrente

e liberto, regar milhões de flores,

sofro carnais tormentos, tenho em mente

o que me causa em vida dissabores.

 

É quando a alma se prende ao movimento

das pálpebras rosadas e submissas

guardadas num cuidado maternal;

 

Ah se vos revelasse o pensamento

que a minha alma albergando vai, nem missas

serviriam para combater meu Mal.

Poesia ao trono

Não me acredito na democracia

menos na decrépita monarquia

nem quero ouvir falar em tirania

pior é quando abraçam a anarquia.

Uma da boca exala hipocrisia

Outra calca o povo noite e dia

uns ousam fazer uso da ousadia

outros cegam com falsa filosofia.

E aquele que ousa mais do que devia

e o que promete e mente, a garra afia

e mesmo o que tem torta ortografia;

por todos tenho enorme antipatia!

Elevem como um louco que dizia:

«Ao trono a pura e ingénua Poesia!»

Gótica

Lábios pintados,

Negros de medo

Olhos mortiços

Pele de giz

Olhar nocturno,

Olhar soturno

Negro de fumo

- «Que foi que fiz?»

 

 

Luz de crepúsculo,

Rósea e laranja,

Que mete medo

Lúcida e fala

Grávida lua,

Tão bela e nua,

Que em mim flutua

Que aperta e impala

 

  

Lago, veneno

Na lama ou lodo

Esverdeado

O que me ensina,

Este perigo

Ter-te comigo

Amiga, amigo

De areia fina.

 

  

Ilha nocturna,

Pântano negro,

Caindo um céu,

De fogo, Inferno,

Com seio arfante,

negro estudante

espiral de Dante

Neve de Inverno.

 

  

Tão bela e pura

Que não merece

Desdém desprezo

Do claro mundo

Tão fina e forte

De flor, Mavorte

Como a consorte

Vendo meu fundo

 

  

Bela, romântica

Áspide ou víbora

Arminho ou pomba

Gótica, airosa

No rosto espelha

Viva centelha,

Alma vermelha

Espinho de rosa.

  

 

Formoso rosto

Mão delicada,

Mórbida e louca

Angelical

O ar renova,

Impregna e prova

Perfume a cova

Celestial.

 

  

Mil melopeias,

Com ela arrasta

Afasta a gente

Com vento. esfria

Olhar de fera

Numa outra esfera

Sombra, quimera

De noite e dia.

 

  

Assombro ou sombra

Num céu cinzento,

Num trilho feito

De púrpura cor

Como ela avança

Paira e descansa,

No ar, e dança

Fogo, fulgor,

Quem namorá-la,

Há-de encontrá-la

Viva na fala

Morta de dor. 

Quinze de Agosto...

Não durmo. Nem sequer o sono invoco

Esperei que a noite se tornasse dia

louco prazer de qu'rer armar-me em louco

Para arrastar um verso à Poesia.

Antes que seja tarde e murche a flor

Antes que cedo seja a minha vida

E sofra, amor, remorso, antes do amor

Ao ver-te deslizar nesta descida.

 

Sabe-me a pouco o ruminar da tarde

Impaciente espero o fim de Agosto

Ando na escuridão sem grande alarde

Fazer, sem me causar ou dar desgosto.

Como se numa noite desejasse

ser Tom Sawyer só para lembrar-me

como era ser criança e reparasse

que adulto, ando na vida a enganar-me.

 

Antes que saiba a fumo de cigarro

Numa cortina velha consumida

Pelos anos colados como barro

Numa parede branca que é a vida

Porque me lembro bem como um castelo

Visto, no alto cume da montanha

Fomos corpos unidos num ser belo

É na cidade que a minha alma estranha.

 

Choramos quando vemos um sorriso

E que nos cintilou num céu de estrelas

(sorriso saboroso a paraíso)

Prontos no final pra recebê-las.

E penetramos fundo nossos olhos

Nos lábios sábios, nos cabelos brancos

E vemos carregados os sobrolhos

Como uma dor atroz em nossos flancos.

 

Não quero despedidas num olhar

E sei que em seu olhar há despedida

Milhões de lenços brancos a acenar

Cumprimentado a Morte: adeus à vida!

Uma vez mais sentir a ruga, a mão

O bem que nos fizeram; mesmo o mal

Que bem o diluiu meu coração

Tornando o mal pequeno, o Bem fatal.

 

Centelha, até que finde, ainda dura

A festa perfumada de mistério

Na exaustão do corpo na ternura

De ter amor e ser rei neste império

Gerar alegre seio como brotam,

Dos ramos de árvores os doces frutos

E como trocadilhos beijos votam

Estar rodeado, avô, de tantos putos.

 

Jogos de cartas, corridas na relva

Viagens p’las montanhas afiadas

Lembro-me hoje no meio desta selva

Sobre si, as histórias inventadas.

Bem sei que quase entrou noutra mansão

Sem ser chamado, avô. Aguarde a vez

Na nossa terra humana submissão

Há-de contar-me ‘inda o que em vida fez.

 

Nocturno vento, noite sem memória

Lençol azul sereno, Ursa Maior

Trapézio sobre um céu sem tempo história

Que nos há-de revelar esse amor,

Ó chão que piso, aberta porta aos anos

Solene alma que brota amargo verso

Sara feridas negras, mágoas, danos

E vem rasgar-me, ó Noite, este Universo!

A uma Flor do Mal

Ela é uma linda flor, ela é uma borboleta

Esquiva como um esquilo, feroz como a leoa,

Ela é uma agreste dor, aguda como a seta,

E tem um lindo rosto mas é má pessoa.

 

Deixa uma porta aberta aos seios à janela

Quase nos revelando o seu mistério enorme

Quase como a pomba que esvoaça branca e bela

Ela tem corpo esbelto mas a alma disforme.

 

Ela tem a cultura das rosas quando fala,

Pois aparenta ter um saber cor de rosa,

E traz sua barbárie dentro duma mala

Falível no discurso, no tacto monstruosa.

 

A boca dela é linda, a sua língua é grande

Incontinente, às vezes, que por vezes magoa

enquanto o macho tem um latejar na glande

De ouvi-la, uma mulher por dentro sofre, enjoa

 

E veste-se de púrpura da cor duma rainha

A ninguém dá ouvidos, da cor da solidão

E tem cabelos negros como uma andorinha

Mas tudo lhe é contrário, na alma e coração.

 

Ela é a vela acesa, ela é fósforo apagado,

Ela é a linda Lua, ela é um vácuo escuro

Ela é igual a tantas, buraco negro e dado

A engolir pessoas e um falo longo e duro.

 

Tão langorosa fez chorar a minha Musa,

Enchendo o lago tanto a sua dor maior

de ser gente complexo, ser gente confusa

Aquela Flor do Mal no fundo é um mal menor.

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