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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

soneto moribundo

Maio 13, 2008

Eu guardarei uma saudade desta árvore,
Que ondula numa dança delicada de bailarina
Com leveza nos pés, de um ser apaixonado,
Humilde, perante agreste vento que me ensina.
   
 E a saudade será meu derradeiro sopro,
Maior proximidade com as coisas, antes
De imaginar ter asas, flutuando pelos ares,
Voando, como tu, Morte, antes que me encantes.
  
Que me envolvam, ervas daninhas, rosas, dálias,
E só de vós meus ossos sofram represálias,
Enquanto durmo um sono maior que o mundo.
    
Floresçam também vós, em cânticos de aves
E que na terra, tu, meu cântico me caves,
Balada silenciosa e terna, lá no profundo...

Soneto temporário

Maio 12, 2008

Se é temporário o mui que me atormenta,
Descer aos céus dantescos num só dia,
Deponho armas no chão que não sustenta,
A dor que vem palrar-me à gelosia.
  
Nem quero a cor maior na poesia,
Ver quem tanto me arde e se me apresenta,
Distante olhar o teu me desafia,
Ser penitente humilde na hora lenta.
 
Chumbo têm os ponteiros do relógio,
As horas correm tal se corre em sonho,
Como tentar socar face de alguém;
  
Vales bem esbanjar meu elogio,
Porém, rosto alvo teu manténs tristonho,
E eu passo a ser tristonho e actor também.

Retirada

Maio 09, 2008

As setas que lançaste em teus olhares,

Dardejam o ígneo fogo e os meus debandam

Pernas não têm e no solo não andam,

Porém, dentro de mim, queimam-me altares.

  

Lembram silenciosos crocodilos,

Com rochas, dentro de água, se confundem,

Por mais que olhos assim olhem e abundem,

Os meus fogem dos teus como os esquilos.

  

O corpo esbelto tem extrema graça,

E dúctil fala com grande eloquência,

Mas nobreza lhe falta e eu sei disso;

 

Quando amorosa voz, que despedaça,

Sonora me esclarece a consciência,

Ouvindo-a, flor, pra não me meter nisso.

Lembro-me...

Maio 08, 2008

(Ao Hélder Carrudo e João Pedro Pinto)

 

As dores que chorámos e vivemos,

Palavras que engolimos no perigo,

Rugem dentro de mim, agora, amigo,

As dores que chorámos e vivemos.

 

Os muros que saltámos e fizemos,

Espreitando agreste mundo lá de fora,

É um beija-flor que agora me enamora,

Os muros que saltámos e fizemos.

 

Os jogos que jogámos sorridentes,

Aliviando a negra cor da Morte

Jogam dentro de mim Roda da Sorte,

Os jogos que jogámos sorridentes.

 

As infinitas cartas que escrevemos,

Nunca as rasguei. Guardei-as dentro de mim,

E frases relembrei escritas no fim,

Nas infinitas cartas que escrevemos.

 

E segredos, e medos que escondemos?

Amigo, são mulheres em pedestais,

Como elas, choram dores, mágoas tais

Segredos e medos que escondemos.

 

E as conversas doces como frutos,

Guardei-lhes o sabor que hoje não provo,

Toda a conversa a nada sabe, e aprovo,

Nossas conversas doces como frutos.

 

E as vezes que pintavam nossas faces,

Da cor das rosas púrpuras e vermelhas,

Ainda me estalam estas histórias velhas

As vezes que pintavam nossas faces.

 

E em bando as correrias apressados

Por amplos corredores, e estreitas salas,

Nos bailes sumptuosos, dias de galas,

Alguns de lá saiam enamorados.

 

E todos uma vez só nos separámos,

Espalhados pelo mundo como flores,

Crescem-me agora lágrimas de dores,

Por esse dia em que nos separámos.

Elegia

Maio 07, 2008

Quantas horas  me restam pra compor,

minha Babel, amor, de sombra espessa,

se sedutora pressa me transtorna,

e a taça entorna feita de ouro e Vida?

Recebe esta elegia rancorosa,

Como uma gota de água desgostosa.

 

Resta-me de cão, minha coragem

desfeita imagem em vidro verde escuro,

adormecendo, duro enquanto vivo,

não for cativo, igual ao semelhante,

se se assemelha o ser à branca tela,

diria que rasgada ainda é mais bela.

 

Gritam-me choupos verdejantes dores,

diferentes dos amores ressequidos,

apodrecidos na mente guardados,

lembrados, dias tórridos de Verão.

Já não me gritam mais. O vento foi-se,

o que fazer no Tempo? O Tempo rói-se.

 

Não há nesta cidade alegres goivos,

há só do Nada noivos, temperamentos,

novos esquecimentos de eloquência,

há só a nova essência de existir,

nunca para lá da linha do horizonte.

Do dia, 'inda queres, amor, que o conte?

 

Ó ruína dos monumentos já passados,

erguidos, planeados, desaparecidos,

rendidos no papel branco impecável,

branco, sempre amável, disponível,

aberto, quais cortinas de manhã,

nos dias em que vivo a vida vã.

 

Descai-me o queixo, os olhos brilham quando,

proscrito, namorando vou os veios,

por entre meios discretos, novos frutos,

doces, resolutos, quando espreitam,

pela janela feita em pele e blusa,

Com flamejantes olhos de Medusa.

 

E as torres, os espelhos, candeeiros,

e os desordeiros vendavais soprando,

carros transpirando a gás, a fumo,

A isto não me acostumo, e tu bem sabes,

não pertencer a mais ninguém sem ser,

a quem mais do que a ti possa valer.

 

Mas não me dês amor grande importância,

nesta inconstância imensa eterna e louca,

a vida já se apouca, já se estreita,

demora-se imperfeita mais que a esperança

pudesse eu transformar-me em breve vento,

e fosse onde eu quisesse em pensamento...

Humorismos

Maio 07, 2008

Se meu humor, do teu, amor, depende

e não me entende ousado gesto com,

enleio leve de elevado tom,

verso de poeta é que ninguém entende.

 

De quem me diz que o verso compreende,

e vem julgá-lo imenso, nada ou bom,

não reconhece na arte, o génio, o dom,

nem teu humor, do meu, amor, depende.

 

Grite a Liberdade! Exiba o seio,

a esta elite parda que aborrece!

Soe-me um só sorriso amplo, sincero.

 

Que eu ponha sempre em verso humor no meio.

Possa julgá-lo o mundo, que escurece

Pura sabedoria. E isto não quero!

A Razão e a Loucura

Maio 06, 2008

O que dizer importa, não me importa,

O que dizer me presta, já me empesta

O que mais me enobrece, não me resta,

Essa Loucura avara que conforta.

 

Porque não vens cantar-me uma elegia,

Roçando, de alvo rosto, a mão bondosa,

Mais que a Loucura acerba e invejosa,

De ouvir Razão cantar Ode à Alegria?

 

Na escolha, eu tento em vão ser mais sincero,

E quanto mais Razão, Loucura quero

Vir em fraqueza o seio consolar-me;

 

Porém, uma sem outra, não renovam

A Vida, e a minha escolha mui reprovam,

E então a Solidão veio abrasar-me.

Consolação

Maio 06, 2008

Regresso longo, ao lar que me conforta,

Abre-se a porta, ao véu de um céu violeta,

Nem seta de ouro o sol lançou na terra

Escurecendo a serra tão formosa;

 

Pende exangue a Lua, baça e morta,

Absorta, olhando nuvens, corre à meta

Liberta a prata, e uma tristeza encerra,

Coroa a branda terra tão mimosa.

 

Triste pensar nocturno, esconde encanto

Na cor do canto, Musa, que a ti faço

Na languidez da noite adormecida;

 

Eu posso ter-te, amor, queda e vencida

Se abandonada ao nosso doce abraço,

Pecado que provoca à Lua espanto.

Império Azul - Aos alunos do I.M.P.E.

Maio 05, 2008

Do vasto império azul, guardo em memória

Chegam-me em bando imagens, densa névoa,

Nuvem de estorninhos, conto ou história,

O presente, é um falcão, que os sobrevoa.

 

Minha mente alcança-os, e alto, entoa,

Canoro hino, saudando a alvorada,

Numa melancolia doce, soa

Às botas a baterem na parada.

 

Ressoam como as ondas embatendo,

Nas rochas, branca espuma, nos escolhos

Rugindo, no crepúsculo, meu passado;

 

E o esmaecer do sol vai devolvendo,

À minha frente, a cor gloriosa aos olhos,

Dos dias em que andei de azul fardado.

Ultimato

Maio 05, 2008

Eu hei-de dar-te, Tédio, a dura guerra,

E ver-te desaparecer no horizonte,

Turvas-me a limpa e fresca água da fonte,

Quais nuvens encobrindo o sol na serra.

 

Onde a verdade eterna dorme e encerra,

Berço da vida, ufano, hei-de lançar-te,

Com verso ardente agudo em sublime arte

No negro abismo insubstancial da Terra.

 

É porque a vida é breve e o Tempo passa.

Somos a leve brisa que se perde,

P'lo vale umbroso, pela alta montanha;

 

E num dourado enleio, amor me enlaça,

Mostra-me o doce abraço, um prado verde

Onde meu ser renasce e o Tédio estranha.

Ignorância

Maio 02, 2008

Todo aquele que me disse pra arrancar,

Do corpo, a minha alma, lhe dei desprezo,

Ficando mui espantando, mui surpreso,

Por nunca mais querer dela abdicar.

 

Se a minha alma enriquece, e se me esqueço,

Do mundo, e o que sinto, dizer posso,

Porque me apertam mais o meu pescoço,

Se tenho, Bem ou Mal, o que mereço?

 

Há quem tanto me diga e não diz nada.

Há quem nada me diga e diz-me tudo,

Levando, aos céus que aspiro, puro instinto.

 

Empresa vã viver vida julgada,

Se quem julgar-me posso – e não me iludo,

Que eu próprio, até meu corpo ser extinto?

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