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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Invocação

Dá-me agora, Musa, a cor das rosas,
Das tílias, das violetas, das liláceas,
Dá-me a candura das belas violáceas,
Na Primavera, vivas e formosas.
E dá-me argento, quando Apolo claro
'svazia aljava sobre o mar ausente ,
O deslizar do cisne suavemente,
Dá-me a cor que torne o verso raro.
Dá-me a cor do medo, Amor, bondade,
Tristeza; dá-me todas essas cores,
Concede-me o Universo. São favores
Que peço: inspiração e liberdade.
Tenho alma, tela branca pra pintar,
De música, papel para compor,
Arte para espantar seco torpor,
Subindo em ânsias para te embalar.
E o embalo desse vento mavioso,
Sorrindo sobre os teus longos cabelos,
Vão sendo, em ondas másculas, novelos,
De Inverno, se agitando, rigoroso.
Dá-me esse brando gesto, fino e puro,
Que do teu belo rosto, sai voando
Como aquela pomba branca esvoaçando,
Num jeito humano, trémulo, inseguro.
Concede-me o compasso do teu nobre,
E altivo coração duma rainha,
Tíbio ficando, quando me convinha
Deixar-me ir na cor com que a noite encobre.
Dá-me o tom das rubras faces quando,
Gracejo sai da minha alma tão louca,
Quando a minha vai de encontro à tua boca,
E juntos nossos corpos flutuando.
Encurta-se-me o tempo, meu encanto,
Anjo caido dum céu matizado
De estrelas cintilantes, condenado
A ter de prata, dela o doce pranto.
A rósea Aurora já vai bocejando,
Do morno leito se ergue para abrir,
As portas para Apolo reflectir,
A cor que um grande Amor a nós vai dando.
 

Revelação

Reflexo do meu espelho, que partiste
Quando anuncias minha oca vaidade,
Convertes a mentira na verdade,
Que nunca em mim, exactamente, viste.
 
No rosto doura o Sol, e reflectiste
Celeste imagem, logo em tenra idade,
Contemplando, a viver, a Eternidade
E é nisto que a minha vida consiste.
 
Se alguém dif'rente fosse mais do que eu
Diria que sou quem ao longe está,
A olhar o céu, tal: «Como aconteceu?»
 
Sombras, flores, vento que me acolhe,
Convidam-me, portal abrem de lá,
Mostrando-me a luz que não querem que olhe.

Ciúme

Hei-de socorrer-te um dia, endiabrada,
Flor, que tanto esforço em me ferires,
Imprimes, sobre a pele e preferires,
Femininos ardis, quando assanhada.
 
A borboleta esvoaça aflita e brada,
Pelos prados verdes, flores, para onde ires
Não curso, mas o jeito de fugires,
É igual quando na teia é apanhada.
 
De imputar culpa, o mundo se enche e rompe,
Basta espalhar veneno e já as flores,
Deixam de exalar seu doce perfume;
 
À fúria deste Amor, nada interrompe,
O ímpeto, e porque estás mal de amores,
Tens comichão, tens dela ódio, ciúme.

Cantata

Debruço-me nas horas,
Passo o meu tempo a pensar,
Abrindo uma janela,
Na alma, deixo o vento entrar,
Passo horas ver passando
A procissão triste a passar,
Convidam-me: recuso!
Pensando: deixem-me estar.
 
As horas caiem como,
Fios de água, nunca param,
Oiço à volta gente inquieta
Dizem que bem me avisaram,
Deixar de ser quem sou,
Que outros como eu, tombaram,
No mar do esquecimento,
Sem a glória que sonharam.
 
Sentir é quase um crime,
Que nunca se cometeu,
Deixai! Deixai sentir-me!
Ninguém mais sente do que eu.
Da montanha escuto a voz
Sofrida de Prometeu.
«É o vento, ó sonhador,
E o sonhador sou eu.
 
Da taça de ouro bebo,
Versos que nunca escrevi,
Que nunca foram meus,
Porque neles, não vivi.
Soa a noite, a madrugada,
Nem sequer eu me despi,
Tenho o calor do teu corpo,
Dou-te Amor. Tenho-te a ti.
 
Tenho-te a ti somente,
Meu mar, ingente fonte,
Se não tenho o louro sol,
Tu és ele, eu o horizonte,
Minha gata, minha fada,
Anjo alado, sábia fronte
Tu és tudo e eu sou nada,
És a Terra, eu... sou monte.
 
Seja lenço sobre o vento
Lançado por alguém,
A cantar um sentimento,
Escutado por ninguém
Eu creio haver ouvidos,
Num animal que tem,
Mais sentido que a gente,
Sendo gente ele também.

Elegia a Antonio Puerta, jogador do Sevilha FC

Tão jovem...! O orbe inteiro ainda pergunta,
Incrédulo, ver tombar alguém... assim...
Em verde campo, a alma separar-se
Do corpo, vigoroso, de quem luta,
Por gente que urra e brama e... Impossível!
Tão triste, ó Morte! Que injusta és! Seria,
Se não poisasses mão naquele instante,
Babado Pai, se escura hora adiasses.
Em que pensaste, sombra do que é Vida,
Ó Sombra do que é Belo, do que é frágil?
Talvez inveja à doce vida tenhas,
Alimentando o jugo que dominas.
Ouve os choros de quem transtornado
Pelas escuras asas, te pertencem
Que num segredo passam, anunciando,
Temor da gente humana, frágil, crente.
Pobre rapaz não pode ver crescer
(E nisto imaginar nós só podemos,
Se houver no real brilhante morada),
Talvez veja do alto vir à luz,
Aquela que a ele de ver impediste.
Tu que, tão jovem, forte e vigoroso,
No campo, contra escandinava equipa
Levar a glória aos céus forte ajudaste,
Milhares beijar emblema fizeste:
Repousa agora nesse Nada incógnito,
Inóspito ainda à Vida, felizmente,
Que nós por cá na terra lembraremos,
Não só aquele fatal dia estranho,
Mas teu nome também, que és pai e filho,
Dos pobres pais que te viram crescer.
Até rivais antigos por ti se unem
Neste transtorno semelhante a outros,
Como aquele que tombou p’la sua águia,
Onde é berço antigo de Portugal.
Chora, ilustre Espanha, porque ao lado,
Tens ombro amigo agora que te ampare,
Nas horas de maior dor, de tristeza,
De tanta gente que inda não acredita.
É como se uma voz ouvir pudesse,
Do ignoto, dum abismo tão profundo,
Da realidade inversa ao que se pensa,
Do possível, do inadiável, do Impossível...
E para vós, que choram que mais amam,
Que em frágil peito sentem a dor forte,
São estes magros versos para vós,
Que bálsamo possam ser, que aliviem
Um pouco, porque nada mais se pode
Pra dor vencer, férrea e ígnea tristeza
Deste fogo, devorando o nosso mundo.
Que estes versos façam silêncio. Só
Assim possa ver novamente o rosto
Sorrindo. Que esta sua imagem seja,
Correndo pelo campo livre e alegre,
De ter a camisola aureolada,
Do seu suor salgado, emblema honrando,
Empresa árdua de dar vitória ao povo,
Enquanto o povo o aplaude em gratidão.

Diana e Marte

Diana, que derramas luz de prata,
Subindo o céu com passos de veludo,
A noite reinas com teu modo mudo
Que traz saudade atroz que ao homem mata,
Vestido com seu salpicado manto,
De estrelas inocentes
Fixas, independentes
Olho-te e vejo o teu rosto de espanto.
 
Os dois olhos redondos, boca aberta,
Sobre a serpente que o rio atravessa,
Para quem se desloca com a pressa,
Deixando, à Morte, a alma entreaberta.
A gratidão que sinto por te ver
Do pranto que derramas,
Pelos campos que amas
Dá-me alento na vida pra esquecer.
 
Sabes o que sobre ti disseram?
Que à noite serias de Marte amante,
Com seu ardente peito tão vibrante,
Das feras glórias que os homens tiveram.
Quem no céu mora, mentiras recebe,
Histórias que são lendas,
Mitos que são contendas,
Entre quem da verdade pura bebe.
 
E pude ver-te tão perto de mim,
Sentindo aconchegar-se aquela calma,
Um frio percorrendo a minha alma,
Demorando um instante só. Enfim...
E as pálpebras pesavam sobre o jugo,
Do útil e doce sono
Do corpo, à noite, é dono,
Nem pensamento algum é meu verdugo.
 
Irónico! Pareces a verdade,
Pendente num céu cheio de mentira,
Vibrando as cordas lassas nesta lira,
Quem sonha com o horizonte, a Liberdade,
Perdoa quem te acusa amante seres,
Do Marte ardente e fero,
Pois vezes mais te quero,
Iluminada sem te envaideceres.

Escritos

Não era pra dizer, ninfa, que escrevo,
Os versos que me saem tão ridículos,
A minha mente canta, andando aos círculos,
E cantar isto, ao mundo, não me atrevo.
 
Não é uma questão de atrevimento,
E nem sequer tenção de revelar-me,
Mas a vã intenção de controlar-me:
Meu dano, minha dor, meu pensamento.
 
Segredos? Quanto mais o tempo passa,
Escassos vão-me sendo. Não me escondo,
Porque num túmulo minh ’ alma vou pondo,
De cinza cor, de luz difusa e baça
 
São sensações que vou guardando em mim,
Fluídos de mil cores, de mil graças,
Descubro um verso lindo enquanto passas,
Com cheiros ébrios a rosas, jasmim.
 
Se quero despertar antes ser tarde?
Com isto ainda sonho. Ainda anseio
Ler-te o verso que escondes no teu seio,
Onde meu ser se esconde, afoga e arde.
 
E os versos, que às escondidas, vou escrevendo
Não são pra serem lidos – nem por ti
São espasmos dos meus sonhos que perdi,
Poemas do teu corpo que vou lendo.
 
Pois quedas de água vi nos belos olhos,
Perdidos numa languidez constante,
Fixos numa imensidão vibrante,
Como se ouvindo o mar entre os escolhos.
 
E pelas pedras vão correndo os rios,
Húmidas melodias, sussurrares,
Tão doces qual Amor se despertares,
Os teus quentes beijos em lábios frios.
 
Mas quando os bebo gelam-me as entranhas,
Verdades cruas, duras que não vejo,
Escrevo... no amanhã esqueço e desejo,
Não ler as melodias mais estranhas.
 
São vinhos derramados sobre o chão,
É solidão não ter as andorinhas,
Por perto; são tristezas que detinhas,
Quando eras uma sombra e uma ilusão.
 
Não posso mais sonhar à noite quando,
O tédio erguendo o seu escuro estandarte,
Recordas? Não poder mais contemplar-te,
Saber só quero se vou despertando.
 
Colhendo vou as flores mais mimosas,
Perdidas nas ruas duma cidade,
Onde é crime haver verso e outra vontade,
De antigas leis, humanas, rigorosas.
 
Até aonde vou? Ignoro e passo
Ingénuo se isso posso sobre o mundo,
Quero ir além do abismo mais profundo,
Onde me espera o teu tão doce abraço.
 
Se com esta luz clara e esclarecida,
Tingisse a terra com meu pensamento
Talvez lançasse ao rio do esquecimento,
A forma de viver a minha vida.

Canção de Lisboa

Cidade de mil caras, de mil cores,
De diferentes rostos, de artifícios,
Doida de mil ódios, mil amores,
Exausta de inúteis, alheios vicíos,
Cantando espalho o canto que ninguém,
Consegue ouvir, nem tu Musa também.
 
Ó rio egrégio, que ao longe suspiras,
Nas margens onde a ponte estende forte,
Que à fama de Neptuno lhe retiras,
Entregue estando à tua e nossa sorte.
Alberga a dor onde outras desaguam,
Despojos de guerra atroz que flutuam.
 
De vidro e pedra, as altas torres tapam,
A gloriosa luz do louro Apolo,
De inúmeros amores que lhe escapam,
Esparsos, pelos campos, pelos solos,
Virtude tem a terra quando deixa,
Árvores, quando a terra não se queixa.
 
Os cheiros, os perfumes, os suspiros,
Os diferentes rostos enrugados,
Os desmaios, rancores, canoros tiros,
De máquinas de mundos desusados.
Roncar constante como o mar paterno,
Na terra tão ferida, olhar materno.
 
Centenários, fortes monumentos,
Honrando grandes feitos e subidos
De poetas, de tão nobres sentimentos,
Que em copos são os versos seus servidos.
(Aquele que, sentado vai esperando,
Que venha a morte e a fama edificando.
 
E tu, que lá no cimo, miradouro,
Sublime, cabeleira de Lisboa,
Para amoroso par, ancoradouro
Enquanto Amor declara a outra pessoa,
Canhões quase de pedra transformados,
Felizmente, em seu uso abandonados.
 
E a avenida que sai do leonino,
Marquês, que tratar dos vivos mandou,
Antes dos mortos, coração mais digno,
Quando Neptuno a terra maltratou,
E fogo diabólico espalhando,
Terror, enquanto as terras vão gretando,
 
Agora, ampla, diversa e sonorosa,
Grandeza de quem viu quase o futuro,
Depois da temporada procelosa,
Inundam árvores no solo duro,
E as sombras, frescas, desenham figuras,
De estátuas, preenchendo estas fissuras.
 
Os carros vão seguindo em procissão,
Com apressado passo, turbulenta,
Formando – na minha ingénua ilusão
Serpente, dum vermelho se apresenta.
Eis que devolve o canto à algibeira,
Sem tempo de cantar terra altaneira...
(Continua)

Ilusionismos II

A imagem do seu rosto tão mimosa,
Invade a fortaleza que eu pensava,
Inexpugnável ter, e então, passava,
Quem fosse assim, tão bela, tão formosa.
 
Flexível, passa incauta e perigosa,
Dançando nos meus olhos. E eu julgava,
Haver no céu anjos que o Sol lançava,
Na Terra, que ignaro homem devorava.
 
Cerúleos olhos, lúcidos espelhos,
Da sua alma terrena comandada,
Por seus lascivos lábios tão vermelhos;
 
Que versos saem como abençoada,
Livre, que se inspira e nunca sabe
Donde inspiração vem que em verso cabe

Ilusionismos

Tão elegante, ninfa, tão formosa,
O gesto delicado quando coras,
Das cores cujo céu matiza a rosa,
Com silvestre doçura das amoras.
 
Meus pensamentos, ninfa, revigoras,
Quando te vejo alegre, deleitosa,
Da selvática boca quando choras,
Por líquidos beijos da Ilha Amorosa.
 
O teu perfume provo, e imagino,
Quando roçam os meus lábios devagar,
Nos teus, carnudos, lindos, tão rosados
 
Olhar-te, num prazer cruel, divino,
Em medo, ouvindo o fogo a crepitar
Dentro, se olhos nossos são encontrados.

Espreitar

Oh verso, abre os portões à minha mente,
Trancada pela vida a sete chaves,
Morando em funda toca, em fundas caves,
Que a vida atroz sonhar não me consente.
 
Desperta a minha alma seca e dormente,
Com cristalinas melodias de aves,
Acorda-me com sons da Terra graves,
Por mais que esta vontade áspera tente.
 
Que é vento se não sinto o vento em mim,
Que é luz do sol se não sinto embater,
Seus raios luminosos, de ouro fino?
 
Tento arrombar as portas deste Fim,
Espreito pelas brechas até ver,
O rosto angelical do que é Divino.

Canção

Oh tempo, não me leves,
A lembrança do que sou,
Já me basta não saber,
Quem a minha alma levou.
Minha dor começa agora,
E já quem por mim passou,
Este amor que me alimenta,
Mas que só a dor deixou.
 
Quem me quis, por bem não foi,
Nem por mal e nem por nada,
Oh lembrança do que fui,
E já não sou, minha adorada,
Sigo o sol no horizonte,
Como quem espera o fim,
Mais um dia a navegar,
Neste interno mar de mim.

A Tempestade

Terás saído, infernal deusa, Alecto,
Que às terras de Vulcano, ardente, inflamas,
Nos mares dando mágoas, desconcerto,
Quando medonhos filhos de Éolo chamas?
Os quatro, furibundos sopram fúrias,
Roubando aos sete mares vis lamúrias.
 
Quem invocou aladas as harpias,
Que com os quatro ventos desordeiros,
Com eles se misturam nestes dias,
Onve não mais verões são verdadeiros,
Que arquiteto de Tróia não moleste,
A Terra, coa fúria, Alecto, que deste.
 
Nas terras onde Apolo mais se abrasa,
Com seus corcéis fogosos, convocaram
Os ventos, tempestade atroz que arrasa,
Tudo à volta, que homens edificaram.
Temores lá lançaram e tudo em lixo,
Obra dos ventos, menos Machu Pichu.
 
Bradam revoltos mares, gente humana
Que mais que Neptuno a terra feriram,
Tornou agora o deus a mente insana,
E a gente humana, as ondas repeliram.
Irónica a Natura se revolta,
Tendo por mares, ventos, fera escolta.
 
Invoca as ninfas, Vénus, novamente,
Venham belas, de rosas coroadas,
Vem, com ardis celestes em tua mente,
Vencer mentes vazias, transviadas.
Como fizeste ao teu ilustre Gama,
Deitaste os ventos com Amor na lama.

A despedida

Naquele instante, não tinha eu sentido,
inda tua falta ingente, nem saudade
Senti. Alva rainha, esta verdade,
Como se nela houvesse adormecido.
 
Mas eis que o tempo avança, e meu ouvido,
À nossa terra encosto, na amizade,
Risos, conversas, longe da vaidade,
Como andar neste mundo, só, perdido.
 
Agora que outras terras alcançaste
(Ignoro se a ti já te perguntaste)
Do que mais sentes falta ou se de alguém
 
Eu pedra, promontório, vil penedo,
De ter doce saudade tenho medo,
Mas se já tens de mim, eu cá também.

Vaidade

Pobre rapariga! Veio do Norte,
Dos verdes montes, da gente mais pura.
Nesta cidade que amo anda à procura,
De um ninho, lar, tentando a sua sorte.
 
De tenra idade, ingénua, frágil porte
Levando vida áspera, rude e dura,
Doença perenal que não há cura,
Deixá-la. Assim se faz um ser mais forte.
 
Com ela, assim minha alma se parece,
Buscando o que conforta, o que enriquece,
Nada mais do que lar, Amor, sossego;
 
Mansa andorinha que fazendo o ninho,
Acerta aos poucos seu escuro caminho,
Igual, de quem inutilmente eu nego.

O Rochedo

Por Tétis , seus encantos, alva B’leza ,
Das transparentes águas viu sair,
Divina e nua, de alva natureza,
Aquele que não mais tornou a rir.
 
Rochoso, sendo os pés de África ardente,
Em pedra transformado, por Amor,
Derrama as lágrimas, choro pungente,
O pobre apaixonado Adamastor.
 
Quem nunca foi nesta vida negado,
Quem nunca lágrimas claras verteu,
Dos olhos, de sentimento enganado,
Quem nunca sal de Amor próprio bebeu?
 
Neptuno, por saber de tal façanha,
Ordena a espuma e as águas ir de encontra,
Peito imponente, ousado. Quem lhe estranha,
De ser, quem por lá passa, sempre contra?
 
Gama, ilustre por quem foi cantado,
Trémulo, ousa perguntar: «Quem és?”»
A quem temores lança, e ameaçado
Lança esta pergunta ousada a seus pés.
 
Se ingente Adamastor ira atrelava,
E invoca quem por causa dele, morreu,
Diria que não mais ira lhe estava,
E ao nosso Gama a fúria recolheu.
 
E quem, por Alguém viu Amor negado,
Em pedra transformado o coração,
Pergunta como se del ’ experimentado,
Tivesse usado Verdade e Razão.
 
Existe um rosto destes em nós quando,
Se abate a noite eterna em nosso peito,
Quando no mar Amor foi naufragado,
E invoca em nós tudo o que é imperfeito.
 
Que culpa Tétis tem por ser formosa,
Que culpa teve Adamastor por ter,
Seus olhos colocados na airosa,
Deusa, e à sua alma se converter?
 
Medonho se tornou ao mundo inteiro,
Vivendo em um escarpado negrume,
Negado o Amor sincero e verdadeiro,
Agora, ao mundo inteiro ódio é costume.

Despertares

Eu vejo-a mergulhar no espaço imenso,
De estrelas e diamantes colorido,
Húmida de água fresca, odor a incenso,
Fogosos olhos dum fogo lúrido.
 
Ao seu corpo de alma e ser lhe pertenço,
Pelo grande Mistério fui vencido,
Reanimado coração, sorri intenso,
Como se nunca houvesse enfraquecido.
 
Quem nunca grato, em vida, assim sentiu,
Como se imortal fosse e assim passasse,
Pela Roda de Fogo com sorriso?
 
O chão estremece, agora, aquele que piso
Como se Amor a Terra perfurasse,
Do rebento que luz clara ainda não viu
 

A Boa Nova

Mais uma primavera eu completava,
Naquele dia tórrido de Verão,
Quando minha bela Musa me chamava,
Para dar a novidade ao coração.
 
Um brilho de alegria lhe iluminava,
Seu rosto de inteira satisfação,
Disse-me o que nunca cedo pensava,
E não era uma mentira, uma ilusão.
 
Vocês, amigos, sabem bem do que falo,
Surge como um estrondo, como um estalo,
Do doce humano entra e sai, entra e sai;
 
Pensei esperar pelo nosso himeneu,
Dar novidade do que aconteceu:
Que a Musa vai ser Mãe e eu vou ser Pai. 

O Lago

Estou como se estivesse morto há tanto,
Tempo, que não me lembro de nada.
Então procuro a Beleza, no espanto,
Fascínio em ti, meu Amor, minha amada.
 
E tu, és a criança alegre, ousada,
Entre o estridente riso e doce pranto,
Teu sorriso é duma igreja a badalada,
Que sigo co ’ uma devoção de santo.
 
Entre arvoredos, vejo a flor silvestre,
Crescendo com a cor que um deus lhe deu,
Bebo esta cena plácida campestre;
 
E se sou pedra então és o meu lago,
Que a minha queda atroz amorteceu,
E toda esta inútil tristeza, eu esmago.

Espelhos

Deixei de ver-te, Amor, como te via,
Sem ver-te como imagem reflectida,
No espelho mágico onde distorcida,
Cantava a tua imagem poesia,
E nesses cantos que os teus lábios trazem,
São sinfonias que já não se fazem,
Beija-me, carnívora,
Morde-me qual víbora.
 
Desperta a vida que eu bobo adormeço,
Empresta-me a vida que existe em ti,
No olvido, da vida que concedi,
Ao ver-te inquieta, e brava neste berço,
Forrado com sedas, linhos, cetins,
Com tons vermelhos, sangue, de carmins.
Meu Pássaro de Fogo,
Que me incedeia logo
 

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  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D