Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Livro Fechado

Talvez seja um disfarce esta tristeza
Turvando os fiéis traços do meu rosto,
Da terra, a verde pele, a Natureza.
 
Vida, que oferece um vasto gosto
Triste quem planta à volta a etérea b'leza
Amá-la, traz fortuna, traz desgosto.
 
Apaixonado por quem paixão sente,
Sem traço, sem limite, nem muralha,
Sem na boca deixar verso pendente,
 
Assusta quem nas sombras se atrapalha,
Que a liberdade as trevas não consente,
Prendendo quem luzidio Amor não espalha.
 
Poetas do meu tempo: agora, erguei-vos,
Brandindo afiadas penas tão penosas,
Vivendo à margem, da Beleza escravos,
 
Que ardor vos tome em horas langorosas,
Tristes, como são tristes os cravos,
Crescendo pelas ruas revoltosas.
 
Pelos jardins de estátuas brancas passem
De mármore ancestral, de tempo antigo
Como se, com vida, pedras curassem
 
Assim, o vosso rasto, eu fiel sigo
Como o curso de nuvens que passassem,
Sem, por perto, ter caloroso abrigo.
 
Ergam-se, ousados, livres, destemidos
As águas límpidas calmas levando,
Os versos que nos vidros são metidos,
 
Uma nova esperança vão nos dando,
Como portos seguros dessas Didos
Por quem nos vamos tanto apaixonando.
 
Vivem somente à noite escura. O dia,
Não é mais que passeio pelo rio,
Do tédio, imundo, mancha em poesia,
 
Cobre o manto o rosto deste frio,
Tremendo, quais asas da cotovia
Cantando como nunca alguém ouviu.
 
Prazeres não são pompas de banquetes,
Nem pedras preciosas, ouro vil,
Secas folhas fazem ricos tapetes.
 
Nunca vestem manto da cor do ardil,
Revestindo cortinas dos palacetes,
E espelhos, falsos reis, negro covil.
 
Música, acompanha o coração,
No sucumbir das horas, sem vontade
De mão estender a quem pede por pão.
 
Brioso porte, a nobre gesto atendo,
Abertas portas do império fundado
Dentro de mim, são livros que vou lendo,
Mas como sou, lê-me: um livro fechado...

Sem talento

Escrevo sem que encontre meu perfeito,
Verso, como o sol deitado em terra,
O fogo ateio em mim da negra guerra,
Neste meu frágil ser mais que imperfeito.
 
Da fonte, cristalina água, não deito,
Não descobrindo onde esta dor me encerra,
Verdade oculta o seu espigão me ferra:
Não ter nisto talento, não ter jeito.
 
Cantar, se não detenho a liberdade,
De quem pode escolher natural curso,
Um rio que desagua em alto mar;
 
Arrasto-me no avanço desta idade,
Sem juventude, nem melhor recurso,
Tendo pronto um pranto sempre a soltar
 

As Duas Faces

Pertencer-te? Nem a mim me pertenço.
Não sei quem sou nem sei se irei saber,
Quero ser ilha a ver se este mar venço...
Impeço-me de amar, de alguém escolher.
Tu pedes-me o infinito. Sou só estrela,
Dama de honor da Lua que é a mais bela.
 
A ninguém não pertenço. Alguém virá,
Encher-me o leito de formosas flores,
Desinteressadamente... Quem será,
O princípe encantado de mil cores?
Fixam-se de noite os olhos tristes,
E ao que te peço, à verdade, resistes.
 
O que é o Amor? Sei lá o que é o Amor.
Sei só que a minha boca não profere,
Palavra apetrechada dessa dor,
Cravada a quem não escolhe e alguém prefere.
Sabes? Não devias tanto ouvir-me,
Antes do amor eu quero descobrir-me.
 
Os beijos dados doces são. Porém,
Porque não cravas na mente as imagens.
Mesmo divagções de louco, há quem,
Nem uma tem, quieto nas ramagens.
Abraços são delícias, são prazeres,
E nada tens mais para me ofereceres.
 
Ó vida feita de tantos enganos:
Que amor é esse que tanto nos crava,
A garra adunca de mil desenganos
Amando mais quem sempre me enganava?
Que Amor se chama este que renuncia,
A pura liberdade, a poesia?
 
Como posso eu, perdida, exausta e louca,
Receber teu condão cativo em mim,
Se provo o fel da minha própria boca,
Que NÃO me deixa, anjo, dizer-te SIM?
Mas rasga este me peito de ansiedade
Devolve-me num beijo a liberdade!

Mentiras

Meu corpo emerge dentro do teu mundo,
E de tanto mergulhar na escura sala,
A minha voz de alma trémula cala,
Todas as vozes vindas lá do fundo.
 
Tens razão. Sou porco, vil e imundo,
Mas nem sempre consegues captá-la,
E não podendo mais do que mostrá-la,
Tens alma igual ao pobre moribundo.
 
Retratos não retratam uma pessoa
Nem nuvens mostram sóis nem luas firmes,
Somente imagens falsas dão-me ardores;
 
A minha alma ordena o falcão e voa,
Sobrevoando os ares dos teus crimes,
Pois são falcões meus olhos predadores.

A minha boca anseia um beijo ardente...

A minha boca anseia um beijo ardente,
Cortado por gorjeios e gemidos,
Ficando os corpos nus adormecidos,
Rolando pelo sono docemente.
 
A vida chama mas tão indiferente,
Mas tudo ao lado passa e por vencidos,
Neste leito de penas acolhidos,
Não nos demos, por mais que a vida tente.
 
Quem sabe viver mais do que eu e tu,
Ao meu cola teu corpo fresco e nu,
Aproveitemos curta, a juventude;
 
À vida mais não peço, mas à vista,
Que tenha delicadas mãos de artista,
Enquanto esculpe em mármore a virtude

Na cidade

Calmo, tirando o meu destino incerto,
Escondendo a derradeira luz escura,
A clara poesia se me afigura
Ao meu retracto no tempo encoberto.
 
Que devia eu ter no Tempo descoberto,
Ouvindo a voz que fala em certa altura
Seguindo a estrela, guia de alma pura,
Saber o que é errado, o que está certo?
 
Repouso calmamente, ouvindo o vento,
Que nunca diz mentira nem verdade,
Sorvendo neste dia as gotas de água;
 
Fixando os tristes olhos num momento,
No rosto enlanguescido da cidade,
Sigo o brilhante rasto desta mágoa.
 

Chopin

Melancolia de Chopin... uma tristeza,
Poisa docemente no ombro e chora,
Como alguém ama alguém e não namora,
Louvando, à noite, a Lua, a Natureza.
 
Beijos líquidos, lábios framboesa,
Sonhados são, não jóias que decora,
Um rosto passa... e outro... mas ignora
Este andar certo sempre em incerteza.
 
São tristes as velas que agora acendo
Chorando finas sombras neste espaço
E mais querendo ver, mais não vou vendo;
 
Qual ave poisa e chora em canto, o abraço
Sonho sem saber se vou devendo,
À Vida que me apressa em lento passo.

Entardecer

Naquele fim de tarde à espera eu estava,
Que o sol descesse o íngreme final,
À sombra dum desejo vasto tal,
Que um gigante cipreste me lembrava.
 
A minha húmida boca me secava,
Tremendo e desejando o doce sal,
Dos olhos teus, mundo alvo e perenal
Porque meu corpo pelo teu esperava.
 
Fingi esperar que simples tu viesses,
Livrar-me do cansaço de viver
E foste águia que sobre a presa, poisa;
 
Foste bicando a carne quente aos ‘esses,
Co’a língua percorrendo qualquer coisa,
Sentindo o tédio e o sol a entardecer...

Tentação

Não posso converter pedras em ouro,
Nem fogo em água, nem cegos a ver.
Pediste quase para deixar de ser,
Como se versos fossem vil tesouro,
 
Pois vejo deste estreito miradouro,
Comédia Humana ensina pra escrever,
Adia eterno, púrpuro entardecer
Na mente obter frescas folhas de louro.
 
Capaz serias de eclipsar a beleza,
Que atinges neste instante auge tão belo
Qual sol brilhando em máximo esplendor?
 
Promessa não farei mas a certeza,
Que a Morte à Vida, Ódio ao Amor anelo,
Podendo assim ser magro fingidor.

Catapulta

Há quanto tempo dura esse ódio triste,
Fogo se alastrando pela alma,
Porque preferes degolar-me a calma,
Se à calma tu nunca me conduziste.
 
O teu sarcasmo inútil não desiste,
Lançar-me ardentes 'sferas de ódio qualquer,
Mas quem me ature, ature porque quer,
Ainda tenho Amor que em mim resiste.
 
O mal que faço e vou deixando o rasto,
Não se equipara ao teu andar solene,
Como a cobra que anuncia a morte fria;
 
Dizer-te a quem Amor esbanjo e gasto,
Anunciava em nós guerra perene,
Na paz que vens roubar-me no meu dia.

O meu cessar

Que possa eu ter no verso o gesto, a esgrima
E minha pena possa ser florete,
Isto se minha Musa nisto vete
Contrário à minha dor e agreste estima.
 
Que possa dar-me o Amor alada rima,
O quente sopro que o gelo derrete,
E um mundo corrompido compromete
E tenha alguém na terra alguma estima.
 
Se nesta árdua tarefa de cantar,
Fluido como o vento que trespassa,
Além do férreo peito vacilando,
 
Cessar, morro. Não posso! Antes beijando
A solidão que sempre me amordaça
Porque se engole ao ver-me alguém amar
 

Argumentos

Num tédio tão crescente quanto a Lua,
Na secura de elevado argumento,
Alguns degraus descendo o pensamento,
A vida louca e vasta continua.
 
Mas nada tão vibrante em mim actua,
Procuro em vão nas flores sentimento,
Puxar o tempo pra que fique lento,
Rio sem mar onde o meu qu’rer desagua.
 
Dourado Apolo, róseo entardecer,
Gentil, poisando os dardos finos de ouro,
Dedos, fios de luzes nos trespassam;
 
Que quero mais? Não tenho mais querer
Se tudo à volta sinto ser tesouro,
Mesmo estranhos rostos que por mim passam.

Lamentos

Definho como as pétalas de rosa,
Lívido rosto, anunciando a Morte,
Solto um lamento silencioso à sorte,
Ouvindo ira da Musa rigorosa.
 
Tu, Morte, que passas silenciosa,
Que abraças, beijas, prendes firme e forte
Bates majestosa asas de porte,
Assustador qual fé de religiosa.
 
Achar no lunar tempo uma cratera,
Pequeno instante neste espaço entrava,
Possível eco ter o verso eterno;
 
Mas no infortúnio sou quem nunca espera,
E quase à espera sempre me deitava,
Neste reino de ar onde ar mal governo.

As cores duma flor

Não mudam de hastes, pétalas as flores,
E tu, formosa e linda, transformaste
Revoltos, teus cabelos decoraste,
Com outras subtilezas, outras cores.
 
Não formam musgos verdes nos amores,
Nem sombras, luzes claras. Deformaste,
Diria fortemente que mudaste,
Nem dissipaste assim as tuas dores.
 
Imaginava as minhas mãos formarem,
Ventos nos marítimos cabelos,
Formando a tempestade no teu peito;
 
Perdoa-me ser ousado e imperfeito.
Devia estes meus gostos escondê-los,
Enquanto estes ventos em nós soprarem.

Cela

Exactamente! Os nervos do concerto,
Que puxa e arranha as cordas do violino,
Ah, minha sombra infância de menino,
Toca uma orquestra inteira em desconcerto.
 
Por mais que me levante, sóbrio e digno,
Ficando lasso, livre o quente aperto
Espreito o abismo fundo mais de perto
Desse amor simples, Musa, sou indigno.
 
Delírios dos caprichos dum vampiro,
Cerrando gelo, ventos invocando,
Sobrenatural espreita à janela...
 
Tenho a voz seca qual velho papiro,
Que nada vai dizendo nem cantando,
Fechada numa escura e fria cela.

Folhas secas

A doce brisa passa entre a folhagem,
Tão verde, fresca em fim de primavera
Traz-me brindes de ouro da quimera,
E fala-me uma nova linguagem.
 
Tudo à volta é poeira e ar, paisagem,
A sombra me degola e desespera,
À volta, sou quem fico só e espera,
Na penumbra, alguém que já não vem.
 
Punge-me este ar quente tão pesado,
Como torrando o sol vaidoso e alado,
Caindo como pedras sobre a terra;
 
Abre-te, ó meu ser tolhido e exausto,
Derrama sobre o seco verso o fausto,
O lago onde Diana a Beleza encerra.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2006
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2005
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D