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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Condenação

Condenam-me os seus olhos verdes claros,
Suporto a dor atroz que em mim se instala,
E não me são os seus olhos avaros,
Não sei se posso a dor mais suportá-la.
 
«Não tens mais infortúnios, desamparos?
Não chega o fel bebido ao contemplá-la,
Beber-lhe olhares puros, verdes, caros
Promessas vãs de poder osculá-la?»
 
Então porque este pensamento ocorre,
Que em vez de consolar-me não socorre,
A minha inquieta alma em agonia?
 
Amor, que em cativeiro assim me prende
Que ordena a mente e o corpo ordem suspende
Um verso estranho! E estranha a poesia...

Nas nuvens...

As nuvens brancas passam vagarosas,
Deslizam suavemente e o sol desperta,
De quando em quando a clara luz aberta,
Ficam, como desabrochar das rosas.
 
Passam solenes e silenciosas,
Com passos de veludo e encoberta,
A terra esfria e luz na descoberta...
Passam as nuvens brancas langorosas.
 
Nem vento, nem nuvem, nem a memória,
Me trazem sensação divina e pura,
Sem alterar o curso à minha história;
 
Seguindo o curso breve destes passos,
Que abrande a vida agreste, a vida dura
Vejo que delas posso obter abraços.

Adverso

Curioso! A Musa altiva inspira em verso
Penetra a alma, ardência nova invade
E sobre ti, não tenho essa vontade
Dum sentimento haver no branco expresso.
 
Chama-me de demente, de perverso
Chama-me louco imundo. À honestidade
Nenhum sentido faz, eis a verdade
Porém, não tendo a ti desejo inverso.
 
Talvez te minta mais a quem merece,
Traz rosas e nem uma te oferece,
Temendo que teu beijo álgido traga,
 
Demência atroz, desejos vãos, loucuras
Por onde andam as almas inseguras:
Que em demasia ao sol a flor se estraga.

Vozes

Procuro uma razão que me ilumine
Me conte a verdadeira história ingrata,
Dessa verdade atroz fria que mata
Pois nada vejo tanto que fascine?
 
Quer Deus que a fronte tombe e em vão incline
E a luz, que a hoste escura, desbarata
Existe um nó que prende, um nó que ata
Deixando entrar outra voz que me ensine.
 
Suspiro mole e lânguido, ocioso
Como quem vai esperando o fim do dia
Ficando inerte em Tempo impiedoso;
 
No fundo, a voz do abismo, a poesia
Crepuscular do céu mais langoroso
Hermes não lança como antes fazia.
 

Elevações

Nunca pensei poder amar-te tanto,
Enfim... nunca pensei amar ninguém,
Mas és, musa, muito mais do que alguém
Quais olhos mergulhados em espanto.
 
Não viste a azulada luz também,
Tingir-te o níveo corpo, o rosto, o encanto
Nos prazeres de Afrodite que, no entanto,
Foram, meu anjo doce, mais além.
 
Esquece o amanhã que nos reserva,
Além de iguais e ásperos cansaços
Deitemo-nos neste leito de flores;
 
E de fechados olhos sobre a erva,
Crescendo, memoriza estes abraços
Que elevam-nos a mundos superiores.
 

Impossibilidades

Vem ver-me, ó semelhante às deusas, vem

Com áurea angelical no rosto lindo,

Meus olhos ávidos estão luzindo

Ver teus olhos verdes que ninguém tem.

 

Vem dar-me a tua mão macia sem,

Haver mistério algum porque vem vindo

O Tempo, e este a mão nos vem pedindo,

Há muito tempo o corpo e a alma também.

 

Pula meu coração radiante e fero.

Pois ver-te e ter-te ao lado é o mais que quero...

Tão longe, tão distante e inatingível...

 

O rosto, o riso, o corpo, a voz, a graça...

Como na tua a minh’ alma entrelaça!

Mas vai, porque entre nós, é impossível.

Prostrações

Cansado me sinto sem graça nem cor,

Olhando o vazio para as flores que amo

Recordo distante além do vivo ardor,

O mal que germina, que traz-me, que tramo.

 

Olhando, encontrando a luz deste dia,

Não traz-me sossego nem paz que não tinha,

Constância no abraço da cor, poesia

Que inspira, traindo cânticos que tinha.

 

Solene passando tapete vermelho,

Um anjo que passa como embriagado,

No vigor da idade sinto-me já velho,

Nevando na mente, perdendo um bocado.

 

Silvando chicote afiado de pranto,

Sulcando-me a mente, estendendo-me um manto.

Fronteiras

Entre meu corpo e o teu que nos separa,
Como entre o Céu e a Terra o horizonte,
Existe um conto que não queres que conte
Uma armadilha que Afrodite armara.
 
Um rio de fogo ardente sem ter ponte,
Unindo as margens que este rio separa,
Precito! Sempre olhar-te desampara,
Mesmo que meu desejo o arco aponte.
 
Se é cisma ou vil desejo por ruína,
Ignoro, mas escuto a voz que canta,
Além da minha escolha poder tudo
 
Teus olhos, uma fonte cristalina
Dizem-me haver magia oculta e encanta,
Mas eu não posso escutá-la, contudo.

Trezentos e Setenta e Dois

Carrego meus dias pesado com sono,
Insónia constante duma alta paixão
E no alto me sento do nada, meu trono
Onde vou reinando mundo de ilusão.
 
Deposito cedo no sonho onde abono,
Meus gostos esquivos de desilusão,
Vagueio na rua como cão sem dono,
Mendigo que pede bocado de pão.
 
Absorto no espaço, cativo no Amor
Chegando a soltar o meu pranto sem fim,
Nos dias de glória do sol e da Lua;
 
Mas tenho unguentos que tratam da dor
Sabor perfumado de rosa e jasmim,
E a vida prossegue e assim continua...

Reconhecida

Na qualquer despedida eu te encontrei
Dif’rente em minha mente no teu rosto
A ardência tinhas, mas além do gosto
Não te reconheci nem te adorei.
 
Sorris-te (alívio) e então eu me lembrei,
Iluminados dias dum sol posto,
No entardecer distante dum desgosto,
Onde a minha alma em tua alma poisei.
 
Parecemos dois rouxinóis cantando,
Ignorados do Tempo, à sorte entregues,
Co’ a Lua o nosso amor testemunhando;
 
Teu beijo ardente, por favor, não negues
Por ele estou ardendo, estou esperando,
Mesmo com fogo e fel a alma me regues.

Não vás!

Não vás. Peço-te pra não ires embora,
Sem ti, não sou ninguém e nem sou nada
Não vás na eternidade a minha amada
Fica com quem te ama, com quem te adora.
 
Não vês que a minha alma adormece e chora
Ao ver-te linda nessa caminhada.
Eloquente demais e abençoada,
Será ver-te à chegada sem demora.
 
Mas quem te vejo a ti partir sem ver,
Sem conhecer-te a pura identidade,
Que escondes dentro e faz-te linda ser?
 
Contigo ignoro a inteira Humanidade,
Contigo não preciso de parecer...
Mas quem és tu que escondes-me a verdade?

Na solidão

Parece que me odeio, me enlouqueço,
Pareço estar perdido entre esta gente
Que só desdém me of’rece onde não esqueço
No átrio superior da minha mente.
 
Respiro este silêncio inutilmente,
Procuro uma razão se, em vão, mereço
Pela charneca andando onde padeço
De ser constante andar no mundo ausente.
 
Mas a beleza adorna e alegra a vista
Que ninguém vê ou ninguém ver pretende,
No deleitoso mundo da partilha;
 
Proscrito existe algum que alguém resista,
Sentindo uma paixão que não entende,
Como beber o Sol quando o Sol brilha.

Incertezas

Nas estações diversas vou lembrando
Os dias que passei. Chegam-me imagens
Como perfumes frescos das aragens,
Que a jovem Primavera vai soprando.
 
Meus pensamentos andam nas pastagens
Verdes, como o gado se ajuntando,
Fragrâncias pela memória chegando
Como emoções voando das paisagens.
 
Retenho a sensação doce que tive
Sorriso aberto ao mundo incauto, livre
Recordo... e recordar me traz tristeza;
 
Traz a pureza imagem embebida
Numa rica moldura a minha vida:
Mais certo era o meu passo na incerteza...

Desconcertos

Na minha orquestra inteira desafino,

Reinando o Caos supremo e não desperto,

Enquanto escolho qual o meu concerto

Enquanto não conserto o violino.

 

Qual, entre a casta eleita, um libertino,

Cuja presença gera um desconcerto

No peito, sinto um vácuo, um vago aperto

E com a orquestra inteira não afino.

 

Na sala – a minha alma – inspiro e entro

E avanço destemido até ao centro,

Relendo a partitura e… deus!... estiolo.

 

E enquanto meus sentidos não se calam,

Um vivo fogo os meus olhos exalam

Começo finalmente, em fúria, o solo.

 

Musicais

Pudesse o génio ter na partitura,
Compondo com teus gestos musicais
Tão simples, graciosos, naturais
Concertos de virtude, alma mais pura.
 
Teus olhos trazem asas da doçura,
E a música propaga-se ainda mais
São leves melodias por demais
Por uma alma compostas, com candura.
 
Meu ponto de honra, enfim, é admirar-te
E nunca é vão demais louvar-te a arte,
Qual cisne num lago se exibe e dança.
 
Deténs tudo o que a viva e que fascina
Filosofia sábia que me ensina
Manter, na tempestade, a confiança

Dedicado a P...

Melhor é dizer tudo, bela amiga,

E revelar-te a voz dos meus desejos,

São abraços, carícias, doces beijos.

Que queres tu que pense, faça ou diga?

 

Não quero ter-te por minha inimiga

Nem oferecer-te o mundo, meus ensejos

Porém contigo os alvos anjos vejo-os

Louvando nosso Amor, canção antiga.

 

Prometo despertar no real mundo,

Nuvens amontoando num segundo,

Escurecendo a louca fantasia;

 

Contigo tudo ordenado me estava,

E o brado da Razão me condenava,

A não viver em paz e em harmonia.

Diana

Vou consolar-te, Lua, à noite quando
O mundo dorme... o carro que transporta
Febo... enquanto fecha a Aurora a porta
Nesses campos de ambrósia repousando.
 
E novamente, exacto, levantando
A esclarecida luz que nos comporta,
A vida inteira e o mundo nos conforta,
Na perene escuridão nunca deixando.
 
Mas tu, que sobre a terra a prata lanças
Diz-me, Diana, que encerras esperanças,
Se não te exausta o fúnebre compasso?
 
Ser contemplado, Apolo, não permite
Porém, não tens ninguém que alegre evite
Acompanhar-te a lassidão do passo.

Mergulhar neste mar tem sido um vício...

Mergulhar neste mar vem sendo um vício,
Onde harmonia encontro sem que dure,
Em busca de água que a rocha perfure,
Fluente como um rio sem sacrifício.
 
Saltando do prazer pra meu ofício
Em busca dum remédio que isto cure,
'spalhando outro amor que este Amor apure
Não convertendo o Tempo em desperdício.
 
Tenho o orbe inteiro a latejar na mente,
Descendo o abismo exacto lentamente
E no momento, ó Musa, não demonstro;
 
Aceita seres somente a minha estrela,
Minha única Verdade nua e Bela,
Enquanto eu sou teu fraco e débil monstro.

Proibições

Nisto da eternidade nem reparas,
Que o tempo avança e em vida não podemos,
Amarmo-nos, e olhar só, não devemos
E assim a vida branda e curta encaras.
 
Meus poemas que tu nunca arrecadaras
Miríades de folhas que oferecemos,
Não valem mais do que ouro pois sofremos
Por, serem ao nosso amor, musas avaras.
 
Peço-te que na vida após a morte
Creias, porque poderei mais ver-te
E dar-te o que em vida nunca fui forte;
 
Que posso mais que meu beijo oferecer-te
E conceder-te um porto rumo ao Norte,
Por não poder mais do que amar sem ter-te?
 

Asperezas

Esta ansiedade horrenda me domina,
Debaixo do seu jugo fero e imundo,
Não tenho meu sossego num segundo
E oculta o que me encanta, o que fascina.
 
Desce as cortinas negras de veludo,
Tão lentamente como quem declina
E eu, procurando a inspiração divina,
Escurece-me à volta ainda mais tudo!
 
Nem tenho uma lágrima digna e pura
Que role sobre as faces, sobre o peito,
Espantando a aspereza com ternura...
 
Leva-me a Hélicon, ó Musa ardente
Pois não me entendo entre a gente e imperfeito
Me vai tornando o mundo indiferente

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