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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

O bom ouvinte

Seu rosto era tão pálido quanto a Lua,
Quando ilumina a noite se bem cheia,
Quem em solilóquio vagueia na rua,
E continua o que lhe pulsa na veia,
Ignora se o destino bem lhe encomenda,
Seu querer é tão singelo como a flor,
Que à dama se oferece e nos recomenda,
O bálsamo mais certo para terrível dor.
Porém, ficou nos sonhos tantos pendente,
Julgando lançar-se à conquista do mundo,
Nada mais tinha a invadir-lhe a mente,
Tornando-o mais distinto, mais fecundo,
Ignorava se o Diabo estivesse à frente,
Quem passava em primeiro ou segundo.

II

Apresentava seus sinais de fraqueza,
Tão expressos em seus gestos de candura,
Ousava com uma certa fácil leveza,
Vencer com simpatia ou com doçura.
Mesmo trémulo como a vela acesa,
Que ondula na mesa quando sopra aragem,
Seu ar ingénuo detinha uma nobreza,
Que a multidão, passando, cede passagem,
Como um anjo que asperge de luz,
Dos céus descendo, arauto de alegria
Que a todos com seus olhos outros seduz,
E o negrume reduz quando vencia.
Porém, mesmo que por anjo o tomem,
Não passava de um simples e pobre homem


III

Detinha o sentimento de compaixão,
Sem que desse ele conta, de onde vinha
Por quem tão ferido em dor no coração,
O dom de ouvir em si ele detinha.
Sem que interesse algum por alguém nutra,
Ouvia, porque amava, como às flores
Sem que esforço fosse, em força ou luta,
Renascia ao ouvir falar de amores.
Gostava quando desbotava toda a tristeza,
Dum rosto desfigurado por alguém,
E o alegrava com uma certa destreza,
Como se de todos fosse extremosa mãe.
E espalhou-se a notícia que havia,
Quem dos aflitos com gosto ouvia.

Pentâmeron - Dedicado a L...

I

Estátua de mármore, fofa pele macia,
Seios gulosos cheios que um apetite,
Asperge ardor no corpo; eu não mentia,
Que no ninho verdade muito te excite.
E o corpo no escuro em luz dourada,
Que o teu rosto divide num Bem e Mal
Num imaculado leito ver-te deitada,
Coloco-te, ó minha amada, num pedestal.
Teus espasmos o corpo inerte apetecia,
Ter-te deitada num acetinado lençol,
E mesmo adormecida, eu amar-te-ia
Jorrando em ti como se fosse o Sol.
Se tu fosses o pélago onde afundasse,
Podia ser que um rei talvez te amasse.

II

Intróito brando, num leve adagio,
Sem nada querer e assim, tudo se tem,
Não penso e assim eu não cometo plágio,
No tempestuoso e doce vai e vem.
E feito harpista dedilho meigo com os dedos,
Solista sóbrio que num transe inquieta,
Do lago as águas onde afundas os medos,
Deixo do desejo a porta estar entreaberta.
Lembras-te quando sobre os anjos dizia,
Que quando te amava os via perto contentes?
Soprando em flautas mágicas eu diria,
Que toca para nós orquestra de dementes.
Recosta tua cabeça na almofada,
Entrega-te ao abandono, minha adorada.

III

Solta alto os gemidos que em ti deténs,
Alívio de apertos, dores e desgostos,
Estão mil dentro de ti e eu sei que os tens,
Como as cores celestes de teus sóis postos.
Sinto que teu rio dentro fervilha,
E dentro em pouco tempo transbordará,
Quando o sinto escorrer é uma maravilha,
Que libertado, mais tarde, me libertará.
Nunca chamei sem ti fazer amor,
Porque contigo o faço sem que alguém,
Sinta em versos ou música este ardor,
Quando escalda o teu corpo e meu ser contém.
Se houvesse maior riqueza que sentimento,
Mais alto voaria meu pensamento.

IV

Entraste majestosa dentro do meu lar,
Sem que rosas trouxesses, antes sorrisos,
Mas a meus pés espalhaste a convidar,
No lar juntos olharmo-nos como narcisos.
Nem césares outras terras conquistaram,
Com a rapidez que tu me conquistaste,
Nem poetas os feitos sublimaram,
Só com o impulso como me sublimaste.
As flores dormiam já no meu jardim,
Mas desabrocharam com o teu passar,
E despertamos quem dormia, assim
Que os corpos se convidaram a juntar,
Como se a noite nunca tivesse um fim,
Ou o mundo estivesse para acabar.

V

Assim o Amor ecoa na eternidade,
Assim direi mais tarde o quanto amei,
Tem o Amor a voz da liberdade,
Porque estive com quem me libertei.
Assim vale ver a luz que ilumina,
A terra inteira e não ficar retido,
Nas trevas, onde o escuro nos assassina,
Crime hediondo por nós cometido.
Assim nos vale a vida que não dura,
Que passa como o pássaro no Céu,
Que a todos fascina e o voo perdura,
Numa mente que vive como um réu,
Por entre a multidão que em loucura,
Condena porque em loucura nunca viveu.

CXXIV

Vou voltar para o que sempre me espera,
O mesmo curso com rostos iguais,
Eis que é uma sem vontade que impera
Nos dias que passam sem serem demais.
Escasso brilho nas paredes, o escuro,
Acendo em versos velas que iluminam,
O tédio tem-me feito à volta um muro,
Porque os versos, a outros, nada ensinam.
Quem sou eu então nesta verdade,
Tão desigual para tantos nesta terra,
Não posso mais voltar à nova idade,
Que este novo capítulo na vida encerra.
Seja de trompa que à volta incendeia,
O GRITO que rompa esta invísivel teia.

São Versos

Rebelo-me enquanto surge uma nova,
Ideia inerte, num Céu pendente,
Isolo-me enquanto a vida reprova,
Ser sempre a ela desobediente.
Estatelo-me quando derramam em mim,
Uma água impura de fonte imunda,
Que o tédio enorme me banhe, enfim,
Enquanto outra beleza me inunda.
Contento-me se me lembrares enquanto,
Eu vivo for e o corpo me queimem,
Na pira longe de ter sido um santo,
Não foi intento, mesmo que teimem.
Desejo ardente impor meu canto,
Ao Universo que dentro se estende,
Enquanto do chão não me levanto,
Gritar para dentro, a ninguém ofende,
E assim do estro broto os meus versos,
Mesmo que não fique poeta imortal
Que enalteceram com poemas extensos,
O tão estridente nome de Portugal.

Longa espera

Já tantos sonhos maus eu tive,
Como se descesse rumo ao Inferno,
Já tantas vezes no Céu eu estive,
Que minha alma assim governo.

Já vi os prados que nunca acabam,
Tão verdes que apelam a um deitar,
Que tantos na realidade gostavam,
Porque não podem, só podem sonhar.

Sonhar é bom para quem tem luz,
Dentro de si e para si não guarda,
Emana do rosto e a tantos seduz,
Outros que choram sós na mansarda.

Já sei que custa o ofício exacto,
Ter que deitar-se em pedra fria,
Perfeita ideia, porém, abstracto,
Viver o que sobra durante o dia.

Mas quem se olhar ao espelho e ver,
A beleza em si não só exterior,
Pode inspirar e até vir a ter,
Na curta vida um inteiro Amor.

E dar sem que na esquina espere,
De volta por quem tanto amor deu,
Não mirre, não drene ou desespere,
Não olhe nova morada, o Céu.

Porque é um constante ir e voltar
Como o Sol quente e agreste chuva,
E até que volte pode decorar,
A alma enquanto a dor não turva.

Único Canto

I

Vou voar bem longe sobre o vazio,
Talvez encontre um poiso que aguente,
Deste vazio que nem é quente ou frio,
De alma sem gosto que nada sente,
Como a corrente dum estreito, brando rio,
Que corre sem pensar por não ter mente.
Escorrego em piso seco antes da chuva,
Toco em tudo e tudo em cinza torno,
Se eleva espessa fumaça, a vista turva,
Mesmo no quente Inferno o acho morno,
De Aquiles, saí do meu curso na curva,
Diz-me a esperança haver um contorno.
Voltarei do vinho ter o sabor,
Que irriga a seca a intriga do Amor?

II

Parece o meu olhar estar noutro lado,
Em quais lugares vistos só em sonhos,
Que engolem num instante o que é amado,
Fazem meus olhos brilharem risonhos.
Tenho uma gula que a alma devora,
Tenho a sede de gigantes terrenos,
Que caminharam em tempos de outrora,
Não sou nem mais do que eles, nem menos.
Colheram dos jardins as mesmas flores,
Beberam a água pura dos mesmos rios,
Tiveram o ócio ao Sol, os mesmos calores,
No Inverno nevando os mesmos frios.
Salto então de poiso para outro mundo,
Ou mesmo neste escavar ‘inda mais fundo?

III

Talvez eu me ache, encontre, me sinta,
Me escave ou esmague ou ressuscite
Encontre um gosto doce que requinta,
Ah, quem a alma canta, alto a recite.
Não pendo pratos da negra balança,
Quantas verdades os loucos não vêem,
Ainda eu quero algo como criança,
Queiram, quem neles próprios crêem.
Porque tanto mastigo agora o ser,
E acabrunhado ao vento ainda estou,
Porque amo quem eu hoje não estou a ver,
Como se alma o Diabo me levou?
Quem bebe sôfrego o vinho do Amor,
Ébrio à noite e de manhã a dor.

Perdão

Tão fácil é ser pedra antes que gente,
Não amar alguém, mas ser amado,
Ter o espelho gasto de olhar, diferente,
De quem se vê em alguém idolatrado.

Assim me sinto o ser mais que imperfeito,
Defeito é sofrimento porque o detenho,
Vem escárnio só de quem é tão perfeito,
Que assim no mundo me sinto só e estranho.

Procuro quem defeito algum o tem,
Que um calor humano dele emane,
Vejo um mar de gente mas não há alguém,
Que falando, a si mesmo, não se engane.

Súbdito pede clemência à realeza,
A um rei ou rainha é uma comédia;
Se o rei perdão concede, gesto de nobreza,
É desumano, é fraco, é uma tragédia.

Penitência

Silêncio que me envolve, assim eu escolho,
Porque bom fruto hoje não colho,
Apraz-me, de mim mesmo ser penitente,
Foge a calma da minha mente.
Na insolente boca corro os ferrolhos,
Seja o silêncio ouvido pelos olhos.


Quando a noite tomba eterna e exacta,
Vem a amante sádica que mata,
Quem me dera à noite silêncio não ter,
Tornar meus ais em uivos de prazer.
Tolhe-me um mandato sempre constante,
Peito inquieto de Amor pedante,
Que não vindimado é esse Amor,
Me causa o ódio tão aguda dor.

Mendigo

Perdoem-me, ó meus pais, por ser quem sou,
Não há retorno que valha, outro começo,
Saudem-me, novos heróis, a vida tomou,
Serve-me vossa palavra arma de arremesso.
Porque alma qualquer não tem um preço,
Que o Diabo tente ou anjo também,
Para alma minha virar vil do avesso,
Salvem-me ó meu pai, ó minha mãe!
São os deuses vivos unos que conheço,
São falsos os outros que tanto ecoam,
Perfídia eu tento tanto a ver se esqueço,
De frases impostas que nada apregoam.
Estarei, mendigo, à porta da alegria,
Que seus cânticos livres alto entoam

Meu Querer

Talvez tenha esperado uma resposta,
Certa do outro lado,
Nem vozes, murmúrios ou sussurros,
Ouvi sobre este fado.
Talvez errante seja sem que o queira,
E ser eu arrastado,
Pelo vento que sopra do meu querer,
E assim guiado.

Tempo incerto porém, uma certeza,
Que a todos espera,
Todo o berço que embala a vida inteira
E me regenera,
Imperfeições convulsas de uma boca,
Que a todos vitupera,
Do segredo alegre que luz asperge,
Que alguém aprendera.

Quero que o meu ser seja uma herança,
Por cá deixada,
E mesmo que não deixe de mim tudo
Não leve nada,
De mãos vazias teremos todos ir,
Na vida acabada.

Um de Sete

Tem sido a cama a minha amante,
E me murmura: “só mais um pouco”,
Tem-me me deixado a cama louco,
Tem sido a mente a acompanhante.
Manhã morna que quer que cante,
A voz me rasgue e me deixe rouco,
Olvido o tempo ao passar mouco,
Talvez no olvido o tempo me encante.

Mas são os braços da preguiça,
Que à vida suga, gosto ou vontade,
Basta de mentira ou do que é verdade,
Saio desta inútil e fútil liça,
Porque é fatal contrariedade,
Não é sopro que ao lume atiça.





LXXXVI

Se leres os meus versos e te parecerem,
Que arrastados foram por mim escritos,
Não te apoquentes; espera o desaparecerem
Furtados por meus demónios malditos.
Pois quedo fico ansioso num canto,
Escuro, impenetrável e imponente,
Muralha erguida de silêncio e espanto,
De breu cerrado, de ébano sem gente.
Pois gente, certamente, não serei,
Terei no rosto a Lua a palidez,
Talvez no lar anónimo eu terei,
A paz que procurei e perdi – talvez.
Porque anjo não sou e nem me julgo,
Vou vaguear perdido no meio do vulgo.

Odei ( o )em-me

I

Irónico é dizer a quem me odeia,
Neste momento do ódio, num sofrimento,
Que o único que odeio, quem me rodeia
Sou eu próprio. Mas basta de tormento!
Qual vela esmorece à noite e se apaga
No lar às voltas, o escuro tacteio,
Meu ser atordoado foi no que esmaga,
O ódio, o amor não passando pelo meio.
Meu grito facilmente se desvanece,
Nos vales onde o vento sibila, impera,
A luz que viva à volta, desaparece,
Fico pensando só como acontece.
Colho o fruto amargo da insolência,
Planto sem que queira a vil demência.


II

Bate-me pois não dói,
Não sinto as minhas faces,
Que dor a mim me rói,
A não ser que desenlances,
Das minhas, tuas mãos,
Que não as quero sentir,
Respiras os mundos vãos,
Ond' me apresso fugir.
Não plantes em ti esperança,
Planta um ódio antes,
E cuida como criança,
Põe ódio no que quer que cantes;
Mesmo que tu floresças,
Lembrar-te-ás de mim,
Mesmo que o ódio aqueças,
Arrefecerás no fim.
Tuas árias têm a cor,
Das cores que eu não uso,
Não falam elas de Amor,
E me deixam confuso.
Mas quando eu me extinguir,
Canta uma melopeia,
Que honre meu existir,
Minha pobre dulcineia.

III

Fixaste o teu olhar distante e vago,
No despontar do Sol,
E viste no Céu um olhar amargo,
Na núvem fofa e mole.
Deixaste teu perfume em triste leito,
Que célere aspergiu,
Que me lembra de ti quando me deito
Quando um raio incidiu,
Que ser odiado é apenas pormenor,
Quem a tem pequena
A alma escassa em rebelde fervor,
Minha pobre assuçena.
Se me deixas azedume então vai,
Não te quero ouvir,
Porque na tua alma o sol descai,
E nele, eu a partir.

Deixe( i )m-me

Não fico nem mais um pouco,
Perto de quem sorri,
Vou de mim ser penitente,
Redimir-me do que mal vivi.
Ergo a taça, a quem no rosto,
Mantem no rosto um esforço,
A humildade de ser, servir,
E o servir nele é um gosto.
Glória? Busca a paz somente,
Não quero perto alguém,
Sou a lepra que na rua vagueia,
Sou a peste que ninguém a tem.

XXIV

Sento-me, pensando, como tudo começou,
Declinar do tempo em que vivi, eu, realmente,
Eu fraco, forte a fonte um dia à frente, enfim, secou,
Sem que houvesse qualquer razão pungente.
Ponto final, punhal cravado em antigo papel,
Como encerramento oficial de um velho mundo,
E no novo o que farei para escorrer o fel,
Que tanto me fere e me deixa moribundo.
Terei eu arte sublime a continuar a ser,
O que fui, que sou, e que serei; como será,
Terei o meu olhar alegre ou triste de esconder,
Até para outro mundo a Morte me levará?
De alma perdida meu canto me soa,
O que alto soou, agora piano entoa.

O Amor Mais Que Imperfeito

I

Quando para trás, hoje, no tempo olhamos,
E a vista alcança dias sorridentes,
Vemos o quanto fervorosos amamos,
Sem querer um regresso, descontentes.
Se, lembrando, sorriso não se esboça,
Fazem, dias vividos no tempo, troça.

Porque não se amou como se devia
Palavras cativas dum incómodo medo
Que, livre, impede andar durante o dia,
Olhar se prende ao pedregoso lajedo.
Quem nunca pensou no tempo voltar
E um tempo ao nosso Amor, ponto emendar?

Só nos vale o que hoje é dito ou feito,
Convalescendo dum passado pendente,
Porque faz o medo não ser perfeito,
Sempre põe freio à alma incontinente.
Mas nunca existirá um fim, embora,
O que não se fez ontem, é tarde agora.

Vivemos aqueles verdes, claros dias,
Longe de serem os últimos, imortal,
As frases soavam sempre como melodias
Que espantavam puras o própria Mal.
São as mais fortes, primeiras paixões,
Assim se escrevem as mais belas canções.


II

Quem sabe que ao lado o Amor se senta?
Que sinais dizem um simples olhar,
No rosto ou áurea? Como se apresenta
Ao ver a semente a germinar?

Se do Céu desígnios, eu desconheço,
Sei só que contemplar é harmonioso.
Etérea beleza que vista, não tem preço,
Olhando o Céu, peito fica cremoso.

Guifelder, pelo equilíbrio primando,
Amargurado por frívolos amores,
Foi pelo escuro trilho continuando
Com suas amizades d’ assaz primores.

Era jovem, belo, um novo cipreste,
Um alvo rosto qu’ envelhece depressa;
Natura: que p’ra ele gosto tiveste,
Gerado num ninho em paz, sem pressa.

Mas ó Loucura que a Razão transvias,
Tiveste sem que fosse o teu desejo,
Que a encantaste como tu devias,
Sempre infantil, inquieta no ensejo.

O extremo se vive, se dela incauto
Ai de quem o Amor busca, ansioso
Que dilacera o ser e um dano alto,
O sentimento alto e venturoso.

Eis quando um dia segredo revelou
Causa inefável de um amplo sorriso,
Sua paixão ardente ele nos cantou
Sendo no cálculo da hora, impreciso.

O seio amigo aspergiu de alegria,
Sincero círculo, quase uma irmandade
Tendo no olhar um brilho daquele dia,
Mostrado, ingénuo, só pela mocidade.

É como esquecido livre navegar,
Pelo mar, olvido ao vento à vela,
Começo doce ainda sem se amar,
Trazendo no pensamento só o rosto dela.

Torna-se ar, poeira o mundo à volta,
Belas as flores, as aves, a Natureza,
Torna-se leve o corpo, anjo, por escolta,
Contempla-se a universal beleza.

Gira em torno a vida na pessoa,
As coisas pequenas tornam-se maiores,
Qual fluído anjo que uma ária entoa,
No começo assim em todos os amores.

Quantas vezes se escreve dela o nome,
Por ele se dando, tombada a fronte
No papel onde a pena expressa a fome,
É falso o estudo; assim o Amor se esconde.

A ânsia vence, invade-nos a Loucura,
Quando se espera dia que se torna a ver,
Quem se encontrou longe duma procura,
A dor em nós se deixa transparecer.

Conhece-se os primeiros, doces prazeres,
Abraços, beijos dados ficam por dar,
Deixa-se o pó chegar aos afazeres,
Fica-se louco por querer tempo parar.

As mãos do ninho doce se agarram,
Cega a alma, que outra alma, não vê.
Irónico como o Ódio e o Amor nos cegam,
É de questionar então «porquê?»

Os traços se decoram do corpo igual,
Que o rosto prende, na vida de clausura,
Todo o Bem revela a face do Mal,
Crescem nas mãos garras que dão ternura.

São pensadas as palavras por dizer,
É calculado o olhar, para olhar,
Deixa de ser sublime: fica o prazer
Fica-se nisto triste sempre a pensar.

Todo o simples torna dédalo mental,
O claro, claramente, ficou confuso,
Tudo, que se pensou ser eternal,
Mais não se pensa; pensamento difuso.

E o tempo passa; sempre certo, impiedoso,
Ritmo impresso, sempre certo, ao rumo incerto,
Fica aquele mundo tumultuoso,
Mesmo não se ficando dele liberto.

A realidade é repleta de mudanças,
Vive-se como se pode com o que resta,
Porém, quem ao Amor é de esquivanças
Tarde conclui que Amor, nele, não presta.

Todo o sonho que aos píncaros se chegou,
Desvanece ( nada pode ser perfeito).
Vê-se, que o vento leva e tudo levou
Desceram águas do rio, secou seu leito.

Sem traçar no chão, o destino oferece,
Quem com ele brinca como deuses loucos,
Tudo se transforma, nada desaparece.
Faz-se, da frase citada, ouvidos moucos.

E tresmalhado no tempo se andou,
Sem haver de vela uma luz acesa
À noite. Quem de Amor desesperou,
Honrou a esperança com vela na mesa.

Secaram os lábios como água na terra,
Perdeu pompa nos versos qu’ a ela escrevia,
Sem controlo assim na lama se enterra,
Sem querer ouvir quem ele sempre ouvia.

Subiu louco ao monte íngreme, agreste,
Para soltar grito que o mundo ouvisse,
«O que se passa comigo?» O sol investe
Nele, como as nuvens o encobrisse.

Exausto depois de ira solta, deitou-se
Recaiu sobre ele uma outra paz,
Sem conhecer a fonte, a ela, prestou-se,
E assim pensou: «... a ver o que ela me traz!»

Sentiu na fresca erva de olhos fechados,
Sem sonho, voz, sem ar que respirasse,
Viu-se andar por caminhos nunca andados,
Talvez por ali luz ele encontrasse.

Ouviu o que nunca ele tinha alto ouvido,
Sentiu que a beleza, com ele, falava
Pediu perdão à vida por se ter perdido,
Alegre, em comoção, convulso chorava.

Pensava que era tudo para ele o fim,
Como ele se enganava: era o início,
Sentindo o cheiro doce do jasmim,
E assim foi aliviando o seu suplício.

Sentiu a atmosfera do ar ameno,
Ergueu-se como assustado, e percebeu,
Ser grande pensava e sentiu-se pequeno:
Dizendo: «se alguém errado era só eu.»

Pensamos sempre que o erro nunca é nosso,
O inverso é também erro, simplesmente
Fácil quando a alma se atira ao fosso,
Que do fosso sair, curiosamente.

Sem voz de anjos, duendes, ali ouviu,
Na solidão que o monte lhe ofereceu,
«Sou como a nuvem...», e dali saiu
«...pelo vento levada.» E tudo esqueceu.

Já junto da sua amada, mas tão distante,
Daquela paz que há muito, não sentia
Ela falava-lhe num esforço comovente,
Pedindo Amor, mas ele, já não a ouvia.

Detinha a amada no rosto tristeza,
Com as cores da agonia e desespero
Mirrava, a pobre flor, aquela beleza,
De azul do antigo mar do grande Homero.

E quando as estrelas salpicavam o céu,
Num pranto, contava-as e assim esquecia,
Cobria, à noite triste, o rosto, o véu:
Se por ele deixada, ela morreria.

Deixou destino entregue ao iroso vento,
Que sopra oposto na direcção diferente,
À nossa, conforme o nosso pensamento,
Quand’ cinge a dor no peito, e forte, se sente.

Não se ama alguém asas prendendo,
O querer se molda ao pensar ser eterno
Oiçamos o calmo rio como vai correndo,
Sem pressa, plácido, sem ter ele governo.

Não se tem o Sol porque nos queima,
Não se bebe a chuva toda que afoga,
Não se agarra o fogo, que forte, crema,
Não se entende o que não se interroga.

Amar é sentir só o que não se vindima,
Sentir a beleza, o rio do sentimento,
É gratidão por quem tanto nos estima,
É ser feroz e amar sem pensamento.

E no fim das coisas, a eternidade,
Quando para atrás se olha perto da Morte,
E contemplar com plena liberdade,
Esperando a majestade com peito forte.

E no sono expirar com um sorriso,
Estar pronto em paz, tranquilo e dele contente,
Ser feito, não por ninguém, nosso juízo,
Conhecendo o mistério e... eternamente.

Mas não agora, ainda não: é cedo,
Enquanto houver em nós vontade imensa,
Que vença aquele que invade, o medo,
Vencido, o medo torna a chama intensa.

Como ver o mar, e nele mergulhar,
Como só estar, correr, amar... sentir
E mesmo no trilho podendo arrepiar,
Qual medo que nos invade, e não fugir.

Ó Terra que simples gera em ironia,
Ó Céu, dono das nuvens, de todas as luzes,
Deixa que o Sol incida na poesia,
Para eu cantar o que tu reproduzes.

Esboçava ele sorriso, porém, fingindo,
Por entre a gente onde se agasalhava,
Evitava à gente falar, mentindo,
Que na sua amada ainda pensava.

Até que viu Sofia por ali andar,
Sem procurar um Amor, naturalmente,
Vazio, sem outra paixão nele, desejar,
Assim caiu no amor, novamente.

Todas as vozes deixaram de soar,
À volta dele, pois todas ela cessava,
Não era sua vontade a comandar,
Nem de alguém...o Amor era quem mandava

O falso em si se tornou verdadeiro,
A luz tornou a penetrar no escuro,
Não deu a luz vontade ser aventureiro,
Era diferente; era um Amor maduro.

Razão voltou a vencer a Loucura,
Gémeas humanas; porém tão diferentes:
Quando uma é doença, a outra é cura.
Que nisto me oiçam, ó corações ardentes!

Escolheu ouvir a voz do coração,
Que só a coragem insufla par’ o fazer,
E o Bem e o Mal deixam de ser questão,
Ó William, tinhas razão: “Ser ou não ser...”

E escreveu carta, à antiga, manuscrita,
Chegando a ela por um vento humano,
Dizendo como era bela, tão bonita
Deixando o ser, por ela, ser leviano.

Jurava que o sentimento era espontâneo,
Que ao passar do tempo, pensava nela,
Não era aquele instante momentâneo,
Disse: «És de todas as flores, a mais bela.»

Coraram-lhe as faces, tímida, e dizia:
«Oh, eu não sou nada disso, não mo digas»
«De todas as flores...», assim repetia
«Talvez acreditar em mim consigas.»

E do tempo olvidos, conta não deram,
Que o sol no horizonte já se escondia,
Houve o momento que os dois se renderam,
Quando no olhar pureza. Poesia!

São nos olhos que falam da mentira,
Por mais quem dela prime, assim não pense
Que assim é quando se entranha e nos tira,
Mais um bocado da alma, e o Diabo vence.

Viu que dele mentira, não saia,
Honrada com persistência e altivez,
Como há tanto tempo já não se via,
Eram pétalas que caiam aos seu pés.

Como travar o género de diálogo,
Que nos parece ser para a vida toda,
Com a pessoa que nunca é um monólogo,
E a vista não turva; nem a pressa tolda?

Mas eis que a voz do passado amarga,
Como a forma que a tempestade tem,
Ameaça o negrume; sobre nós, descarga,
Toda a ira atroz da Natura Mãe.

Choveram as frases nele mais horrendas,
Se de um lado negro, no outro, escuro
Das duas faces do amor eram oferendas.
Pensar na felicidade era prematuro.

Pensava um chão mais firme o que pisava,
Que beberia da fonte vida, sossego,
Julgava que o passado não se levantava,
Da tumba para lhe dar mais desassossego.

Como o Homem julga deter mão forte,
Sobre as coisas do mundo e do Amor,
Quando se pensa ter a Fortuna ou Sorte,
Sai do Inferno a besta que causa dor.

E as chamas se alastram pelas florestas,
Floridas por nós, com o amor erguidas,
Sem que as folhas viçosas fiquem mestras
Sem ver o branco salpico das margaridas.

Assim a paz se perde quando incautos,
Pela jornada agreste e rigorosa,
Julgamos ser supremos, ou deuses faustos
E assim se perde a paz harmoniosa.

O nosso mundo, à volta, se desmorona.
Não existe água que extinga fogo ardente,
Da humanidade, a Natureza é dona:
Porque não se implanta isto logo na mente?

Mas aceitemos nas coisas a realidade
Que é fardo do homem, ter as desavenças,
Sem dar conta que evolui da verdade,
De haver no romance outras eminências.

Um dia é belo porque o Sol se mostra,
Em todo o seu esplendor, e alegria,
Mas sol em demasia queima a encosta,
Das sensações mundanas: e mais diria,

Que a luz brilha intensa na escuridão,
E como gota derramada, se espalha,
Que engole o negrume do coração,
Com inefável poder, no breu, trabalha.

Gostar é o princípio que gera e cria,
É da vida a centelha que se detém,
Que pelo constante sopro, o belo procria,
Nosso rebento e dele se é Pai e Mãe.

Amar inspira; mistério que permanece,
O que nos move, sustém e nos conserva,
Sem nada pedir, pois a vida oferece,
Tudo o que faz crescer como a erva.

E aparada em constância, deleita
A vista, como cuidar duma criança,
Que na tenra idade nela se deita,
E nela está sempre a voz da esperança.

Assim gera um Amor mais que imperfeito,
Se for como um rio calmo que corre,
Por mais se pense que será perfeito,
Nunca será. E assim nunca ele morre...

Penitente

Talvez poeta não seja,
Que a desventura me levou,
Talento, que não tenho ou tive,
Sou aquilo que sou.

Sem escolha que me preste,
Algum lado me levar,
Ó Fado, o que me fizeste,
Não aprovas eu cá andar?

Conheço o desespero,
Sei o que é desesperar,
Saber que um dia o belo,
Terá que acabar.

Por isso não me leiam,
Sigam em frente e deixam só,
Um louco que divaga,
Entre o ar e o pó.

Mas por entre as poucas,
Escolhas, não ser diferente,
Por entre outros andares,
Escolho o andar de penitente.


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