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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Ó poeta triste que vagueia errante...

Outubro 14, 2005

Ó poeta triste que vagueia errante,
Li teu poema obscuro, enigmático,
Fiquei no fim da sinfonia, apático,
Se erga a voz de ser expectante.
E que a inspiração cedo levante
Vejo-te no mundo só e estático,
Como da bonança mendigo céptico,
Desconfia da Mãe Natura gigante.
E se não fosse ter a leve pena,
Tería mais que uma bela Helena,
Chegando ao zénite dessa flutuação,
E póstumo (sempre póstumo) saberia,
Que ao trovão na vida respondia,
À chuva, vida pedante e de negação.

Já nesta vida me desviei...

Outubro 14, 2005

Já nesta vida me desviei,
E avancei noutro andamento,
No momento que me curvei,
Deixei herança do sentimento.
Mas tarde o fosso passei,
de sorver a vida e amar momento,
No pensamento desesperei,
Por não ter nada, vazio de intento,
E espanto ao estro meu que dei,
De muito ardor ficou isento,
Que o céu imenso atingirei,
E voarei com próprio alento.
Diz-se tanto que tarde é nunca,
No majestoso final que adunca.

Lembro-me...

Outubro 13, 2005

Quantos tesouros hoje tenho lembrado
Nos dias entediantes hoje presente,
Que me incitam tanto, tanto continuamente
Beber com a mente à fonte do meu passado.

E no tempo viajando, noutro tempo me encontro
Das glórias da espiga azul que ao sol ondula,
De branco salpicada e o Sol quente pulula,
Na alinhada espiga tão real como num conto.

Ressoava o arrepiante vento, que no peito bate,
Num estrépito estridente, hino de grande nação,
Que o mundo estagna e ouve, alguns no peito a mão,
E o cântico soa, vento forte que na alma embate.

Ainda oiço alegres marchas, árias comemorativas,
Não guardando, no entanto, longas alocuções.
E o preparar da marcha era alívio aos corações,
Menos resistentes às horas longas e compridas.

Na humana cadência ao desfile se dava início,
Uma inanimada pedra nos rostos se alinhavam,
E num militarizado gesto, as espadas se curvavam,
Num perfilar de rostos mais leves do seu suplício.

O chão estremecia com o forte bater no chão,
Como se revoltados contra ele, eles estivessem,
E perto da tribuna os rostos dignos sobreaquecem
A honra invocando, brotando orgulho do coração.

E a dor da barretina, acima o sol, dilata a mente,
Onde o penacho esvoaça sempre, branco, sobressai
No queixo o franquelete cede à facial força e cai
Deslizando do botão mantendo o olhar sempre em frente.

(...)

...e da vida que deste.

Outubro 11, 2005

Nem eu contemplo
Chuva caída,
Terra roída,
Por força celeste;
Ó Natura forte,
Mãe da Morte,
Que o milagre, vida
Gentil nos deste

Clangoroso Céu,
Nuvens deformadas,
Cinzentas e branqueadas,
Que irosas me refrescam,
Ó tédio no inquieto,
Ócio ao espírito aberto,
Ao sol onde almas secam

Gula

Outubro 08, 2005

Pretendo tanto ouvir quem não se ouve,
Olvidas vozes vindas dos quatro cantos,
Cansado néscio mundo que mal se move,
Nos templos onde se ouvem imensos prantos.

Tenho a mente presa como se de lobotomia
De extinto pensamento e pânico iminente,
Funesto ao olhar alheio perante a luz do dia,
Cativos nesse Adagio do "quem nada sente"

De hipérboles cores a própria tela pinto,
Sem ofuscar-me tanto com a obra-prima,
Sou o artista erguido que emprega a cor que sinto,
Que canta o caos da mente, corrói o ego e a estima.

Tropeça-se no atelier das empilhadas obras,
Ao desleixo expostas de quem não pára e avança,
Das vigílias constantes às rastejantes cobras,
Que, luciferianas, chamas lançam à flor da esperança.

Temo da divina seu virar de costas enquanto,
As teias se tecem em quartos esquálidos, livres ateliers,
Nas mesas cheias de abertos livros de encanto,
Festim sumptuoso servido ao sábio que nada vê.

Indefinido

Outubro 06, 2005

Não procures nunca entender,
O que é incompreensível,
Nem tentes converter,
O impossível.
Não busques o que não podes ter,
Como uma birra infantil,
Vive sem entender,
Porque existe o que é vil.
Não contemples o invisível,
Rodeia-te um mundo imenso,
Nem temas o imprivisível,
Porque tudo é intenso.
E se a Natureza escutares,
O equilíbrio perfeito,
Terás tudo para amares,
Sem vil preconceito

Ente Diabo

Outubro 06, 2005

Nem me apercebo
que o tempo passa,
Na vida escassa,
Nem algo recebo,
Nem cor nem nada,
Na alma arrumada.

Sentir que averno,
No meio do vulgo,
que urra contente,
Na chuva de Inverno,
e resta-me olhar,
A naire de guerreiros,
Que engole-os inteiros,
Sem intento de amar

Pela fenda a fundo,
Sonha-se só,
Abismo profundo,
Encaixe perfeito,
Colocando-me direito,
Ginete em riste,
foste tu que pediste,
Ser mais que imperfeito.

D' apertos versos de água...

Outubro 04, 2005

D' apertos versos de água,
De diques, rebentos,
Leva-a contigo a mágoa,
Escoa-a, rio de tormentos.

Na ar que é espesso, cai
Um sol ocioso,
Nem folha de Outono sai,
Do plátano vigoroso.

Perto dum instante breve,
Fico só, pensativo,
Entre quem humilde, serve
No dia aflitivo

Ode Miserável

Outubro 04, 2005

Ó os da minha estirpe,
Ó gente que sofre e sente:
Que aos lares tristes regressam,
Que ao fardo se curvam humildemente
De olhar baço encovado,
Distante, gasto enrugado,
Que da dor bebe sofregamente.

Ó sujos e andrajosos,
Num lento passo desejosos,
Nas carruagens de ânsia e nervos,
Banidos de berço ou tesouro,
Nobre povo coroado
por mim d'ouro que foi forjado,
Onde nasceram no berço, servos.

Que os une ou sustam,
Esperançosos tudo aguentam,
Na procissão diurna vagarosa sempre igual?
Povo culpado de tudo,
Desse mundo falso e mudo,
Que do ardil sorriso se esconde um mal.
Um mal que nunca dorme
De virtude se mune disforme
Que subtilmente cobre do manto d' ébano desigual.

Oiço os sonoros ais, soltos
Por quem nada teme mais, revoltos,
No mar que brando se torna iroso,
Mar meu revoltoso,
Que nos engole nas ondas da cobiça,
E o vento que ao mar atiça,
Vento gélido do outro lado,
De um império novo e ingente,
De tremor vazio indiferente.

Qual sabedoria advém,
Dessa pantanosa terra,
Que vergonha não tem das mãos sujar
Vem, fortuna estende,
Tuas asas plumagem, atende
À agonia sóbria de quem se cansa
e ao mar se lança.

Meus irmãos sujos, rudes da terra,
Campo, longe de albergaria,
Tens naco de pão, se subiu a sorte ao cimo da serra,
E nada prevalece,
E a miséria permanece,
Mas quanto, simples, invejam
Os quem tudo se escapa e esquece.

E quando o hino soa,
Em jogos novos de gladiadores,
Em lágrimas se elevam beijando, comovidos
A bandeira que desfralda
Novos feitos, sonhadores
Honrando a esperança vós,
Que aos milhares se faz a Voz.

Ah, se odes matassem,
Na miséria todas as fomes,
E sedes de quem iguais
se propagam em mesmos nomes,
Escreveria versos infinitos,
sossegando tantos os aflitos,
Gado caminhante, ao nada,
De destino, errante
E a entardecer,
Teriam sempre pão p'ra comer.






Teu sou, irreflectido...

Outubro 03, 2005

Estupidifico-me só,
Vergo olhar no chão,
Esmaga-me tu, mó
Na solidão.

Incompreendido? Sim,
Por mim próprio. Será
Esguiche-me sangue do estro
Já!

No vazio toco,
Sem toque ou desejo
Grito, fico rouco
Sem beijo,

Lábios róseos tristes
Rebento de Primavera,
Diva: existes?
Quem me dera!

Teu pomo de neve,
Deixou-me sentir
Na mão minha esteve
A sorrir.

Beijo ou abraço?
Perguntava eu
"Tudo" respondias
Porque era teu.

Em fusão madura,
Não lúdico jogo
Amor com fartura,
Ninho e... afago.

Quando? Aonde,
Meu nome cravei,
Em ti e por onde,
Tua alma elevei?

Imploro-te, flor
Não me queiras olvido,
Meu eterno Amor,
Teu sou, irreflectido.

Indefinito

Outubro 03, 2005

Num breve instante fiquei eu absorto,
Sem que olhasse por cima do ombro,
A ver se lá estarias num assombro,
Aparição, visão... jazo quase morto.

Mesmo ao sol sufoco pura agonia,
Estatelo-me no chão no campo, lânguido
Pensando que pensei que era cândido,
Acariciar-te durante um inteiro dia.

Ruíu tudo ao redor... remexo em tudo,
Procuro a sobrevivência nos escombros da alma,
Perdi contigo tudo sem vêr vivalma
Ainda respiro o ar, vivo, contudo.

Talvez nascida tenhas num berço eólico,
Embalada na cólera do vento.
Talvez me surjas só no pensamento,
Ouvindo o Deus que ouve, o Deus bucólico.

Deixar-me-ei esconder na névoa espessa,
Dissipar-me-ei noutra existência,
Talvez tenha de ti justa clemência,
E por mim teu rancor com o tempo arrefeça.

Não há músicas novas que queira ouvir,
Nem novos quadros pintados contemplar,
Nem alegrias, tristezas venha eu sentir,
Não há outro alguém que possa amar.

Esta fraqueza minha que em mim persiste,
É fúria, fogo averno que devasta,
Frondosa floresta que em mim resiste,
Das lágrimas que verto e estas não basta.

Enterro-me na areia ao sol dormindo,
Vivendo à noite após a luz que é fusca,
Vida diurna é baça para quem sentindo,
Etérea paz de espírito na vida busca.




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