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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Quinze de Agosto...

Agosto 16, 2008

Não durmo. Nem sequer o sono invoco

Esperei que a noite se tornasse dia

louco prazer de qu'rer armar-me em louco

Para arrastar um verso à Poesia.

Antes que seja tarde e murche a flor

Antes que cedo seja a minha vida

E sofra, amor, remorso, antes do amor

Ao ver-te deslizar nesta descida.

 

Sabe-me a pouco o ruminar da tarde

Impaciente espero o fim de Agosto

Ando na escuridão sem grande alarde

Fazer, sem me causar ou dar desgosto.

Como se numa noite desejasse

ser Tom Sawyer só para lembrar-me

como era ser criança e reparasse

que adulto, ando na vida a enganar-me.

 

Antes que saiba a fumo de cigarro

Numa cortina velha consumida

Pelos anos colados como barro

Numa parede branca que é a vida

Porque me lembro bem como um castelo

Visto, no alto cume da montanha

Fomos corpos unidos num ser belo

É na cidade que a minha alma estranha.

 

Choramos quando vemos um sorriso

E que nos cintilou num céu de estrelas

(sorriso saboroso a paraíso)

Prontos no final pra recebê-las.

E penetramos fundo nossos olhos

Nos lábios sábios, nos cabelos brancos

E vemos carregados os sobrolhos

Como uma dor atroz em nossos flancos.

 

Não quero despedidas num olhar

E sei que em seu olhar há despedida

Milhões de lenços brancos a acenar

Cumprimentado a Morte: adeus à vida!

Uma vez mais sentir a ruga, a mão

O bem que nos fizeram; mesmo o mal

Que bem o diluiu meu coração

Tornando o mal pequeno, o Bem fatal.

 

Centelha, até que finde, ainda dura

A festa perfumada de mistério

Na exaustão do corpo na ternura

De ter amor e ser rei neste império

Gerar alegre seio como brotam,

Dos ramos de árvores os doces frutos

E como trocadilhos beijos votam

Estar rodeado, avô, de tantos putos.

 

Jogos de cartas, corridas na relva

Viagens p’las montanhas afiadas

Lembro-me hoje no meio desta selva

Sobre si, as histórias inventadas.

Bem sei que quase entrou noutra mansão

Sem ser chamado, avô. Aguarde a vez

Na nossa terra humana submissão

Há-de contar-me ‘inda o que em vida fez.

 

Nocturno vento, noite sem memória

Lençol azul sereno, Ursa Maior

Trapézio sobre um céu sem tempo história

Que nos há-de revelar esse amor,

Ó chão que piso, aberta porta aos anos

Solene alma que brota amargo verso

Sara feridas negras, mágoas, danos

E vem rasgar-me, ó Noite, este Universo!

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