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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Mais um dia!

Junho 25, 2008

Mais uma volta igual no carrossel

Sem sol primaveril monumental

Mais uma nota solta em minha pele

Em si bemol soando sempre igual

 

Mais uma voz macia que me embala

O berço como o canto da sereia

Mais uma atroz mensagem que nos cala

Como maligno encanto de Medeia.

 

Mais um quadro roubado do museu

Que espalha mais a fama do pintor,

Mais um divino cântico de Orfeu

Que procurou no Inferno o seu Amor.

 

Mais um telefonema uma mensagem

Uma voz do outro lado que reclama

Um diálogo na estranha linguagem

Como se convidassem para a cama.

 

Mais um pungente pranto de viúva

Regando a dor com lágrimas levando

A vida neste Inverno ao frio à chuva

E os ventos glaciares suportando.

 

Mais um dia que passa e… outro dia

E outro sem que encontre nisto fim,

Mais uma noite em branco que despia

O manto a virgem Lua só pra mim.

 

Mais uma esmola dada a um mendigo

Gritando em linhas tortas a verdade

Que tudo é uma mentira, meu amigo

E isto é a verdadeira Liberdade!

 

Mais uma nova cura descoberta

Para a velha doença que se anula,

Outra nascendo e outra ferida aberta

Mais uma divindade que se adula.

 

Mais uma história obscura mal contada

Na densa e baça névoa da ignorância

E uma promessa não cumprida e dada

Alimentando à gente o lume a ânsia.

 

Mais uma coisa e logo outra seguida

Entrando ar nos pulmões aos solavancos

Mais uma e outra causa conseguida

E a morte repelida noutros flancos.

 

E a Vida é uma constante bebedeira

E sofre angustiada de alcoolismo

Pedindo mais um copo só à beira

Da catástrofe da Morte do abismo.

 

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