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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Improviso da Loucura

Maio 28, 2008

Apertada sonolência como a terra,

aninha no regaço os oceanos,

cria-se matéria sobre os anos,

Que enfrenta e aterra e encara a dura guerra.

 

Mancha derramada no alvo pano

Tinta sem negrume se me oferece,

E todo o pensamento desaparece,

Como anelante fumo num oceano.

 

Quebrou-se o leme; o verso se desprende

De toda a real essência enquanto vivo,

Porto inseguro cómico e festivo,

Mundo onde já nada me surpreende.

 

Ditou-me a terra seu longo ditame,

Contente, fiz-me péssimo escrivão

Assim mantendo o lume aceso, não

Quero mais que mancha em mim derrame.

 

Só pelo baço vidro vejo rostos.

Prendendo-os, observando-os como as feras,

Com que me prendem garras, ó quimeras,

Adivinhando-lhes estranhos gostos,

 

Um peso inerte a fronte em vão segura,

Como ranger de porta de madeira,

Velha, antiquada e verdadeira

Quando a cópula da alma se abre impura.

 

Música maestro que comece,

A sinfonia adúltera e humana,

A mais estranha música não dana,

O meu sentido fixo que se aquece,

 

E arrefece, num lago de cristais,

Abertos entre as blusas de mãos cheias,

Onde olhos dedos mudos tecem teias,

Correndo o sangue dentro mais e mais.

 

Percorre, ó gozo, ó vício a minha fronte,

Escorre-me um licor amargo e doce,

Ah se eu nunca fosse e outro eu fosse,

Seta aguda de ouro outro arco aponte.

 

O estar a mais na soma ou adição,

De um mais, que menos tanto a neve e fogo,

Soe-me agora um cântico, e mais logo,

Vagueie nas asas do meu coração.

 

O estar à porta à espera que apareça,

Mordomo da Beleza e uma denúncia,

Fazer por se esconder sempre em renúncia,

Passando à minha frente sempre à pressa.

 

Esqueça vil senhor. Volto mais tarde,

Quando outro for, ou ser, ou estar, ou ir,

Onde possa o impossível conseguir,

Pois sofro de ansiedade, e a vida me arde.

 

Musgo verde cresce à volta e dá,

Um toque aveludado na alvorada,

Que viu a escuridão ser terminada,

Ofício de coveiro e sua pá.

 

Termina o curso, Sol. Meus versos pedem,

Cores angelicais, se no céu brincas,

Mas neste mês de Maio agreste trincas,

Humanas preces como mãos que estendem

 

Eu ver-te ao fim da tarde e decorar-te,

Os olhos, quando me olhas e iluminas,

A clara e branca cura que desatinas,

Papel imaculado para amar-te.

 

Deitar-me em pedra dura e aquecida,

Pelos teus mansos raios de crepúsculo,

Que o estro me entumece, a veia, o músculo,

Embate vão por alma já perdida.

 

Por versos não brincarem como tu,

Quando o fazes, e se me olhas pelos ramos,

Saltando os raios como alegres gamos

Como enfrentando a guerra puro e nu.

 

Queima-me docemente o rosto frio,

Cortante, quando o vento da montanha

Causa-me frio de morte ou coisa estranha,

A voz que o vento traz e nunca ouviu.

 

Gigantes ondas de água em mim desabam,

Gigantes monte a monte os amontoam,

E cânticos antigos alto entoam,

Na glória infame onde por terra acabam.

 

Formam deuses deitados deleitados,

As curvas graciosas tão formosas,

Torna-me extensos campos verdes glosas,

Escrevem ao tempo versos aos bocados.

 

Ah, versejar sem rumo e sem ter meta,

Antigo cravo silenciado e mudo,

Nada mais que a música, que tudo,

Como seguir a vida em linha recta.

 

Ah pomo aperaltado e desgostoso

Mamilo róseo em minha boca húmida,

Ah veia avermelhada doente e túmida,

Ah pétreo coração, louvor honroso.

 

Ah tempo que tornado te tornaste,

E me empurraste em frente e eu não sabia,

Que tudo acabará a seu tempo um dia!

Ah noite umbrosa: bem que me avisaste!

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