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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

O Náufrago

Janeiro 09, 2008

Na rocha áspera, encosto o rosto e sinto,
Furioso vento, solto da caverna,
Onde o gelado frio me governa,
Onde meu ser é esquartejado e extinto.
 
Percorre-me arrepio de morte. O sangue,
Ferve, quando o rosto me aparece,
A tentação de estar na vida exangue,
Trazendo o Nada que a vida me oferece.
 
Varro meu respeito, meu pensar,
Varro os fartos, gastos pensamentos,
Rasgo meu peito frágil, sentimentos,
A rouca voz, pra onde quer levar.
 
Fantasmas, que me ignoram, que me inquietam,
Que diariamente cravam seus agudos,
Dentes, tornam-se meus gritos mudos,
Espectros que me enervam, me impacientam.
 
Se tombam almas num tão simples gesto,
Porque as minhas mãos gelam-me os meus nervos,
Tornam meus sentidos fracos, servos
Duma vontade onde não estou, não presto.
 
Meus lábios secos como mil desertos,
Abobadado pelo sol de Verão,
Barram meus caminhos sempre incertos,
Por onde à pressa corre a multidão.
 
Nos vales, ecos longos dos malditos,
Que numa aflição louca deixa ver,
Os coruscantes olhos dos alfitos ,
Da salvação em busca, sem a ter.
 
As nuvens se amontoam como a gente,
À espera dum milagre ou profecia,
A voz que extrai do mar a Poesia,
Que o mar concede e o céu a voz consente.
 
Vincados ombros trazem dos seus vícios,
Gigantes como o porte das baleias,
(Qual o lugar que cantam as sereias,
Que lave as feridas dos meus sacrifícios?)
 
Rasga-me o peito em mil. Rasga-me a alma,
Em busca do que quero e não encontro,
O meu poema é longo e não tem ponto,
E não se vê à volta uma vivalma.
 
Meu corpo, porque avanças. Não te espantes,
Se outra vontade houver igual à tua,
Igual a quem padece com a Lua,
Chorando, por já não ser como era antes.
 
Minhas memórias dormem sossegadas,
Mergulham num sono negro profundo,
Eis o que quero: ser pedra, ir ao fundo,
Vê-las como sereias encantadas.
 
Durma antes o destino que acorrenta,
Aprisionando aquele que não vê,
Que é mais do que o verso que não se lê,
Um eco que no vale dorme e assenta.
 
Exaustos olhos, da virtude espelhos,
Reflexos cristalinos, sol ardente,
Incide a valiosa calma ausente
Os olhos de cansaço estão vermelhos.
 
Segui caminho errado. Eu não devia,
Ter ido por ali, por acolá,
Sigam-me então, pra onde quer que vá,
Não tendo por palavra a Profecia.

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