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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Poemas escritos por António Só

Poemas escritos por António Só

O mendigo

O pobre homem de barbas brancas em balbúrdia 
ao balcão do vício pediu um copo de vinho
que lhe abrisse a pestana de manhã, disse ele
esbugalhando os olhos tristes, tortos
baços nas pupilas em ruínas
o borrão do cigarro brilhava mais
não estava ali para fazer perguntas
era decidido como se a miséria e a imundície

lhe dessem força no braço de ferro
entre ele e o martírio do tempo

sentado era uma ilha na cadeira velha

se alguém se aproximasse logo estremecia
não de medo nem de frio nem de raiva
mas como folha caduca no início do outono
diria um urso que descesse a encosta
e viesse da caverna fria
parecia doente, corpo e mente
tossia tanto, tossia tossia
parecia bicho frágil a recolher-se do mundo
esbarrando com a cabeça na realidade
sem identidade não dando
contas a ninguém, amealhava invernos
e noites sem riso sem luar, escavava túneis
dentro de si e dos outros com perguntas
quem seria, o que teria feito, acontecido
e num redemoinho de vento outonal
a minha poesia desvalorizou
rasguei o papel e fui-me embora

que teria feito que valesse
a pena pesando-lhe

 

O norte e sul da cidade antiga

Os rostos eram de condenados vivos
descartáveis e submissos do lado sul
da cidade em ruínas muito antiga

o tom de pele dos índios os bigodes
amarelados unhas pretas imundas
sorriem de cansaço físico perto do fim

do lado moderno da cidade antiga
Haviam rostos limpos pareciam escolhidos

Que descartariam outros do lado das ruínas

De pele pálida de espectros fantasmas
fumavam rindo alto e escarneciam
de quem lhes servia vinhos aromáticos

a violeta não descarta o cardo
nem a madressilva despreza o choupo
ou a água as baleias polvos e sardinhas

a verdade depende do ponto de vista
amanhã virão técnicos especialistas
reflectirem a fundo sem perceberem nada

 

Os homens das mudanças

carregam templos às costas sem se queixarem
transportam cinzas, levam livros, levam grifos,
carregam labirintos de Dédalo sem darem
exaustos parte fraca, gritam que estão vivos.

e suportam insolências sem se importarem
de qualquer um que comprou casa e lá não vive
costas esmagadas do peso sem se vergarem
estão do outro lado do muro onde sou vivo

da fronte pigam-lhes suor mãos em carne viva
dias meses anos o tempo não é mais tempo
maldita condição imposta que nos priva
carregarmos só aquilo que nos pertence

 

Camões

Define-se a grandeza do poeta
Dos céus por onde o engenho seu andou
Camões pela beleza que sonhou
Tornou-se pela língua o predilecto

Imenso amor por sua pátria amada
Que noutros tempos pátria tinha altura
Deu-lhe sangue e suor, desenvoltura
Atinge a fama nunca antes sonhada.

Camões que de alcançá-lo é impossível
A menos que o tremendo amor que tem
O poeta ultrapassá-lo conseguisse

Camões fez o impossível ser possível
Fazendo com que a língua fosse mãe
que o mundo português falado ouvisse

Português, um idioma

Tem sons do mar que sabe a sal, sabe a saudade
que floresceu seguindo o céu olhando o mar
na pronúncia consegue acordes tão suaves
tem ritmos de caravelas a navegar

desses seis filhos tão notáveis do latim
nascia o mais simples o mais distinto a falar
visitamos países distantes no fim
ouvimos português com vontade de chorar.

Maleável polifónico musical
sem esquadrias e métricas rasgadas
tem qualquer coisa de língua sentimental
faz com que as pessoas se sintam amadas

 

Sobre a medicina

E assim heróis se fazem mansos mudos
Incrível, já não creio em quase nada
Fez-me a loucura avessa uma emboscada
A argumentação de tudo com estudos

Comprovem que esses estudos foram feitos
É um conceito muito americano
Há uns tempos o livro de São Cipriano
Servia facilmente estes conceitos.

Todavia temos dores de barriga
Os médicos só receitam comprimidos
Para maleitas dolorosas infinitas

Foi sempre abrigo amigo a medicina
Mas andam para aí uns desconhecidos
Que nos falam de vacinas como fajitas

Sobre a desumanização

Esse amor de rosas e champanhe
De dúvidas de dádivas de dívidas
O amor televisivo de rebanho
Oxida o aço duro às nossas vidas

ocultos mentirosos compulsivos
Compram jornais ricos sensacionais
Mudam-nos os processos cognitivos
desumanizam-nos os animais

Tentei que a tolerância em vão viesse
Não se confundam deuses com sucesso
Erro endeusar-se alguém de carne e osso

Quis que o bom senso perto aqui estivesse
Mas só chegou-me o bálsamo do verso
Que mãos cruéis nos esganam o pescoço?

Ansiedade

Que cavernosa noite com a cor do crude
De tinta permanente derramada em mim
Sem represa a quebrar-se nem água no açude
Nem uma brisa inquieta me traz o jasmim

Que insónia me domina, acorda, Valentina
Que bela adormecida do beijo adormece
A noite diluiu-se em barro e barretina
Ó pavorosa noite que mal me acontece? 

Há quem lançar consiga ao mar do esquecimento
Há quem no mar encontre o polvo esverdeado
Acerta e sintoniza as agulhas do fado

Leva-me ao manicómio estou a dez por cento
Sou balão a deslocar-se no ar inacessível 
Estou a sentir que vou explodir num dirigível

A rapariga que pedia mais cerveja

a adolescente embriagada rastejante
na sua mão o copo de plástico vazio
com voz de brisa leve tímida pediu
que lhe vendessem mais cerveja refrescante

voltava copo cheio ao círculo de amigos
pedia por tabaco, haxixe, o que lhe dessem
como corça pedindo aos lobos que a comessem
exibia os seios como o alvo ao inimigo

de súbito subiu-me a náusea entristeci
como se desejasse não sentir mais nada
ficasse ali no chão um réptil que rasteja

tão fresca primavera como nunca vi
trazia o equilíbrio de sereia encalhada
a rapariga que pedia mais cerveja

A rapariga que pedia cerveja

A palidez mortal retrato da inocência
a brancura da pele das estátuas antigas
dois olhos imploravam verdes por clemência
que lhe vendessem cerveja a ela e aos amigos

diria uma flor a desabrochar na vida
os amigos faziam-lhe círculos e riam
com fósforos acesos no olhos de vício
diziam com olhares ébrios que a fodiam

esvaziava e enchia o copo de plástico
nos dedos segurava o odorífero cigarro
saindo-lhe dos lábios virginais o fumo

havia qualquer coisa nela tão errático
como perdida não soubesse a que se agarra
se à alegre juventude, se à noite sem rumo

 

O maior predador

IMG_20210117_173557.jpg

Meu espírito descia na audácia das aves
rente às águas quietas do rio se têm fome
escrevia no lodo acrobático meu nome
Para lembrar, quando descesse às escuras caves

não cairei na escada que escrevo poesia
por não saber se é poesia o que escrevo
fui abatido a tiro como esquivo cervo
de longe olhava o rosto que de mim se ria.

o rosto era do Tempo, incansável predador
medidor feroz com mandíbulas de hiena
chegará inevitável o último suspiro

olha a fotografia, é o tempo, meu amor
que as mágoas e remorsos não valem a pena
foi de raspão, temos tempo, ainda respiro

 

Pessoas ainda mais

IMG_20210526_214518.jpg

sou cúmplice com mais 7 biliões
nessa energia primitiva e rara
sangremos juntos como Mirmidões
dando início à íngreme escalada
pedindo por clemência à azul excelência
os vermes falam no inédito comício
vejo-os nesse crime incontinente
cegos nos guiam ao mar do suicídio
aos que multicolores se abraçavam
inspiram-me esse amor sincero e livre
desprezo essa ambição viver em Marte
por ser desprezo por todo o ser vivo
cravo os meus dentes no pescoço da Arte
por dar sentido à falta de sentido

Outra vez pessoas

IMG_20210601_141949.jpg

São como nesta selva os animais
desde a formiga, a águia, o tigre, a cobra
que uma pessoa noutra se desdobra
raros diamantes brilham especiais

uns primam p'la tranquila inteligência
uns pela catastrófica estupidez
uns à sombra da árvore sensatez
uns queimam-se ao sol da falsa aparência.

uns loucos, mentirosos compulsivos
melancólicos complexos, uns festivos
os rostos que por mim tantos passaram

lembro os que me inscreveram na memória
Como um poema um autógrafo uma história
mesmo os que nunca de mim se lembraram

Pessoas

IMG_20210601_224047.jpg

Pessoas! tantas como as verdes folhas
das árvores tantas como as belas flores
pessoas de alegrias e dissabores
que me olharam fixamente como me olhas

pessoas tristes ternas delicadas
sensíveis com seus rostos desiguais
incríveis com suas histórias musicais
pessoas belas, feias, maltratadas

biliões! somos já tantos tantos tantos
pessoas de altos charmes e de encantos
moléculas na vida que destoa

os que amei puro e desapareceram
os que deixei de ver nada disseram
amo as pessoas as pessoas as pessoas

 

Declaração de não dívida

Eu Pedro anónimo administrador
relativo a dois mil e vinte um
solteiro bom rapaz, trabalhador
no prédio nº 10, não o 21
na rua professora e tal Helena
nesta linda cidade não pequena

declaro que o vizinho cá de cima
morador no segundo andar direito
por quem, vá lá, eu nutro alguma estima
mesmo não sendo o homem mais perfeito
tem pagas as despesas de condomínio
até ao fim de Junho neste domínio.

pagador bom morador até simpático
viveu cá desde o ano dois mil e quatro
julgava-o arrogante e antipático
carrancudo como sola de sapato
viveu com o seu filho e esposa amada
declaro e assino que não deve nada.

informo que nunca ofendeu ninguém
se alguém o fizesse ele ignorava
pois cá no prédio há quem de besta tem
uma costela que já a endireitava
para aprender a ter educação
que mais se ganha em não ser fanfarrão

Dúvida

Quisera um dia que fosse poeta
no tempo intermitente entrecortado
que escrevesse mentiras e baladas
na cadência destrutiva em linha recta

meus olhos exaltados foram meigos
traziam desenhos limpos de crianças
a pureza a inocência são lembranças
que em fase adulta nos tornamos leigos

admito nunca andei por um deserto
mas sinto o que não pude experimentar
ar novo de atmosfera alternativa

E o que me vai mantendo são desperto
É um rodopio que tende a aproximar-me
Da sorte que ainda quer que eu triste viva

visita de médico

há rostos como existem flores
abrem-se aos sóis de rostos alheios
deixam abelhas colherem risos
e alojam vermes como hotéis

o pardal cantava num ramo
pressentiu o perigo voando
para longe da humanidade
que pudesse atingi-lo

os guinchos foram de férias
andavam incautos no lodo
voaram e foram-se embora
sem aviso sem riso sem vestígio

sosseguei uns minutos retesei
os músculos o sangue fluía-me
em leves e suaves murmúrios
o Amor veio-me de supetão

juro que vi uma lebre que saltava
na vegetação, não a viste
não poderei provar a verdade
do que se fez e do que se disse

fiz o teste à infância deu
positivo não ando mais no
asfalto de giz nos dedos
a escrever versos lúdicos

tivesse na concha das mãos
a claridade nas folhas verdes
atrás de si, doutor, o meu
coração bateria sempre

A teia

A teia pegajosa da medicina
A teia invisível financeira
A teia de atear-se fogo à madeira
A teia entre Israel e Palestina

A teia da sinistra tecnologia
A teia embrionária do arquitecto
A teia do ser branco ou do ser preto
A teia que intrincaram dia a dia.

E quanto mais se fala mais se oculta
E quanto mais se esconde mais ataca
E quanto mais se enreda mais adulta

E quanto mais se ignora mais expansiva
E quanto mais se encobre mais opaca
Se vai espalhando a treva em morte activa

 

Soneto "O Delícia"

Existe em Moscavide um restaurante
onde se come bem e a qualidade
supera os outros sítios na verdade
com simpatia servem num instante

na ementa há muito por onde escolher
no peixe, há arroz de polvo, bacalhau
há robalo, sardinhas, carapau
chocos com tinta lulas se quiser

na carne há bitoque, há bife à casa
há toda a chicha que se põe na brasa
regado com bom vinho (ai a Polícia)

há uma lista infindável de petiscos
peixe fresco, carne tenra, bons mariscos
o restaurante chama-se ‘O Delícia’

 

A ementa 'O Delícia'

Têm tudo para comer
há carne peixe e marisco
lista enorme nos petiscos
lista enorme no beber

servem croquetes, rissóis
patés, manteigas e pão
servem também caracóis
com pão torrado e paixão.

têm lá dentro um aquário
com caranguejo e lagosta
ele parece ordinário
ela parece que gosta

servem jantares almoços
que o servir é muito nobre
servem cerveja e tremoços
sejas rico ou sejas pobre

a casa de banho impecável
brilha com delicadeza
que isto comer é saudável
quando também há limpeza

se o Delícia existisse
há duzentos anos então
talvez um dia servissem
o guloso do Napoleão

ou se em vez de Moscavide
estivesse na Galileia
tenho a certeza que Cristo
faria lá a Última Ceia

mas mesmo na Última Ceia
até Jesus Cristo pagou
a conta sem a Judas de custo
foi assim que Deus o levou

homenagem ao restaurante "O Delícia"
Em Moscavide

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