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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Violoncelo

Amo quem tem música no coração

Quem nos olha e penetra,

Nos revela uma mentira

E nos banha de verdade.

Amo quem nos sabe de cor,

Sem nos conhecer, olhando-nos

Esventrando desejos se olhamos com desdém

 

Amo quem dos seus olhos nasce uma aurora

E dos seus olhos imutáveis,

Sem tremeluzerem de pânico ou tristeza

Choram verdes folhas de árvores e cânticos das aves,

Amo quem me dispa,

Que descubra sorrisos soterrados

Banidos, contidos no coração,

Amo quem espalha a frescura

Matinal de manhãs de outono

Lavadas com borrifos de orvalho refrescante.

 

Amo quem nos olha das alturas

Quem não duvida sequer do que somos

Que desconfia também do que não somos

Que nos revela a verdade diluída na mentira

E descobre ciências e bibliotecas fechadas

De noite, quando os astros meditam silenciosos

No céu incerto dos apaixonados.

 

Amo quem lê, quem escreve, quem sente

Quem fica acordado de noite a tocar

O violoncelo do corpo com mãos pálidas mãos macias

Como se a voz grave, triste e solitária fosse porta voz dum povo oprimido.

Ó escrutínio demasiado doloroso do meu próprio ser,

Ó solidão constante, demente e cortante,

Ó amor meu, minha razão, minha loucura

Canto-te em espírito sem mover palavras

Sem divagações nocturnas do meu cérebro exausto

Ofereço-te uma flor nascida no jardim,

Onde cresceu junto do meu quase túmulo

como a música dos parabéns...

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