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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Estrelas em Lisboa

Gostava que as estrelas fossem pessoas

Que viessem à terra e falassem comigo

Sentar-me com elas, passear por Lisboa

Levá-las a ouvir Fado como a um amigo

 

E entrassem nas lojas de roupas, perfumes

Ser guia turístico, viajando no eléctrico

No meio de turistas que vão em cardumes

Com olhos nas estrelas com olhar meio céptico,

 

E fossemos, claro, aos pastéis de Belém

Comprando uma caixa e levassem à Lua

Num dia que viesse com elas também

 

E no fim da noite, depois do jantar,

Tirássemos juntos mil fotos nas ruas,

Voltariam radiantes ao céu a brilhar

Por tudo e por nada

Sou esse germe da vida

Que beija a rosa tombada

Sou vento, gélido, frio

Ser metamorfoseado

Sou esboço desse destino

Viver à margem, do lado

Errado de um largo rio

No cais desmantelado

Mas subo ansioso a colina

Qual gato sobe ao telhado

É mais curioso o felino

Que um homem atarefado

Também me roço nas esquinas

Do meu passado azulado

Como se o céu repartisse

Comigo, o pão partilhado

Desço, tentando equilíbrio

Tropeço, escorrego, maltrato

No dorso desse delírio

Em dias de mansos cuidados

Sou gato que se esquiva

A essas carícias de fada

Das mãos do desconhecido

Sempre, por tudo e por nada

Por vezes, sou um bandido

Em livrarias de estrada

Farejo inúmeros livros

Quase por tudo e por nada

Também o lume que esfria

Numa casa abandonada

Sem receber luz do dia

Que dizem estar assombrada

Há quem procure refúgio

Me peça a chave emprestada,

A um leopardo pedinte

Por ter partido uma pata

Sou quem podia ter sido

Se escolhas fossem pensadas

Mas nunca fui fugitivo

Dum luar de fina prata

Sou um borrão de tinta

Numa pintura pensada

Também um shot de absinto

Bebido por tudo e por nada

De mim às vezes desligo

Gosto de estar desligado

Nos dias que a nada ligo

Só por sentir-me isolado

Minha alma é de submarino

Sempre num mar mergulhado

Sem horizonte ou destino

Sem terra a ser avistada.

Carta da verdade

Receberei um dia dessa atroz verdade

Terrível uma carta que aguardo receber:

Dizendo: "Eu avisei-te, poeta: há sinistralidade

Nos teus escritos vagos que ninguém quer ler”

 

“Que nunca foste além do poema de voo raso

Nem cintilaste perto de brilhar na fama,

Nem recebeste dons dos deuses do Parnaso

Deitas-te agora inútil na tua própria cama”

 

Seja-me este soneto-lâmina um lembrete

Resposta enfim tardia à mesma atroz verdade:

que: “a vida é o momento desse tempo empregue

 

“esperei que tu viesses revelar-me a vida

Mas nunca vieste ver-me em tenra ou dura idade

Para que nunca andasse minha alma à deriva“

Manhã de Outono

É este frio de outono a enregelar-me o corpo

De bem afiado vento em pedra de amolar

Que me assassina e corta com terrível sopro

Que macambúzio Éolo decidiu soltar.

 

Os rostos que se enrugam na neblina fria

Rolam dos olhos mornas lágrimas que aquecem

O coração, que o vento bárbaro injuria

A caminho dos ofícios que nos arrefecem.

 

Tu, Sol, como estás fraco, cobres-te com manto

De nuvens que ameaçam engolir o mundo

Há quem reze à janela de manhã aos santos

Como se fosse um filme visto num segundo.

 

As crianças arrastam mochilas pesadas

Os pais vão pensativos com listas enormes

Na mente, de afazeres, almas consternadas

Das suas vidas árduas, vítimas disformes.

 

Os carros arrogantes rugem apressados

No pavor invisível de chegar mais tarde

Há látegos no vento, há fumos enrolados

Das fábricas grotescas, de um mundo que arde.

 

Meu filho, dá-me a mão, que o tempo é uma chita

Que corre tão veloz sem nós darmos por ele

Empresta-me a inocência tua que me agita

Oculto coração pela máscara da pele.

 

Bocejam, não do sono, só quem sofre insónia

O tempo que se encurta, cada vez mais perto

Diria ser do tédio, que só tem remédio

Se abrirmos bem os olhos no meio do deserto.

 

Que mão sombria faz girar veloz o mundo

Oleada da vontade antagónica à minha

Que monstro invisível faz do orbe rotundo

Ser a casa da Morte e ser nossa vizinha?

Fado em português

Vivo a divagar nas ruas da cidade

Ora pensando, ora cantando, ora escrevendo

É nos becos e esquinas que vagueia a saudade

No fumo das castanhas assadas em Novembro,

 

No estrepitoso grito deste cauteleiro

Gravado nele está imagens da infância

Quando dava a meus pais a minha mão pequena

Quando meus pais me davam muita segurança

 

Subindo a escadaria íngrime era o clube

Um clube onde os almoços eram mais baratos

Para os turistas podem ver pelo Youtube

Longas filas de lojas de chapéus e sapatos

 

E claro, livrarias, sempre as livrarias

Prendiam-me a atenção com cantos de sereias

Gostava ler os livros todos de poesias

Senti-los a pulsar no sangue em minhas veias

 

Ficava para trás se visse alguma loja

De legos que hoje são meus livros e os Cd’s

Passando, agora sinto angústia que se aloja

Na alma, a nostalgia, fado em português

Actéon

De súbito, no outono, torna-se possível

Que o sol vibre no céu com raios de violinos

Há cânticos sonoros, poéticos de nível

À noite há divagares, puros, cristalinos.

 

Dormes, Musa amada, à noite, és a criança

Que embalo com mãos de poeta verdadeiro

Porém, é uma criança a noite é a esperança

Que venha a ser num poema, puro e pioneiro.

 

As equações constantes vindas dos vizinhos

Dois somam sensações, multiplicam gemidos

Sofre ela num compasso sincopado e aflito

Prolonga ele o alívio, cálido infinito.

 

A culpa é desta Lua, vibrante, insubmissa

Translúcida, mulher de seio destapado

Nocturna e transparente veste uma camisa

Para adorar um deus de chifres adornado

 

Um dia hei-de escrever os versos mais directos

Volvidos na volúpia da triunfante Lua

Que me ilumina o rosto e olhos com aspecto

De quem a deusa viu completamente nua.

 

Há no meu corpo cães ferozes, violentos

Que me exibem agudos dentes de miséria

Castiga-me esta Lua por meus pensamentos

Que me virão calar o cântico da artéria.

Fugitivo

Sou fugitivo, perseguido pelo tédio

Porque emitira mandato de captura

Durmo nas cavernas, nos montes, sob o assédio

Na estrelas que vigiam minha noite escura

 

A melancolia pôs-me a cabeça a prémio

Colou cartazes nas paredes do meu ser

Está visto que serei doente sem remédio

Nos arredores desta vida a acontecer.

 

Nasci com este dom: saber ser infeliz

O fogo atormentou-me quando era criança

De vez em quando encontro um amigo que diz

“depois da tempestade, vem sempre a bonança”

 

Cometo o mesmo crime desde há muito tempo

E já passou Outubro, e passará Novembro

Querem-te, Lisboa

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Querem-te barata e decotada

Numa esquina qualquer da velha Europa

Felina à noite, sensual, ousada

De dia alimentada a pão e sopa

Linda Lisboa, sonham-te encontrada

Num beco escuro, trémula e submissa

Lisboa antiga querem-te violada

Com esse fogo que o desejo atiça

Agudamente, a pele arrepiada

De ver quem ver-te vem beber-te bem

Querem-te moderna, ajoelhada

Colhendo moedas, como lhes convém

Porém, quero-te simples, recatada

Com pés no chão, mas nunca nas mãos de outrem

A praga

O Homem, bicho voraz que existe na terra

Que anseia descobrir galáxias e planetas

Há-de ser praga, e vil, espalhará a guerra

Inventando, outras metas fúteis, outras tretas,

 

Há-de implementar novos medos e fervores,

Novas doenças, reinventar o romantismo

Há-de enforcar os perigosos delatores

Da democracia ou tirania ou comunismo.

 

Há-de haver eleições de novos presidentes

Na Lua, sem brilho no céu, entorpecida

E o solo sujo de confetis e bandeiras

 

Mas Deus, esse louco, enviará seus agentes

Para que ensine a gente humana que esta vida

É breve, e as almas são frágeis, passageiras

Aos críticos

Que só me sigam sombras, não espiões

Dos meus defeitos, dos meus manuscritos

Os críticos vivem como escorpiões

Nos áridos desertos dos seus escritos,

Apontam e ampliam imperfeições

Numa histeria de mulher aos gritos

Dá meia volta, ó rei das emoções

E volta para o reino dos malditos

 

E toma conta bem dos teus súbditos

Dá-lhes amor, encanta-os com canções

Porque a Beleza não me causa atritos

Nem procuro frívolas fricções

Porque é dos feitos que homens viram mitos.

Que só me sigam sombras, não espiões

Narciso

Podes esbanjar o tempo inútil que te resta

Esculpindo o corpo, e contemplar no espelho

És iguaria ao Tempo hiante, que molesta

Fútil narciso, sejas jovem, sejas velho.

 

O outono virá sussurrar -te: “o tempo passa

Mais depressa do que julgas”, e abrirá

Bem funda uma cova à tua linda carcaça

À terra prometida onde se consumirá.

 

Somos frutos silvestres na boca do Tempo

Escavamos buracos, não encontramos nada

No fim, o ser feliz foi sol duma promessa

 

Do que mais falta sinto, o que tão bem me lembro

Não deste corpo dado, assim, de mão beijada

É da minha ida infância... passou tão depressa

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