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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Meu El Dorado

Que pena! esqueceram-se de me lembrar,
que mais tarde haveria de sentir solidões de séculos,
De reis justos, rodeados de abutres,
De mães trémulas, mulheres inabaláveis,

 

esqueceram-se de me dizer que o desespero,
mora à saída de casa, se nos esquecemos,
da infância em cima da mesa
De quem fomos no bolso do casaco

 

e então, como um comboio invisível viesse,
de encontro ao nosso corpo falível,
esqueceram-se de me dizer que é inevitável,
Perdermo-nos dia e noite dia e noite,
Numa surpresa de frio de navalha,
À espera que degolem o universo inteiro
Dessa tristeza absurda

 

E no fundo, lá bem no fundo,
é uma alegria secreta descobrirmos uma Orion,
Num lugar de gente, mar de cinza e pó,
Num planeta decrescente e decadente,
De ares condicionados e conversas pavorosas,
Onde forçados ouvimos o silvo de áspides,
que a cada dentada se alimentam desse nada
Tão vago como definir a felicidade em vida.

 

deixai-me ser infeliz à minha maneira,
Que meu corpo é uma máscara de Veneza
Pois que meu El Dorado será descoberto e visto
quem olhar meu coração com olhos de veludo

O Rio, a Infância e o Tempo

Quando era miúdo deitava-me no corrimão

Das escadas, onde havia muitas oliveiras,

Fechava os olhos virando o rosto ao sol,

Como em busca das coisas verdadeiras.

 

Sentia que o tempo no instante não havia,

Escutava o entardecer, o recolher das aves,

Brincava com meus carros minúsculos, usados

No muro, se tivesse ali à mão as naves,

 

Eu era o próprio actor num palco de ar e sol

De nuvens em castelo, sensuais, que passavam

Era a dor de cabeça dos meus pais e avós,

Que me sorriam sempre, às vezes me ralhavam

 

A escola era um lugar para estar sempre
contente,

Incauto e radiante o sol me perseguia,

Os olhos azuis daquela que em segredo,

Pensava amar, porém, para ela não existia.

 

Comprei-lhe um anel de prata (creio já não o ter)

Agora que sou outro, fruto do passado,

Flor amachucada pronta a ser varrida

Mina rica em ouro que de ouro não tem nada

 

Pena que a poesia é um sofrimento absurdo,

Batalha perdida sem campo de batalha,

Agora, nesses muros, palco infinito

Meu filho substitui o pai que só trabalha.

 

 A minha avó de luto é a minha alma doente,

Que já não quer sair do corpo que a encarcera

Meu corpo é meu avô que não se encontra vivo

Memória derretida numa vela de cera.

 

Sou assunto suspenso nas mãos da justiça

Um prego torto mal pregado na parede

Sou a lira de Orfeu no sótão empoeirado

A fonte em ruínas que já não mata a sede.

 

A tristeza haverá de ser castelo de areia,

A esperança é um mar de ondas animais,

Ainda hei-de provar o rir de um vento livro

Hei-de livrar-me destes versos sentimentais

As Pedras

Não foi a minha escolha ser poeta,

Poeta que não sou, nasci, cresci,

E um dia dei por mim a escrever versos,

Pois não havia vida nesse dia

 

Sou mais irmão da árvore e da flor,

Do sal do mar, da espuma, da areia

Que dos homens. Sabe mais de mim aquele

Rouxinol doente a meio da noite.

 

Não foi uma escolha minha. Os livros vêm

Em bando parar às minhas mãos,

São bocas desdobradas em ar em nada,

São línguas afogadas no martírio.

 

Talvez com versos me arme em forte e sou,

Assim, feliz, do mundo em segredo,

Vivo a pensar nisto a vida inteira,

A vida resumida num minuto.

 

Caiem folhas outonais no chão que piso 

Nem sopro oscila um ramo ou treme a folha

As coisas dormem dentro delas próprias

Confusas como eu, no átrio da vida.

 

Feliz quem escolhe e quem domina o sangue

Pois pedra me faço e me desfaço

Feliz de quem é seu próprio escultor,

Eu pedra, eu mármore frio, diamante em bruto

Lago Seco

Custa-me saber que sou um grão de areia,

Um átomo, molécula, ponto infinito,

Pensamos que uma frase muda o mundo inteiro,

No fundo é mais da alma, um sopro, um espirro,um grito,

 

Uma aflição constante ser durável. Vejo

O derrame dourado sobre a ponte velha,

O rio eternamente jovem, e eu pareço,

Um primata à procura de fogo ou centelha.

 

Não mais querer pareço, lúcido e audaz,

Podeis sentir no verso escrito a sangue frio,

Vivi, não vivo mais. Sou escravo do passado

Preso a duas margens estreitas, sou um rio...

 

Aquele crocodilo passa a pente fino

As lamacentas águas dum rio africano.

Sua procura é válida, a fome justifica,

Nem fome ou sede tenho. Vivo, quase insano...

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