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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

O Poeta Decifrável

Não procures mistério nos meus olhos,
Não me queiras misterioso,  indecifrável,
São precisas coloridas máscaras de Veneza,
Para ser-se sedutor, enigmático, sem enigma.

O que há, há. Basta olhares o céu,
Para encontrares o ser mais belo e sedutor
Misterioso e feminino,
Complexo, vasto, e melancólico
Como é o Universo.

No brilho dos meus olhos só encontrarás
O beijo que te quero dar.
Nada mais...

FIM

Que ninguém ouse pedir meu coração,

Não sou de vidro que me possa partir,

E cair estilhaçado no mármore do chão

É fragmentar-me em vários, sem cair.

 

Ignorem as palavras dos poetas falsos,

Como eu… mas musical  meu ser é puro,

Levantai, ó leitores mãos e braços

Pois o tédio tem um discurso prematuro

 

Amo a vida. O coração é mensageiro,

Levando à turba frágil dentro de mim

Um rubro vinho, um Hino de alegria,

Se me amam, por favor, não me escrevam FIM

PRÍNCIPES E PRINCESAS

Uns dizem que foram, em vidas passadas
(E duvido que viveram no passado outras vidas)
Príncipes e princesas, condes e condessas
Com vestidos sumptuosos de riquíssimos tecidos
Por volta do século XVIII ou XIX,
Onde tudo era veludo, seda e púrpura.
Todos eram ricos, não passavam fome,
Prosperavam na vida no ócio e no vício
Todos foram galãs bem vestidos,
Todas foram galanteadas bem vestidas,
Em jardins de estátuas flores e estrelas,
Vivendo em palácios de contos de fadas.

Ninguém fora, nessas vidas passadas sem passado,
O moleiro sujo, miserável e desdentado,
O ferreiro imundo, cor da fuligem
O pescador, o padeiro, o ladrão
O moço de recados com a mãe doente,
O moço da estrebaria, o agricultor,
A mulher cadavérica que se prostituía
Para sustentar seu filho recém-nascido;
O pedinte sujo, açoitado
Pela guarda no pátio da igreja,
Ou soldado mutilado na guerra atroz
E outros que ninguém julga ter sido.

Eu não fui nada em vidas passadas,
Pois só me lembro ter sido
Eu próprio na vida presente

O CANTO DO ROUXINOL

Sinto-me seco, rosa murcha, degradada,

Há muito que não chovem versos do meu ser,

Puseram-me no escuro, correram persianas,

Já nem sentir o sol mais posso ter prazer.

 

O piano, ao arrancar-me da realidade,

Vivo, melancólico e alegre ao mesmo tempo

Ainda contem água fresca no regador

Pra no Verão regar-me e ver-me ainda em Setembro.

 

Em volta, embatem perfumes violentos

Sinto-os como anjos vestidos de violeta,

Atravessam meu corpo, impalpáveis gotículas

Inspiram-me a avidez e boémia de poeta.

 

Despisto-me na curva da bela cintura,

Dum elegante cisne no corpo da mulher,

Que desliza e contagia em volta a multidão,

De corvos que a debicam com vulgar prazer.

 

Pergunto, se formiga fosse: e se viesse

Bêbado, um gigante com seu pé esmagar-me?

Tão frágil eu seria no orgasmo da terra

Quem viria socorrer-me, quem viria encontrar-me?

 

Desde o momento em que nasci ainda não tive,

Instantes de silêncio de diamante puro

Podia a vida ser um sono tão profundo

Vividos para viver na luz e não no escuro

 

Um melro na folhagem prende-me a atenção,

Com cânticos que soam a plena madrugada

Seu chilrear parece dar-lhe algum alívio

À sua solidão. Chama por sua amada!

 

Já muito caminhei só pra sentir-me amado,

E lânguidas rainhas sentadas no seu trono,

Que, só por serem belas, são assediadas

Por seres mergulhados num profundo sono.

 

Será talvez assim que canta o rouxinol

Que à noite vai contar a sua história amarga

Cantando noite e dia, à escuridão, ao sol

Pois que da vida a sua história não se apaga

Desejos Íntimos

Pleno e cheio e dócil,
Afável meigo e doce,
Seguro-o como uma flor,
Seguro-o como se fosse,
a flor que ao, segurá-la
Gota de água vai beijá-la
No seu rosto, quando a chuva,
cai na boca como a uva
Com a cor do vinho doce,
Prova como um fruto fosse
E num manto real envolto,
Rei gentil, bondoso e solto,
do pavor que causa aperto,
Vai louvar sua rainha,
Branda como uma andorinha,
Que se empina para ver,
Vê-lo dócil a crescer
como cresce árvore forte,
Que suporta vento Norte,
Nas planícies mais a sul
Macio qual céu de azul...
Na lisa seara da pele,
Na sinuosa curva o perigo,
Ah, como sou um mendigo,
Se meus lábios humedeço,
Bela imagem nunca esquece,
como um lago tão profundo,
Abro as mãos a este mundo,
Na fricção que nasce o fogo,
No mergulho onde me afogo,
Neste mar de alto prazer,
No seio de uma mulher...

No Fio da Navalha

No fio da navalha é onde me encontro,

No ponto onde o poeta se descobre,

E a vida soa sempre a contraponto

Matando a ávida sede, a ávida fome

 

Num beco sem saída é onde embate,

Batendo às portas da alta perfeição,

Que uma vida não lhe chega quanto baste

Pra resolver enigmas do coração.

 

Seu coração é feito de manteiga

E os olhos transparentes como água,

Abre-lhe a ferida funda e um mal carrega,

É o tédio, vem deixar-lhe dor e mágoa.

 

Sangue, quanta verdade em ti se encerra,

Queria dizer a verdade aos borbotões,

Como se fazem bombas para a guerra

Ou versos que rebentam corações.

SONETO PARA OS QUE AMAM...

Eu sou aquele que ama sempre mais

Em tempos me disseram: “estás errado”

Amar excessivamente é o meu fado

E assim, sou infeliz, entre os demais,

 

Como sentir saudade é doloroso,

Meu coração fervilha ansiosamente

Pela pessoa amada quando ausente,

Quando não vem, torna-se um ser choroso.

 

Meu sangue é como um rio que corre inquieto,

Beijando a boca de outro rio incerto

 Que corre em direcção ao alto mar,

 

Meu coração, tão vasto como um monte,

Tem sempre os olhos postos no horizonte,

Se espera por ti… mas não te vê chegar.

Amor de Poesia

Como me manténs vivo, ó poesia!

Fazes-me ignorar os sinais vermelhos do tempo,

Afagas-me com a doçura nas mãos carinhosas de mãe,

Que ama o seu filho…

Como me manténs vivo, repito

Fazes-me rodopiar na vida

como a fúria do vento ao saco de plástico

Morto, rodopiando no ar,

Sempre que o vento canta…

És o cão-guia do meu corpo cego,

Esmola que mendigo à porta da igreja,

Cigarro oferecido ao arrumador de carros,

Sem vida, sem rosto nem futuro,

Nas asas queimadas da esperança;

És o meu filho brincando nas palavras,

És o amor de mulher sem caprichos,

És a cãs respeitáveis de meu pai

És o amor de minha mãe

Em símbolo de rosa e flor de lis

És o meu amor…

A União

Na névoa morna, a neve fria, o olhar me torna,

No único ser, em campo aberto, no oriente,

Meu beijo terno, o meu licor do ser entorna

Soubesse o mundo como é fértil minha mente.

 

Saudoso abrigo, onde escrevi, tantos poemas,

Não me darão às mil perguntas, mil respostas

No rebuliço ocasional de braços, pernas,

E saliva, quero beijar-te onde mais gostas.

 

Não quero amor; quero afinal, um paraíso

Dentro de ti, ser recebido e enfim puxado

E florescer no lago morno meu narciso

E ver-te nua, num leito aberto, de amor forrado.

 

E percorrer, em campo aberto, o corpo ameno

Abrir portões para uma nova dimensão

Nessa volúpia, acesa em beijo, ardente e terno

Quando nos foge, nas alturas, a Razão

Chopin e a Morte...

Ouvindo Chopin, de inchada veia poética,

Abandonado no doce murmúrio do Sena,

Vejo-o com a noite eterna, que nos abraça

Num inesperado dia.

 

Condenado, parecia que tocava dizendo:

“Morte, porque não esperas mais um pouco?

Senta-te! Tocarei para ti, depois iremos

Juntos para teu reino."

 

Ela, a praga da vida, a que todos ceifa,

Envergando luto e nada, da vida invejosa

Sentou-se. Ao ouvi-lo, quase lhe rolava

Uma lágrima do seu sem-rosto.

 

Pálido, Chopin, doente e melancólico,

Tocava como se fosse seu último fôlego

Como se perto sentisse a Morte a ouvi-lo

Culpada do negro ofício.

 

Um cair de água cristalino, o momento

Saia-lhe do piano nimbado e lustroso

Pela Lua que se sentara à sua janela,

Para ouvi-lo, enternecida.

 

E quando a suavidade da melodia cessara

Pesarosa, a Morte levantou-se pensando:

“Espantoso! Não virei ainda buscar-te.

Amanhã virei ouvir-te.”

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