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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Enxurrada

De meu não tenho mais que um lúcido pensar,

Sossego na penumbra sóbria do meu ser,

Sem recolher amostras do sangue a pulsar,

Suspiro por um espírito que anseio ver.

 

Pareço que apareci translúcido irreal,

Depois de ter vivido anos nas montanhas,

Como se me impedisse cair em espiral,

Como um poema escrito vindo das entranhas.

 

Chovera intensamente há coisa de um momento,

Choveu dentro de mim, há coisa de um passado

Senti na enxurrada um estremecimento,

Como por uma flor sentisse ser amado.

 

Por isso escreverei esta paz que não tenho

Poeta em permanente guerra desconhecido,

No balanço do mar num tosco, frágil lenho

Seguindo sempre em frente e me encontrar perdido.

Confidências

Já me levara a infância a barca desta vida,

Custa-me assumir ser animal adulto,

O chapinhar nas poças era uma descida

Alegre até à vida... sou sombra, hoje, sou vulto.

 

Será melancolia que o Outono traz

Atrás do sentimento imune ao mundo inteiro?

Há quem longe de mim me inspira a doce paz

Como o sossego fixo dum verde salgueiro.

 

E as coisas fascinantes, deixam-me saudade

Nos campos de neblina onde me cultivo

É sempre num poema que voo em liberdade

como o rochedo firme ao mar grita: “resisto!”

 

Os que mais ver queria vejo-os poucas vezes,

Vezes a mais eu vejo os que recuso ver

Correm chitas velozes anos, horas, meses,

E penso muito nisto e dói-me sem doer.

 

Confesso, às vezes sou lobo solitário

À caça da metáfora longe da alcateia,

Na cega teimosia do fulvo dromedário

Escapando nos dedos da gente como areia.

 

Procuro no silêncio a música tranquila

Como a melodia na voz dum rio corrente

Como desejo vê-la, abraçá-la, ouvi-la,

A que no céu escuro vejo nitidamente.

 

Escuto no silêncio de ouro igual ao sol,

No Inverno estatelado nas paredes brancas,

Sinto-me um relógio derretido, avariado

E tu, ó vida versos do peito me arrancas.

 

Cravam-se-me espinhos dolorosos, fundos

Da impossibilidade de voar outro céu,

Onde uma Lua linda ergue-se em segundos

Me banha de luar num céu igual ao meu.

 

Uma estátua de mármore muda, irreal,

Parece-me lembrar que pouco tempo falta,

Para encher-se de vida, de sangue mortal,

Como um purpúreo rio, corre na minha alma.

 

Como um guru saído da gruta sombria

Onde montanhas guardam vozes ancestrais

E tigres furiosos, rugem-me nos dias

Os seus gordos queixumes e fomes mortais.

 

Arbusto florescente à frente do meu lar,

Em confidência maga, cedes-me atenção,

E nem sequer de noite o vento veio ralhar

Sinto uma presença que me agarra a mão.

 

Sou aquela poça de água quando chove

Reflecte a Lua nela, e calmamente ondula

Não sei que amor me dá e ânsia e dor remove

Como quando uma boca a minha boca oscula.

O Rosto

Eu vi erguer-se um rosto claro, comovente

Que fora iluminado pelo dom das estrelas,

Vejo erguer-se a Lua no céu da minha mente

Um lírio branco, puro entre as flores mais belas.

 

Lunar rosto gentil que com tuas mãos me tocas,

E que me vês ao longe mais de quem está perto,

No espaço virtual onde se fazem trocas

De íntimos palavras cheias de deserto.

 

Como se flutuasse num tapete mágico,

Capaz me sinto agora de voar num sonho

Vencer o fogo ardente deste mundo trágico

Que bem podia ser um lugar mais risonho.

 

Tu que abriste a porta do meu coração

Talvez por ter seguido os passos da Beleza

És dela mensageira e não és ilusão,

Alma primaveril, dás cor à Natureza.

 

Tuas palavras são borrifos de água pura,

Refresco nesses dias quentes de Verão,

És como a sombra fresca, cheia de ternura

Que ocupou o lugar vazio à solidão.

Soneto de Outono

Por mais que pena sinta a minha pena

De amar mais do que um gosto bem provado,

Não posso andar no mundo fragmentado

Apenas sonho ser de alma serena,

 

Como agarrar-me aos cornos de uma rena

Que não se vê no meu país não posso,

Guardar um grito agudo no pescoço

Mesmo que a minha alma seja pequena.

 

Chegara em boa hora o incerto outono

Para lembrar-me a falta de importância

De toda esta vaidade humana inútil,

 

Todo o pensar me enjoa, dá-me sono

Um querer novo rasga-me esta errância

Saltar de pedra em pedra e fazer-me útil

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