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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Quando dormes...

Dormias, meio nua, meio Lua no lençol,

Teu corpo, um lugar santo, docemente repousava,

Meus olhos peregrinos percorriam como o sol

Os verdes montes, quando a noite versos me inspirava.

 

Teu rosto, que desgosto, era ver-te, enfim dormir,

Como estar à entrada do paraíso e não entrar,

Parecia que queria transformar-me em água e ir

como se águas das cascatas desejassem flutuar.

 

Como um rio desejasse por uma vez somente,

Ser gente, num instante e arrepiar seu caminho,

Estremeci, por estar sozinho, nesta noite, novamente

Por não ter o aconchego caloroso do teu ninho.

 

Sem que saibas, sou morcego, passeando pelo ar,

A poesia, é uma gota de sangue do meu dedo,

Quase um crime por querer-te, não te posso acordar

Meu desejo é um país, meu exílio, meu degredo

O Diário

Sou alérgico ao uniforme fato e gravata,

Minha couraça é escrita só com tinta

Meus versos, telas brancas com que pinta

A minha mão que o tédio ingente mata.

 

Sou querido por uns, por outros não,

Pobre de mim que não tenho inimigos,

Às vezes tenho os livros como abrigos,

Que me consolam alma e coração.

 

São legiões de sensações que tenho,

Mil flashes de máquinas fotográficas,

surgindo imagens do passado estáticas,

Como no lar entrando um ente estranho.

 

Se sou feliz? Vou sendo, não me queixo,

Amo esta vida como a minha amada

Como agarrar-me ao corrimão da escada,

Deixando-me entregar ao meu desleixo.

 

A minha alegria anda de elevador,

De teleféricos e escadas rolantes

De avião sobrevoando ilhas brilhantes

Tingidas de esmeraldas e de esplendor

 

Há dias em que me olho e me conheço,

Já fui capaz de gostar mais de mim,

Não sou anjo ou demónio, querubim,

Há dias, como os demais me desconheço.

 

Puxado pelas mãos da caprichosa

Vida, ou por ter sede, ou por ter fome,

Histérica gritando por meu nome:

Diz: “Não há tempo pra contemplar a rosa!”

 

Como se rebentasse no ar mil bolas

De sabão que meu filho tanto adora,

De noite minha alma às escondidas chora

Soando, a um canto, ao arrulhar das rolas.

 

Invejo o aconchego de um felino

Deitado nos lugares mais recônditos,

Realmente, há animais que são benditos,

Olham-nos como senhores do destino.

 

Repetem-se estes dias sempre iguais,

Dou os bons dias sempre à recepcionista

Com sotaque nortenho lendo a revista

Falando das guerras matrimoniais,

 

Não há nos rostos rimas. São inúmeros

Reconhecendo alguns que me marcaram

Os olhos são navios, botes que atracaram

Ao porto da alma que estremece em números.

 

O mundo às vezes é um comboio fantasma

Que andando nele a pele se arrepia

Revela-se monstruoso à luz do dia,

Que o mundo inteiro atroz, frágil, se pasma.

 

Maravilho-me com a sua imponência,

Este orbe azul tem passado e futuro,

Ilumina-se e elimina-se no escuro

Tento envolver-me na sua envolvência.

 

Meu espírito entra na casa dos espelhos

Vejo-me elástico quebrando-me em vários

Reagindo com impulsos tão contrários

Chego a ficar com os olhos vermelhos.

 

Ver-me-ia a envolver-me em branca espuma,

Envolto nas ondas do mar revolto,

Contenho um grito mais um que não solto

Encrava-se no peito e lá se arruma.

 

Não viajo! Sou daqueles que viaja,

Usando o maior dom que ao homem deram,

Que noutro paraíso me acolheram

Não quero que meu corpo em vão reaja.

 

É neste poema inscrito no universo,

Que empregarei todas as minhas forças

E o céu perguntará: “por que te esforças

Tanto a polir o espelho do teu verso?”

 

“Preciso, ó céu azul, sábio, infinito

Tecto da terra, pois é meu sustento

Transpor do fundo todo o pensamento,

Que me sufoca como um alto grito.”

 

“Eu quero continuá-lo no amanhã,

Como se recebesse a tua bênção,

Pois que a vida é a corda do arco em tensão

Desejo voltar a ver-te amanhã”.

 

Vou agora arrastar-me para a gruta

Gelada, húmida, onde tantos deveres,

Me aguardam, e semeiam em mim prazeres,

E crescem, como numa árvore a fruta.

 

Já ao longe o sol desmaia no horizonte,

Seu carro estacionando e no parquímetro,

Põe moeda para a noite, um só centímetro

De claridade inunda o verde monte.

 

(Vai pernoitar num quarto azul do hotel,

Que Tétis construíra no alto mar,

Penetra no átrio exausto, devagar

Vai deitar-se na cama de dossel.)

 

Sentindo um doce e terno enlouquecer,

Avanço lentamente, dando um passo,

Que o dia obriga a dar a mais no espaço,

No incrível milagre que é viver.

 

Ao longe, silencioso, o rio corre,

Por onde felizmente o mar não entra

Confiante, a mente viaja e se concentra,

No mar onde esse rio desmaia e morre.

 

Cardíaca, a cidade movimenta-se

como amantes lascivos, ansiosos,

Todos alarmes soam rigorosos,

Tudo se cumpre, e o silêncio ausenta-se.

 

É quando mais me sinto um ser moldável,

Do barro que este mundo vai moldando,

Sinto que um sonho novo vão tirando

As horas, nesta vida impalpável.

 

Perco-me, errante, em louco pensamento,

Na minha boca encontra-se um deserto,

O céu em cima treme de encoberto

Por uma manto de cinza e esquecimento.

 

Chegando a noite, a mente é um labirinto

Confuso, com a sombra do cansaço

Mas tudo fica claro com o abraço

Vindo dos que amo, e todo o mal é extinto.

Impalpável

É uma impotência enorme como aquela

Ao olharmos, nada vemos, mas queremos,

Ver quando olhamos a mulher mais bela

A flor que nunca em vida colheremos,

E num langor cortante envolvemos

Os braços noutros braços, vago sonho,

Num mundo íntimo, oculto que nós temos

Onde nos espera um Éden risonho,

 

Que sonho mais que a magra poesia,

Que poema encontro além do que procuro,

Ao longe avisto o prado que queria,

Deitar-me e contemplar o céu mais puro?

Que sombra me persegue impaciente

Que lógica me turva o pensamento,

Que ingratidão me torna inconsciente

E vem anestesiar-me um sentimento.

 

Mãos de veludo, dedos de cetim,

Tocando as rendas íntimas, secretas,

Corpetes, cheios de cheiros de jasmim

Onde meninos nos atiram setas

Afiadas de amor cândido impossível

e nos obriga sempre a homens sermos

Paraíso interditado, inacessível

Que cegueira esta sermos sem sabermos.

 

Sem levantar o véu da suspeição,

Sem levantar do chão espessa poeira,

Sem querer açoitar meu coração,

Olho! Não está ninguém à minha beira,

Perto de mim, o livro permanece,

Fechado e mudo, e mudo, ando com ele

Porém, o tédio esvai-se em sangue e esquece

O suor salgado que escorre na pele.

Soneto sem ambição

As minhas ambições não têm valor

São notas falsas que há muito passaram,

Por ser quem sou já tantos condenaram,

A minha estranha via com fervor.

 

Esta pressão inútil veio roubar-me,

A pouca liberdade que eu já tinha,

Não tenho aquele dedo que adivinha

Que se ambição tivesse era soltar-me

 

Ó arte comprimida no meu peito

Diz a esta gente quanto é vão orgulho

Dizer que o mundo inteiro ambiciona

 

Não sou nem quero ser um ser perfeito,

Igual ao que se esconde no entulho

Alérgico ao amor, que nada questiona.

Cai a Noite em Mim

Sou como aquele ansioso peregrino

Que nunca viu o mar e ao mar chegou

Contemplo-o, vejo a linha do destino,

Que o mar, com alva espuma  me apagou.

 

É como a areia quando está molhada,

O sol sedento suga água do céu,

Seca igualmente e assim, a ser sugada

Sinto a alma que ainda não morreu.

 

Estendo as mãos, retenho o sol que bate

No abafado dia sem dar tréguas,

Minha tristeza arranco co’ alicate,

Traço a linha do destino sem réguas.

 

Tentando erguer cidades com meus versos,

Como Alexandre a antiga Alexandria

Sem sangue derramado, tão dispersos,

Fundei o meu império de Poesia.

 

No meio da escuridão quando as estrelas,

Se fixam no alto céu escuro no Verão,

Noto que brilham mais e são mais belos,

Se as vejo com os olhos do coração.

 

Sopra uma brisa no ar quente, abafado,

Dormem milhões de almas no meu país,

Tento abafar o meu grito calado,

Sobe-me um arrepio por estar feliz.

 

Momento raro quando livre o digo,

Quem nunca sentiu medo por sentir-se,

Feliz, no lar, conforto, bom abrigo,

Trocista o infortúnio vem a rir-se.

 

Soltam suspiros mudos as palmeiras

Vão acenando às flores que lhes sobram

Estarem por perto as sábias oliveiras,

Que juntas crescem mas rendas não cobram.

 

Lá vem à mesma hora o pobre homem,

Coxeia, há anos, falta-lhe o vigor

Da verde juventude, anos consomem

O ânimo de viver com furor.

 

Não sei qual o seu nome. O meu, ignora,

Olhamo-nos apenas num momento,

Viúvo, o rosto pela mulher chora

Eu porque hoje só choro em pensamento.

 

Costumo ouvir o canto das cigarras,

Encontram-se espalhadas na verdura,

Soltam ao canto as inúteis amarras,

Canção igual do estio na noite escura.

 

E um fingimento ameno de poeta,

Embalado na sombra do que sente

Não há mais nada, a noite me decreta

Deitar-me no vazio inconsequente.

 

Fecho a janela, fecha-se o universo

Tranco todas as portas da minha alma,

Deixo-me entregue ao sono deste verso

Enrubescendo as faces nesta calma.

 

Uns prendem-se em romances virtuais,

Desgastam-se em mensagens sucessivas

Prometem serem fiéis a mil e tais

Amantes, em teias de almas cativas.

 

Caprichos de ouro e sangue, carne e osso

Dão cor à liberdade à fantasia,

Como se me apertassem o pescoço

sinto o rumor do caos e da harmonia,

 

Como um gigante erguendo cem tentáculos,

Monstro marinho amaldiçoando a terra,

O céu enche-se de cinzentos obstáculos,

Que nascem por detrás da íngreme serra

 

como se houvesse um monstro erguido à frente,

No espaço indivisível nos sondando

Tento a vontade por repasto, a mente,

Como falsa pessoa no tentando.

 

A vida é mais que ver por dentro, há fora,

Vida nos envolvendo com mil braços,

Lançado ao lixo o tempo não demora,

Nem nunca ouvi dizer que abranda os passos.

Na errância é que me encontro

Bem sei que sou confuso, louco, doente, instável

Longe de tocar um dedo na lucidez,

Bem sei que sou humano monstro abominável,

Teus olhos negros lembram-me a pequenez.

 

Se segues uma estrela que não é a minha,

Coragem, como eu tenho de tê-la também

Seguir este percurso breve que adivinha

Haver sinais do mal, haver sinais do bem.

 

Esta indelicadeza de responder não,

Profundo como um peixe saltando da minha alma,

Nasce pois me recuso viver na ilusão,

Doença do espírito, temor da hercúlea calma.

 

Toda a religião é conversão inútil,

Mesmo que a natureza seja de bandido,

Deixa-me ser descrente, mole, doente, fútil,

Ser como errante o vento que anda no ar perdido.

 

Dias Contados

Silêncio, há pouco; existe nos confins do mundo

Um templo de silêncio erguido em minha mente,

Um dia viverei a vida num segundo

Debaixo deste pano azul, naturalmente,

 

Levei à algibeira indiferente a mão

Tudo o que tinha dei ao pobre que passava

Fiquei com tudo ainda, o sonho, a ilusão,

Deus não estava presente, o sol testemunhava.

 

Silêncio pouco existe, a Morte existe mais

Na vida, o silêncio estende-se no horizonte,

Vós, astros brilhantes, tudo testemunhais,

Levai-me pelo rio de ouro até à fonte.

 

Enquanto escrevo, cresce erva à minha volta

Daninha igual àquela que um túmulo cobre

Meus pensamentos são a minha fiel escolta,

Igual ao guarda-costas que protege um nobre.

 

A lógica das coisas simples me fascinam,

Dão-me vontade ter essa simplicidade,

Porém, o mundo tem estradas que se inclinam

Que nos levam ao voraz abismo da vaidade.

 

Não é lá grande coisa hoje ser-se poeta,

Talvez num amanhã longínquo, bem distante

Sentir toda a verdade crua é a meta

Que máxima é viver no mundo sempre errante.

 

Mais tarde somaremos dias que não foram

Dias sem exemplo, alarmes na memória,

De vez em quando sinto estrelas que em mim choram,

Dos dias que vivi e contam minha história.

 

Parece que não chega e quero sempre mais,

Minha ambição não vai além do meu sentir

Como as coisas me serem notas musicais

Razão do meu gostar, meu sagrado elixir.

 

Ondulam molemente os ramos do salgueiros,

A sensação estranha ser ramo flexível

Sentir o resinoso cheiro dos pinheiros

Desperta sensações do meu passado. Incrível!

 

À medida que o tempo avança é doloroso,

Lembrar-me disto e mais que vou lembrando,

O tempo é como o Inverno frio e rigoroso,

No Tempo, vou indo, os versos vão ficando…

Puro Querer

Abraça-me esta noite, ó mansa Lua,

O mundo dorme, e sem que dor me seja,

Parece que este mundo me deseja

Que viva assim: “ E a vida continua…”

 

As ruas vão dar sempre à mesma rua,

O céu azul não pode ser vermelho,

Já tigre me senti, hoje, um coelho,

Abraça-me esta noite, ó mansa Lua.

 

Lá fora, a noite geme como um cão

Faminto por bondade e gentil mão

Que alguma alma lhe venha abrir a porta;

 

Enfim, virá o dia, o amanhecer,

Abra-se a porta do meu puro querer,

Que é mais que ter em vida uma alma morta.

Férias

Onde estiveste, diz-me, o que tens feito,

Há muito não te vejo? Andei por aí,

Fui ver o mar, o mar que nunca vi,

Medonho, imenso, que mete respeito,

Mudei talvez o meu conceito,

Permanecer à sombra de um rochedo,

Imponente, escoando espuma e medo,

Que ao mundo inteiro aprovo e até receito.

 

Fui ver ilhas perdidas no oceano,

No oceano azul, mar do meu pensamento,

Lancei ao mar profundo esquecimento,

De fugas, dúvidas por mais um ano,

Não sei o que fugir de mim. Não sei,

Ignoro, sei que só nasci um dia,

Embalaram-me as mãos das poesia,

Por minha Mãe extremosa, e amei, e amei.

 

Fui ver também o sol bater nas ondas,

Tentei, em vão, cristais seus vindimar,

Esforcei-me para parar de pensar,

em ter sonhos perfeitos de Giocondas,

A mansidão do mar, quanto me encanta,

Saber a sol tem gosto a qualquer coisa

A memória marítima gloriosa,

Que os feitos hoje ainda o mundo espanta.

 

Escrevi na fina areia poemas vários,

Sem grande rimas como o mar. Sem rima,

Deixei o meu sentir a quem vindima,

Beijos à costa, sem grandes salários,

Riqueza única, exibe o marinheiro

De adivinhar do mar temperamento,

Fui onde a ilha é sombra e esquecimento

Fingi que era da ilha seu escudeiro.

 

Fui visitar o médico também,

Que tem manias tolas de terapeuta,

Não existe cura para alma de poeta,

Só mesmo o Amor da minha santa Mãe,

Os livros, viagens íntimas que faço,

Os poemas, céus azuis que em vão conquisto,

Sobra-me ser eu próprio que é só isto,

Sou círculo imperfeito, sem compasso

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