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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Nas Asas do Destino

Num dia em que me vi na teia de um poema,

No mesmo dia até que este poema escrevi

No dia em que passei a ser o próprio tema,

Senti, subitamente, o que senti sem ti

como o toque da água, igual a pele de cobra,

Como a vida ser doce e durar-me um segundo,

Teci-a infantilmente e assim, li minha obra

A luz que deixarei quando deixar o mundo,

 

Pensei que fosse o sol que de longe ilumina,

E desse vida à Morte e fosse luz na treva,

Que louco! É simplesmente a vida que me ensina

A ir na asa do tempo… e o tempo, assim me leva,

E como se sentisse leve a ser levado,

Pela asa da memória de ouro que ainda tenho,

Senti-me intimamente a ser por ti mimado,

Ó tempo, que me olhas como se fosse um estranho.

 

O instante de ontem, soa-me a sonho passado

À canção aprendida quando ainda se é novo,

Sinto-me agora a ser por um sonho levado,

Igual a uma vontade, a um querer de um povo,

Cheira a relva cortada, odor verde da infância,

Cheira a pinheiro manso, a uma repetição,

cheira-me a livro antigo que teve importância

No dia em que escolhi ouvir meu coração

Obrigado, Saramago!

Agora parte em paz, espírito inquieto,

Fique teu génio nas almas gravado,

Na boca dum país mal orientado,

Sem destino, com rumo sempre incerto.

 

Agora que te encontras co’a Verdade,

Brinda ao Eterno, bebe num só trago

Ergueste um monumento, Saramago

Guerreiro, sedutor da Liberdade.

 

Não deves nada a Deus, Que deus te deve

A intensa luz que emana da obra imensa

Da tua longa vida sempre inquieta

 

Venceu-te a Morte, fria como a neve,

Mas na Vida arde rubra a chama intensa

De homem livre, com alma de poeta.

Em Alerta

Meus nervos oscilam entre o Céu e a Terra,

São aves confusas, não sabem para onde ir,

São exércitos temíveis, em constante guerra,

Fartos da paz do lar, ansiosos por partir,

 

São águas que se agitam por coisas menores.

Nos nervos, há um estranho efeito borboleta,

E com o passar do tempo os ventos são piores

São tiros de canhão, são versos de poeta,

 

De poeta, que não escreve, só por escrever,

Que sofre a maldição do mágico sentir,

De gula: quer ver tudo, ouvir, tudo saber,

Para que possa, enfim, um dia em paz partir.

 

Vivo na inconstância da curta primavera,

Que dura um breve instante e, bela, logo passa

Como uma vela acesa derretendo cera

Como uma tela em branco que um pintor abraça.

 

Nunca me cansarei nos tempos que virão,

Nem que seja julgado num breve futuro,

Nem searas de poemas me consolarão

Ou ser o sal da terra branco em estado puro.

 

Sinto saudades daqueles que me procuram,

Nos abismos que nos dão ao rosto um olhar vago

Humana, que invisíveis couraças perfuram

Apenas num olhar perturbador de mago.

 

Tropeço num degrau, caindo devagar

No impalpável chão gelado do meus dias

Como se me sentisse no Verão congelar,

Aqueço o coração nas longas sinfonias,

 

Nas coisas que, subtis, nos dão felicidade,

Há um raio de sol que me derrete o gelo

Que nos fazem esquecer um pouco essa verdade,

Como ser curto o tempo, e o dia ser tão belo.

 

Não quero ser o lobo que anda solitário,

E diz ter um saber maior que uma alcateia,

Ou ser um peixe raro posto num aquário

Ou abelha perdida, longe da colmeia,

 

Há quem se julgue eleito por um deus maior,

Há quem, louco, se julgue ser o escolhido,

Há quem deseje ser o próprio Deus, pior!,

E eu que julgo às vezes viver cá perdido

 

Dure-me um momento, doce contemplação,

Bebendo a luz do astro que nos trouxe a vida,

Repito-me, bem sei, mas forte é a ilusão

Não ser festivo o dia, alegre despedida,

 

Celebre-se, então, que o fim da tarde é o lacre

Num rosto de crepúsculo suave, intimidado

Se o chumbo celestial não venha de fiacre

Ventos ordenados por um vento irritado.

 

Viver sem consultar relógios milimétricos,

Que giram lentamente os ponteiros velozes,

Viver sem contemplar horizontes geométricos

Sem palavras correctas, sem fingidas poses.

Pontuação

Eu já não sei escrever. Ponto final.

Saber quem sou é uma interrogação,

espanta-me o mundo, solto exclamação,

sou ponto e vírgula entre o Bem e o Mal,

 

sou tanta, tanta coisa, amor dois pontos:

sou rouxinol que canta noite e dia,

sou vírgula a mais no olvido da poesia,

sou um conto infantil entre mil contos;

 

Filme que ninguém viu, que ninguém vê;

Sou peça de teatro sem actores,

Que não sabem de cor as suas deixas

 

Sou espírito que sabe a não-sei-quê

sou greve imposta sem trabalhadores

Sou flor que se abre quando tu te fechas.

 

As Contradições do Amor

O teu amor não foi entregue em vão

Nunca é em vão o nosso amor entregue,

Por mais que o teu coração te negue,

Pergunta-lhe se era amor ou paixão,

Também sobre a razão e a loucura,

Se é uma loucura a vida, então o amor,

Mascara-se de mal que nos dá dor,

Sem converter-nos a dor em ternura.

 

Longe de ti a culpa pertencer-te,

Se a culpa é um laço atado às mãos dos dois

Quebra-se a aliança, quebra-se depois

Desejo de viver a envolver-te,

Pois que esse amor fogoso, então se é fogo,

Devora-nos a íntima floresta,

Desfeita em cinzas, o que de ti resta,

Será que é fogo o amor que arde? Interrogo.

 

Frágeis, somos frágeis, assim vejo,

Quando tentamos ver do amor desígnios,

Se dele tenho ouvido mil declínios,

Parece-me mais fruto do desejo,

Pois quem ama não tenta defini-lo,

Quem ama, sofre e sabe o que é sofrer,

É muito mais do que esse bem querer,

Que a gente sofre para consegui-lo.

 

Mas parece-me justo e legítimo

Primeiro conhecer-se a pessoa errada,

Até que venha aquela bem amada,

que nos toca ao de leve o nosso íntimo,

Que absorve o amor como se fosse água,

E nos devolve em água ainda mais pura,

Que nos conforta, que nos dá ternura

Drenando da nossa alma angústia e mágoa.

 

Se já não crês que amada venhas ser,

Serás, pois te roubaram a esperança

Crê que virá alguém de confiança,

Dar-te o que te negaram, sem querer,

Cega-nos esse amor confuso e falso

Com falsas vibrações de uma paixão,

Estrela que nos guia à ilusão,

Levando-nos mais tarde ao cadafalso,

 

Pois que no amor o bem mal nos parece,

E o mal parece bem sem que bem seja,

Não podemos amar quem não deseja,

O mesmo bem que nosso amor oferece,

Perdoa aquele que não soube amar-te,

Mesmo que viva no arrependimento

Que no presente vem dar-te tormento,

O que não soube no passado dar-te.

 

Teu coração estará em alerta máxima,

Ao sopro melhor que há nesta vida,

Verás que ficarás como vencida,

Por quem querer-te vai dele estar próxima,

Ter o prazer da tua companhia,

Ver-te com meigo olhar sem os ferozes,

Olhos de lobos que são atrozes

Que muitos primam mais por ousadia.

 

Aquele que te amar fará sorrir-te,

Não pode ser quem te provoca o choro,

Quem vem grotesco encher-te de indecoro,

Que nunca quis amar-te nem ouvir-te

Há dessas almas que andam tão confusas,

Vacilam muito no querer amar,

Desconhecendo o nobre acto de dar

Nascidos num berço cheio de recusas.

 

Podia sobre o amor em vão perder-me

Pois sinto o amor em mim sentir é tudo,

Mais que explicá-lo, ou ser alvo de estudo

É sentir lentamente converter-me,

Amor é ver crescer flores à volta,

É dar por este altíssimo mistério,

Sentir que já foi reino, agora império

Sem que ódio sintas, culpa, dor, revolta

 

Amor não é um fogo que devora,

A nossa alma que é uma verde floresta,

Não pode ser fedor que tudo empeste

Tem que ser um bem que nos revigora,

Que nos reanima e nos devolve o gosto

Alegre de voltarmos a viver,

tem que ser bem benigno, tem que ser,

Nunca um maligno mal que dá desgosto.

 

Amor é um sopro vivo que se sente,

Na alma, um florescer, verde florir

Um rebentar em cor, um explodir,

De vida envolta, bela e sorridente

Que derruba altos muros, ergue pontes

Erguida pelo saudável diálogo,

Não pode em duas almas ser um monólogo

Como o vento falando aos verdes montes.

 

Lembrando que nos fere o agudo espinho,

Nas horas mais difíceis de inconstância,

Provando amor se é puro na constância,

No conforto do lar que é nosso ninho,

Que às vezes soa a uma contradição

Que não se entende, nem se acha sentido,

Anda-se cá na terra tão perdido,

Por ser complexo o humano coração.

 

Mas tudo vence, reina triunfante

Sobre os contraditórios sentimentos,

Que nos baralha tanto os pensamentos

Mas nos devolve à luz clara e brilhante,

Não vale a pena procurá-lo se ele,

Esconde-se ao sentir-se perseguido,

É um sentimento que vive perdido

O único com brandura ódio repele.

Ofício

Tudo é excessivamente real pra mim,

Ter a noção que nada é fantasia,

E o refugiar-me mais na poesia

Mostra-me mais de perto o amargo fim.

 

Quem diz daquele céu azul riscado,

De branco, pelos pássaros velozes,

Dos crepúsculos vivos e ferozes,

De fogo vivo e púrpura pintado?

 

Já secara a flor de laranjeira,

Do prado, o verde vivo alourara,

O efémero, meu peito apertara,

Como ver breve a vida, passageira,

 

E a flor nascida para seduzir

Desabrochada, enfim, feita mulher,

Agora, desfolhada, quem a quer?

Quero eu, que amo a coragem de existir.

 

Dengosa flor que adoro e te contemplo,

Nasce-me um bem, de ti só por olhar-te,

Em ti, ainda consigo encontrar arte,

Como um grego ou romano antigo templo,

 

Pudesse haver um mundo paralelo,

Com outro tempo a mais onde pudesse,

Escrever tudo o que sinto, e que me desse,

Um mundo bem melhor, saudável, belo,

 

Qualquer poema escrito tem início

E um fim. Hei-de escrevê-lo eternamente

Pois que este ponto o tempo me consente

Ser verme nesta flor do meu ofício

"Ele está no meio de nós"

Oiço o gemido daquele

Que veio pedir-me um cigarro,

Fiquei com o rosto dele,

Na minha mente gravado,

Oiço-o, ainda a pedir-me

Quase num mudo queixume,

E antes dele despedir-me,

Perguntou, triste: tens lume?

 

Dói vê-lo andar nos caixotes

Tentando achar alimento,

Senhoras com seus decotes,

Passam no mesmo momento

Evitam aqueles olhos,

Que às vezes julgo ser deus,

Que assim vivem nos escolhos

Mendigo entre camafeus.

 

«Senhora, altiva, elegante,

Não tem moeda pra dar?»

«Não tenho, só este diamante

No anel. Sabe? Vou casar!»

«Verdade! É para comer.»

Insiste o pobre mendigo

«Tenho o céu pra me acolher,

Serve-me a terra de abrigo.»

 

Enfim, prossegue indiferente,

A noiva feliz pela rua,

Na rua de luxo imponente

Onde a miséria anda nua

Dorme-se em escadas imundas

No chão jaz o cobertor

Enquanto almas moribundas

Fumam e falam de amor.

 

Sopra-me um vento, a verdade,

Como se fosse a folhagem,

Daquela árvore, vontade,

De pertencer à paisagem,

Que vista do alto é tão bela,

Se fico longe do chão,

O mundo é uma linda tela,

Vista do ar… mas daqui, não!

A conta que Deus fez

I

 

Minha embainhada espada posta a um canto!

Já meu desleixo foi longe demais,

À toa esgrimo agora, as musicais,

Melodias expelidas. Mas no entanto,

 

Sinto-te invisível, consolação,

Que teu materno abraço sinto agora,

Em mim, há uma criança órfã que chora,

Que cinjo no meu peito, ó coração.

 

Como um mágico antúrio empertigado,

Viril, vaidoso, ousado, altivo, erótico,

Que não deseja mais que ser amado

 

Ainda me sinto fruto, um fruto exótico,

Meio verde, meio maduro ser trincado

Por este mundo estranho, vil, robótico.

 

 

II

 

Entre esta melodia melancólica,

Floresce-me um desejo de dizer,

O que sinto e não sinto do viver

Quando o meu mundo abala e a alma é bucólica

 

Impérios por fundar, templos erguer

Como não haver parques pra crianças,

No meio da cidade sem esperanças,

Longe de mim ter mais que meu querer.

 

Não sei ser outro, amiga, o ar infantil

é uma esperança inútil que me salva

De andar morto na terra ainda em vida

 

Sou quem pretende o céu azul anil

Escrever-lhe um poema com a cor de malva

Até que sinta ser folha vencida.

 

 

III

 

… e não esquecer-me nunca o amor que sinto

Pois que esta mão gentil me mima e ampara,

Ó tédio, hei-de sorrir por ver-te extinto

Montanha inacessível que escalara,

 

Onde atingira o cume alto indistinto

Por nuvens que num dia as desmanchara

Num poema, palco flutuante, onde minto

E minha alma no alto Olimpo é cara.

 

Meu passado... que sonho tão distante,

Costa a afastar-se, no navio presente

Aceno! Ignoro o meu futuro incerto

 

Qualquer momento é feito de diamante,

Meu El-Dorado de ouro reluzente

Que foi por mim um dia descoberto

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