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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Confissões

Estendido o azul lençol lavado, no céu que abraço e beijo,

Chega-me, inexplicavelmente, notícias do Oriente

Em mim, palavras convulsas, distantes, palavras ao vento,

Que deixarei que o tempo rasgue e as deite fora.

Ergue-te, espírito adormecido nas cinzas fumegantes

Renasce, Fénix que há em mim,

monta o resfolegante e alado Pégaso,

Pois sinto que sou capaz de vestir os troncos nus

Dos plátanos, ulmeiros, choupos, e as belíssimas

Amendoeiras que, sem flor são mulheres desamparadas

Lançando preces vãs ao mesmo céu que abraço e beijo.

 

Palavras, que quereis de mim? Quem sou para dar

Calma às vossas ânsias, ócio, movimento?

Eu que desejava apenas amar deusas antigas,

Europas, de carne e osso, Ios desafortunadas

Para, sôfrego, bebê-las e entorná-las num papel

que ninguém saberá da existência destes papéis

(Sofram igual destino ao da biblioteca de Alexandria

Livrando-os do fogo devorador do olvido)

Mágoa deitá-los fora; servem para entreter o vento

Eu que ultimamente, lanço imprecações ao vento e apupos ao céu,

E nem por isso me ouvem, condenam, amaldiçoam,

Nem por isso me salvam, ou dão à luz aparições

Nem por isso me inspiram a procissão das nuvens

Nem por isso, nem por nada, nem por outro

Sentimento que venha bater-me à porta,

Como arauto perdido e céptico de qualquer religião

Que vem, em vão, tentar me converter.

 

Apague-se a chama dos outros poetas dentro de mim,

Apaguem todas as luzes dos candeeiros do inevitável,

Apague-se todos os fogos do amor ridículo e ocioso,

Que é realmente um fogo que arde, e até destrói

Florestas que a alma plantou em dias de bonança,

Em dias de folga, que a vida dá em sóis de domingo,

Calem-se as bocas que ordenam, comandam, orientam,

Calem-se as bocas imundas cheias de escárnio e maldizer,

Calem-se as bocas enfadonhas, secas de pó e areia

E as bocas caladas que não servem para nada,

Que adivinhamos terem língua, dentes e decisões

De todas as bocas, de todas as almas, de todos os seres

Que são bocas, que são almas, que são seres,

Que insistem dizer tudo, sem cor nem novidade.

 

Como gostava visitar um dia esse rio onde ninfas se banham

Enxugando, livres, ao sol, seus verdes cabelos

Pedindo às ondas calmas, sensuais do entardecer

Que sejam cantadas, enaltecidas com supérflua poesia.

E enquanto isso permanece na pasta do meu sonho,

Canto, divago, acordo, olho desperto, contorço-me

Como se renascesse num novo corpo, num novo ser,

Como se fosse feito de matéria invisível e deambulasse

Pelo ar, saltando de uivo em uivo,

Até que chegue ao porto onde um dia embarcarei no definitivo.

 

Mas antes de embarcar nesta barca oriunda do Nada

Vejo, espreito, de cesta na mão da minha alma,

Ou seja lá o que isso for, áurea, véu, jardim insubstancial,

Colhendo frutos deste pomar abundante que é a vida

Jardim público chamado Mundo, não nos ocorre cuidar dele,

Por isso a Alma do Mundo estremece mais ainda,

(disseram-me os cavalos marinhos, e as conchas,

E as plantas subaquáticas, anémonas, corais,

Toda a vida marinha posta numa tela azul,

À frente do que imagino vejo e aprendo);

Como se melhor mesmo é sentar-me e assistir a esta beleza,

À distância como se fosse mancha de óleo

Eu, homem, mulher e criança, eu, raça humana,

Eu, que neste instante preciso

Sou roda avariada que precisava ser substituída,

No ofício que me encontro, no poema revestido,

Com o que penso, com o que me ocorre, com o que sinto,

E mesmo não sentindo nada disto, direi que sinto

Para que outros que sentem realmente o que digo se identifiquem,

Tendo o alívio estranho garantido no nosso fundo.

 

Desde o sol coroar o horizonte, ao longe, distante de mim,

Com cores exuberantes, vibrando um suave incêndio,

Desde receber a bênção da primeira brisa matinal no meu rosto,

Desde sentir o primeiro odor da terra húmida e fria,

Contando as gotículas na folha verde e viçosa de árvore

Desde pôr às costas uma mochila leve

Para guardar metáforas colhidas como flores,

Desde sentir-me vivo, e ser perigoso este prazer, perto da Morte,

Num ápice, lembrando deuses inexistentes e antigos

Desde beber nas horas secas, versos líquidos, salgados

Que do outro lado do Atlântico trazem odores marítimos,

Como ondas vigorosas embatem no meu rosto,

E viesse à boca o sal da branquíssima espuma

E viesse nas ondas uma ninfa que me amasse,

E chamasse por meu nome num mundo imaginário,

Para contar-lhe vãs façanhas, para contar qualquer coisa,

Poeta solitário, coiote na vida à procura de beleza

Encaixe imperfeito num mundo nascido primeiro que eu,

Mais velho que eu, mais belo que eu, mais tudo que eu,

Mas que me põe nos olhos, o verde vibrante das planícies,

Das encostas, existentes por trás do manto apolíneo,

Corpos irisados, arcos triunfantes, auroras boreais,

Que não vejo e imagino, e imaginando, escrevo isto

Versos banais que um dia servirão para cobrir o chão,

Para alguém que decida pintar as paredes da casa.

 

Desde o primeiro suspiro dado à nascença do verso,

Desde o cheiro a tinta e papel na minha mente

Desde o primeiro diálogo com as coisas no começo do dia,

Desde lembrar-me que todos temos bilhete apenas de ida

Desde sorrir a quem ao meu lado escolheu receber meu sorriso,

Desde ouvir ecos distantes, trazidos pelo moço de recados dos deuses,

Desde ouvir a voz da primeira pessoa que avisto na fria manhã,

Desde o ruído aquoso da água correndo pela torneira da minha alma,

Desde o cântico das fontes dentro e fora das pessoas

Desde o cumprimento dado de forma mecânica e robótica,

Que o hábito criara, exibindo na mão a autorização do querer,

Desde o que vejo nos olhos alheios, vejo meus olhos

Para saber-lhes de que matéria é feita a sua natureza

Desde túneis sombrios, terra escavada,

Dentada, alterada, puxada, esmagada, batida,

Desde longas serpentes de de negro asfalto

Estígio actual, onde surgira a mão do perigo viajar

Desde saber de cor um verso imortal ou mortal,

Já me valeu a pena.

 

Tanta gente anónima à minha volta! Somos tantos!

Tanto riso, rosto, gesto, que coleccione

Colando na caderneta intocável, forrada a memória

Não me esquecendo de nada levando tudo comigo,

Tudo lhes denuncia serem gente: olhos raiados de sangue,

Mãos grossas e finas, a lisa ou áspera pele,

O cabelo cuidado, em demasia ou desleixado,

As malas, carteiras, mochilas, livros que alguns fingem ler

A amálgama confusa de cheiros e odores que se junta,

A noite, a perfume caro, a perfume barato, a suor salgado, a sexo,

Tudo amontoado como velharias guardadas num sótão

Móveis, delirantes, com bela e grotesca aparência.

 

Nunca me levem a mal por servir-me dos olhos

Pois tudo sabe a pouco e não é nada. Poderia

Contemplar, mas não há tempo, a vida empurra-me insistente,

Escrever é virar-me para trás e gritar-lhe: “Para com isso!”

É dizer que olhando vê-se, compreende-se, ama-se, procura-se

É dizer que amar desliga as luzes urgentes da loucura

Que este voo literário efémero, está longe de me satisfazer

Colinas verdejantes, cobertas por lençóis de azul etéreo

Longe, lá ao fundo, se encontram, ali, além

Para lá do alcançável, para lá do concebível.

 

Ó fôlego que me resta, sopro indecifrável,

Flâmula nascida, centelha insustentável que me toma, me invade

Como te peço que dures enquanto não for árvore,

Frondosa, de tronco firme, tão forte como um rochedo,

Como aquela árvore gigante tridimensional,

Que vi numa sala de cinema, enquanto ansiava

Sossegar a inquietante ânsia de dali sair rapidamente.

 

Também tu, Anfitrite, com tuas níveas mãos,

Escreves esparsos poemas pela costa alvíssima

De areia fina, e as aves procuram no que escreveste,

Do ar, algum sustento que lhes valha.

Sejam as horas essas aves, seja o papel vasto oceano

Sirvam de pautas musicais às músicas sucessivas feitas por mim,

Pois vivo dentro de uma orquestra sem maestro

Formando, antes do concerto, um vácuo ruidoso, ensurdecedor,

Enquanto esperam pela vinda do meu ser.

 

Ó palco, sem rosas, sem cravos, sem lírios,

Sem florida luxúria espalhada no espaço,

Aspergindo no ar neutro perfumes embriagantes,

Com a lustrosa e espessa noite que há no piano

Sem gente que me assista a este concerto desconcertante

Com andamentos nervosos, desiguais,

Iguais aos movimentos da Alma do Mundo,

Reflexo do que somos, tua sinfonia Fantástica, ó Berlioz

Sofrimento poético, a caminho do cadafalso,

Não havendo tempo para amar plenamente as coisas,

Fruto da escolha feita, insciente desta escolha,

Semente plantada em solo estéril, sem chuva e sol

Árvore nascida com os ramos levantados para a Lua,

Estrela cadente, reflexo na água do rosto,

Exausto de cansaço, deste ofício gasto

Descaindo ligeiramente o rosto na almofada,

Fechando lentamente os olhos vagos,

Como a fechar-se o teatro para uma próxima peça,

A mesma, recomeçando novamente um dia,

O mesmo dia exacto, o próximo e novo dia

Salvamento

Desamparado, um velho cai na rua

Pobre homem, já perdido como eu,

Cedi-lhe o ombro e a vida continua...

Saco vazio no ar sobe e flutua.

Pensei: “Foi qualquer coisa que lhe deu.”

 

“Matar-me quero, deixe, vou-me embora,

Para onde nunca mais hei-de voltar”,

Disse-lhe: “olhe que existe alguém que chora

Por si. Não antecipe negra hora”

“Deixe-me! Eu quero!", disse-me a chorar.

 

Seus olhos baços eram de águas turvas,

Das mãos ignoro que obras foram feitas,

A vida é uma descida cheia de curvas

Exacto tempo, não tem contracurvas

Num gesto, assim, as obras são desfeitas.

 

Paragem do autocarro abandonada

Ainda lá estarás, mulher bonita?

Que me ajudara, linda, despertada

Também viste a minha alma lá deitada

Estendendo a mão a quem sofre, a quem grita.

 

Eu via os meus naquele rosto antigo,

Não foi bondade minha, havia um deus

Hitponizou-me os olhos tão amigo,

E deu-me absolvição do que mitigo

Uivando o vento: “Assim, serão os teus”.

 

Barco encalhado, náufrago da vida,

Que foste deslizando no alto mar

Não és a única alma a andar perdida,

A ser, pelo infortúnio, perseguida

Ontem salvei-te! Quem me irá salvar?

 

Sou balde cheio de água suja, usada

Para limpar imundos pensamentos,

Sou citadina flor atropelada

Pelo tempo gigante, alma penada

Que arquiva em verso magro sentimentos.

 

Venha a velhice, com pés de veludo,

Mas se for desta forma então não venha

que fique na caverna, guarde tudo

Perdidos paraísos, negro estudo

Mesmo que a vida soe a coisa estranha.

Noite em Branco

Renúncias são águas do rio caudaloso,

Meu peito transbordara, não aguenta mais,

São mágoas, lodo imundo, e o beijo estrepitoso,

Seria nota escrita em pautas musicais

Esvazia as mãos de inúteis afazeres,

Unindo às minhas, cheias de prazeres.

 

Unidos, não nos vale enchermos de pudor

Angélico e espumoso vale de lençóis

Aberto, invoca-nos o tépido langor,

Que alegra, em verdes campos, secos girassóis.

Soubesses quanto, tíbio, me entristeço,

Aranha, sou. Que triste teia teço!

 

Se encontro bom remédio no vale macio

Meus olhos astutos, enfiam-se na blusa

Avistam cidadelas, tórrido arrepio

Me causa, interrogando a alma tão confusa,

Porque esbanjamos tempo inutilmente

Ao que pode ser feito mais à frente.

 

No que entumece muito, amor, só por olhar-te

Vê bem, cresce-me ardor; porém, cresce-me a hera

Do olvido que me cobre a cobra astuta de arte,

De susto por cobrir-se cedo na quimera,

Murcho, frouxo, trémulo, assustado

Não te comove vê-lo exilado?

 

Basta! Irei esvair-me em verso húmido, ardência

Do clássico poeta em busca de argumento

Ou antigo filósofo sua sapiência,

Perdido no labirinto do pensamento.

Ó voo icário inglório que diviso

Ficar à entrada do teu paraíso.

 

Mas sinto a intrometida lula mergulhar

Nas águas proibidas dos teus fundos lagos

de pernas, ombros, veias, dedos a invocar

Carreiros de formigas, beijos, mil afagos,

Vivendo no subsolo do teu corpo,

À espera que não seja o tempo um sopro.

 

Rasga-me a noite, Lua, entorna-me luar

Preenche o azulado vazio, prata inútil

Tua negra plumagem possa agasalhar

Esta criança fraca, triste, afável, dúctil.

(Olha-me aquela bela criatura,

Encheu-me o peito fraco com ternura.)

Oscilações

Estou maluco, estou maluco,

Venha a Morte anunciar-me

Estar maluco, estar maluco,

Venha a Alegria alegrar-me,

Sou ansioso, sou ansioso,

Venha a calma acalmar-me,

Sou poeta, sou poeta,

Venha a Musa inspirar-me.

Estou doente, estou doente,

Venha Esculápio curar-me,

Estou perdido, estou perdido,

Venha a estrela orientar-me,

Estou tão triste, estou tão triste,

Venha o verso consolar-me,

Estou com fome, estou com fome,

Venha a Musa alimentar-me,

Estou com sede, estou com sede,

Venha o mar para afogar-me,

Estou ocioso, estou ocioso,

Venha o ofício atarefar-me.

Estou cansado, estou cansado,

Venha o ânimo animar-me,

Não estou vivo, não estou vivo,

Venha a vida despertar-me,

Tanto aperto, estreito aperto,

Nó, gravata no pescoço,

Sou inútil, tudo é inútil,

Venham atirar-me ao poço,

Amo os lírios, amo as rosas,

Venham de flores toucar-me,

Grito e canto este alto Amor,

Venha o Ódio contraria-me.

 

Estou mais calmo, estou mais calmo,

Venha a Vida anunciar-me,

Estar mais calmo, estar mais calmo,

Para a Morte encaminhar-me,

Estou tranquilo, estou tranquilo,

Veio o amor, tranquilizar-me,

Estou contente, estou contente,

Veio a música contentar-me,

Estou mais vivo, estou mais vivo,

Veio o meu filho salvar-me,

Estou focado, estou focado,

Veio a vontade focar-me,

Estou calado, estou calado,

Veio um beijo sossegar-me,

Estou melhor, muito melhor,

Veio a Musa abraçar-me

estou lembrado, estou lembrado,

de alto bem que veio cantar-me

Estar lembrado, bem lembrado,

Da saudade, recordar-me,

estou bondoso, estou bondoso,

Veio um amigo ajudar-me

Estou gentil, bem mais gentil

Veio o mendigo abraçar-me

Estou mais vivo, bem mais vivo,

Veio a amizade lembrar-me

Estar vivo, ainda estar vivo

Veio o amor encorajar-me

Estou ciente, consciente,

Que um bem vem mas nunca dura

Que um sol nasce, vence e desce

Depois sobe ao céu a Lua

O Poeta Visionário

Livre! Foram-se embora! Fiquei só.

Vazio este escritório é um cemitério

Das almas que flutuam no ar etéreo.

Cheira a bafio, a nada, a ofício, a pó.

 

Estive à espera, ansioso, que soasse

Sirene milagrosa que anuncia,

Que eis chega a hora de encontrar poesia,

Esperando que o Universo avariasse.

 

Dormita ao lado um livro à minha espera

A olhar-me, fixamente, com seus olhos

Felinos, carregando seus sobrolhos

Demónios vindos de uma real quimera.

 

À sombra do que sou, fico-me em branco,

Que hei-de escrever que valha? A glória eterna

É inútil, ilusão. Quem a governa?

Razão, para escrever versos que arranco?

 

São ervas arrancadas p’las raízes,

Das coisas que absorvi em breve Tempo

Algumas surreais, outras me lembro

São longínquos e exóticos países.

 

Ser Acrópole de Atenas um instante,

Eleita uma das sete maravilhas,

Há uns anos, tu também, Lua que brilhas

Pois que não sentes nada de inquietante.

 

Sinto-me só humano, lá no fundo

Tão preso, sem valor, pois que outros sentem

O mesmo - sou banal - e me desmentem

Que não existe mundo além do Mundo.

 

Meu pai disse-me um dia: “meu bom filho,

Tu primas tanto pelo exagero”

E se não exagero, desespero,

Sinto-me um sol sem ser astro sem brilho.

 

Deitado à superfície do que posso,

Eu quero contemplar as coisas; dói-me

Ficar à porta disto, rói, destrói-me,

Sou líquido luar no fundo poço.

 

Tento manter um diálogo agradável,

Debate entre a Loucura e a Razão,

Reunidos no profundo coração

À mesa da minha alma maleável.

 

Tenho esticado a corda tantas vezes,

Um dia hei-de pagar caro por isto,

Ser um que quer ser mais que outro. Desisto

Sou calendário sem dias e meses.

 

Tu, Febo, exacto vens à hora igual

Pernoitas no hotel azul de Tétis

Mais tarde, hei-de lembrar-me o que me diz

A tua luz brilhante triunfal.

 

Gostava ser papel que se levanta,

Ondula e dança, arrasta-se se o vento

Irado exprime forte pensamento

Um lobo uivando à lua que se espanta.

 

Lá se vai vendo uma celebridade,

Que não sabe quem sou. Eis a vantagem,

Para ela, sou apenas vil paisagem,

Fora da sua inglória realidade.

 

Doura-me mais o sol neste momento,

Banhando de ouro fino aros dos óculos,

Como se sentisse dourados ósculos

É alquimista. Que alquímicos momentos.

 

Fala-se ultimamente muito em estética,

Ter olhos de outra cor, usando lentes,

Ter seios cheios de amor inconsequentes.

Coitada da mulher feia, esquelética!

 

E ao vermos esta gente, um novo aspecto,

Ficamos constrangidos do ridículo,

Que importa isso? O que importa é o novo círculo

A que pertencem, um luxuoso tecto.

 

No fundo, é uma vaidade íntima e idiota,

Que sofro por achar-me imprevisível

Instável, estável, tudo, belo, horrível,

Culto e educado, como quem arrota.

 

Tento manter-me fixo no presente,

Mas quando fecho os olhos vejo a infância

Éden irreversível, na ignorância

Dos dias que passavam calmamente.

 

Invejo a placidez dos calmos rios,

Que descem devagar escuros vales

Parece, olhando, que me curam males

Causa-me ao vê-los doces arrepios.

 

Ficando à espera pelas andorinhas,

Desenho no papel caricaturas,

Da alma minha cheia de fervuras

Ansiosas, como enigmas e adivinhas.

 

Viveu-se a Era do Gelo há milhões de anos,

A idade brônzea, férrea, a idade de Ouro

Que idades virão, ou que será tesouro?

Futuro, o que reservas, que outros danos?

 

Será o oceano Atlântico, o oceano Atlântico

Pacífico, o Pacífico; Índico, o Índico

E o Árctico e o Antárctico? Onde fico

Gelam-me as veias qual livro romântico.

 

Será que um dia dizer poderemos:

“queres beber café comigo em Marte?

Vinho em Saturno" ou "quero convidar-te,

A um passeio em Neptuno. Aí dormiremos."

 

Aonde irá parar a humanidade?

A que horizonte aspira este poema?

Quase alucino, excelso e inútil tema

Pairando sobre o céu da Realidade.

 

Hei-de escrever poemas que ditados

Versos serão por árvores, flores, aves

Criam mistérios, troçam põem entraves

Nunca alcançando assuntos delicados.

 

Soa-me quase a coisa anedótica,

Tentar adivinhar nosso futuro,

Bem sei que sou ingrato, vil, impuro

Sei que o que sinto é só um erro de óptica.

 

Saíram todos. Quase ouvir consigo

Da árvore, nocturno piar do mocho

A dizer-me: o verso igual é pior que um coxo

Que há muito anda à procura de um abrigo.

 

Eu durmo com as pombas no telhado

Entre elas, imagino-me no ninho

Na mansidão de ser-se passarinho,

De ninho em ninho, voando sem cuidado.

 

Porém, desperto, acordo, e vejo tudo

Que sonho tive? Andei não sei por onde

Mistérios o sono também esconde

Que serviria bem para outro estudo.

 

Eu vou-me embora. Amanhã, voltarei

Seguindo igual trajecto, embrenhando-me

Na multidão compacta, consolando-me

Com versos que escrevi, que escreverei.

 

Que ser-se escravo é triste condição,

Mesmo ignorando enredos do destino

Nele, não creio, nisto sou menino,

O futuro está sempre em revolução.

 

Não sei interpretar o resultado,

Dos dados que a Fortuna me lançara

E a vida rumo incerto revelara

Poder ver Paraíso imaginado.

Fragilidades

A bordo deste Inverno envelhecido,

Ralo cabelo branco, desgrenhado

Eu vou vivendo a vida consolado

Como se andasse nu, desimpedido.

 

Não sou mais do que penso ser. Quem sou

Que mais poderei ser, que além conheço?

Chamar-me-ei sempre António Codeço

Como a gaivota aflita que passou

 

Não sou mais que a gaivota quando passa,

Planando sobre o céu que tanto anseio

Descubro mover-me sem receio

Eu sou aranha e teia que embaraça.

 

Eu nunca farei parte desta vida,

Forçado a vivê-la mais do que vivo,

Que querem? Da Beleza, sou cativo

Essa Lua sensual, oferecida.

 

Aquela poça de água, à luz daquela

Que em prata vai exprimindo a dor que sente

Enquanto chove, dura vagamente

Tudo é efémero, logo é coisa bela.

 

A mansidão das folhas que se arrastam,

Na árvore, verde musgo indica o Norte,

Vivo à procura de algo que suporte

Minha loucura, enquanto horas se afastam.

 

Já sonho um sono eterno, honesto, honrado,

Meus versos cavalgando a toda a brida

Já vejo vaga Vénus ser despida,

Por minhas nãos de poeta atormentado.

 

Já sinto no alvo peito dor crescente,

Levar-me aonde apontei sem benefício,

O dedo indicador, sem sacrifício

À Beleza indicadora do Oriente.

 

É lá que irei buscar especiarias,

Que me temperem poemas com brandura

Que meus leitores soltem: “Que loucura!”

De amargas bocas secas sem poesias.

 

“Quantos leitores tens?” pergunta o vento,

Com mil dons de aspereza vil, sarcástico

Julgas-te assim, poeta, tão fantástico?

Respondo: “Não! Que importa? É meu tormento,

 

“Achar-me nesta via de incerteza

Tão certo, como entrar num labirinto,

Mas sinto dissipar-se a dor que sinto,

E nisto, ó vento inútil, há certeza.”

 

"É como um santo Graal nunca encontrado,

Como escolhesse ser de mim arqueólogo,

Deixa-me em paz, entregue a este monólogo,

Entre os meus vários ‘Eus’, ó vento irado."

 

Jardim é a alma. Eu hei-de embelezá-lo

Com esse estranho amor que leva à cruz

Válido, quanto o tempo nos reduz

A escombros. O jardim? Escolho tratá-lo.

 

Este ter que ser gente também cansa,

Tento tapar a boca a esta cidade,

Na sombra, na penumbra, em liberdade

E assim voando, agarro-me à esperança.

 

Como de vez em quando urgente, aflita

Ouve-se a sirene da ambulância,

Soa-me sempre a fim, fim da ignorância,

Lá dentro, vai deitado alguém que grita.

 

Ou como aquele pobre homem que tem,

Por tecto, o abobadado céu azul,

Suporta os ventos furiosos do sul

À espera que alguém venha mas… ninguém!

 

Quem pode suportar da terra, o abalo

Furtivo, álgido beijo frio da Morte?

Bondade é mão que ampara, é bom suporte.

Quem trava o Tempo, indómito cavalo?

 

Nos altos céus, erguem-se aéreas pontes

São pássaros de fogo, voo urgente,

Levando às pobres terras do Ocidente,

As puras águas da bondosa fonte.

 

Pois que os escombros dão à luz pessoas,

E a água é mais que ouro, é mais que tudo,

Meu espírito sangrava à bruta, mudo,

Fortuna, aonde estás, para onde voas?

 

O cheiro hediondo a morte impregna o ar

Grávido de terror a carne, a sangue,

Diria a Alma do Mundo jaz exangue.

Quem pode dor tamanha suportar?

 

Explode a bomba em mim em Bombaim,

que o próprio nome indiano enverga a bomba

Alastra fumo, fogo, tudo assombra

Incêndio igual aos feitos de Caim.

 

Se as bombas fossem beijos que explodissem

e abraços fossem todos atentados

eu beijaria as mãos dos contratados

Pra que estas convicções alto se ouvissem.

 

Os Reis da Guerra sofrem de impotência

Já não conseguem ter mais erecções,

Na língua, têm palavras, secreções

Que um dia há-de limpar a Providência.

 

Deviam ser poetas como eu

Alvo único do poético contágio

Tornou-se a escrita mágica apanágio

Das lamúrias que lanço ao vasto céu.

 

São nuvens passageiras, bem vos digo,

Que um dia hei-de montar-me numa delas,

Para encontrar a Ilha das Coisas Belas

Tendo o tempo sempre como inimigo.

 

Pois tudo guardo, sirva de bagagem,

Instantes de ouro fulvo, fino e puro

Brilho dos olhos líquidos no escuro,

Dos que amo e usam a mesma linguagem.

 

Que mais poderei ser, querer, sonhar?

Sigo horizontes com meus dedos finos

Assino o Livro Aberto dos Destinos,

Com versos que o vento há-de declamar

Ode à Amizade

Nada existe, Isabel, mais valioso que a amizade.

Mais que o amor, um amigo vem, um amigo vai

Sem compromisso, aparece sempre, na altura certa

E não usa relógio.

 

Um amigo lembra-se, mesmo distante, do seu amigo

Respira, livremente, ar puro, nunca o sufoca,

É como a flor silvestre: cresce longe da cidade,

Confusa do Amor.

 

Que saibas conservar-te, amiga, como és,

Mais, sempre, menos, nunca. Coragem, sê Isabel

Impedindo que os caprichos do mundo alterem

A essência da tua alma.

Três Vidas

(Ao João Pinto e Hélder Carrudo, amigos, irmãos)

 

Ó Pinto, trinta e quatro anos passados!

Pertencem a outra vida, não é? Incrível,

Depois de amigos, fomos separados

É raro ver-te, é-nos quase impossível,

Porém sirva de encontro este poema,

Que o Pinto, o treze, é o assunto, alto tema.

 

Desculpa se não escrevo noutra forma

Tornou-se o decassílabo mania

Um jogo musical que bem me informa

Ser possível ser-se músico em poesia,

Porém, não é de mim que vim falar,

Adiante, ainda estou a trabalhar.

 

Bem sei que, amigo, sofres por não teres,

Ao lado alguém que possas gargalhar

A séria, à bruta. São mil afazeres

Que nos impedem de comemorar,

Lembrando tempos de ouro que vivemos,

E coisas tresloucadas que fizemos.

 

Desde idas à igreja em grupo, em bando

Não lembra nem a Deus nem ao Diabo

O “défice” vai a sua missa dando,

E nós pensando: “Yá, vai levar no rabo,

Não lembra nem ao menino Jesus

Mas julgo que se ria lá da cruz.

 

Foi num dia antes das férias da Páscoa,

Se a memória não falha. Sim, foi isso,

No décimo ano, gin, época boa,

Lembro, com vodka assámos um chouriço

Banquete, ping pong, fez-se directa

Ganhaste sempre (a merda da raqueta!)

 

O mesmo ano em que formámos os Bois.

Que banda ilustre! E demos um concerto

Antes de Palma de Maiorca, os dois

Que de anulá-lo ‘inda ficámos perto,

Sentias coisa feia que atrofia,

Não sei: ou era amor, ou foi mau dia.

 

Daquele Quarto Cinco mil histórias,

Por nós, continuarão a ser contadas

Pintando no presente essas memórias

Mesmo das épocas mais conturbadas,

Que nos mosaicos são desenhos belos

Mesmo com amanteigados cabelos.

 

Dos Laudrup’s que papel não tinham: “Nim”

Depois que alguém gritara: «Pá, há papel?»

Louca risada, não tinha mais fim,

Lembrar-me disto, é mais doce que o mel,

Que eu vivo da memória que me lembro

Dos encontros de coros em Dezembro.

 

E daquele ano louco que chumbámos,

Que a frase “tens cola?” significava

O final da secura. E nos juntámos,

Para saber com quem cada um andava

Quem a primeira queca tinha dado.

Eu que não tinha, fiquei transtornado.

 

Fizemos peças teatrais no Entrudo

Num ano em que foste apresentador,

Cenário destruído… e o Carrudo?

Caiu do palco. Foi assustador,

Depois da fútil Batalha Campal,

Que não gostavas pelo Carnaval.

 

Que longa franja tinhas nessa altura,

Dava-te um ar mafioso, assustador,

Para os mais novos; mas na formatura

Eras da gargalhada gerador

E as claques no andebol que nós juntávamos

Os putos, e nossa equipa incentivávamos.

 

Lembras-te há dezasseis anos atrás?

Comigo conversavas a chorar

Na mesa do bilhar quando algo traz,

Um bom motivo para gargalhar,

O Martelo, do Janica, «ai, ai», a ouvir-se

Sangrava da cabeça e a gente a rir-se

 

Saudoso das conversas prolongadas,

Até tarde e más horas, dos jornais

Feitos às cegas, eras conturbadas,

Falando sobre amores, bacanais

Coneiros, oriundos, encontrões,

Do Mira seus "Pregões e Cagalhões".

 

(É quase hora do almoço. Olho a janela

Um céu cinzento ameaça esta cidade

No tempo, estou de guarda, sentinela,

Deixo-me entregue à alta ociosidade

Amigo, irmão, escrevo-te, já nem sei,

Que horas serão? Nem pelo Tempo dei)

 

Viera o ano em que muitos chumbaram,

Novos da turma, a turma do Agapito,

Que alguns, de atentos olhos repararam,

Do soco ao Fitas dado pl’o esquisito,

Rapaz. Acho que foi cera nas costas.

Virou-se e disse: “Toma! Vê lá se gostas!”

 

Vieram punições (foi só o começo)

Dias de suspensão pra toda a gente,

Hélder, Pinto, Pinão, P’reira, Codeço

Porquê? Que int’ressa, era-lhes indiferente,

Nem deu pra reclamar, fazer barulho,

Trinta e Dois, somara eu, mas não me orgulho.

 

E as Aulas de Cálculo Financeiro

Somando hora de estudo à terça-feira,

Num ambiente inculto, galhofeiro

Instrução Militar à quarta-feira,

Dormia, mas antes de adormecer,

Eu tenho a tua imagem a escrever.

 

“Que escreve ele?”, pensava: peça cómica

Algum poema onde alguém critica

Será do riso alguma bomba atómica?

Que nada: constituições do Benfica,

“Deixa cá ver: um lateral direito,

João Pinto, na avançada! Aí está, perfeito!

 

Mas lembro num Baile de Finalistas

Que andavas sempre com copo de absinto,

Na mão, dizias ébrio: “Estas artistas

São todas umas porcas!” ‘Tão, ó Pinto?

Ria-me, debilmente, era fraqueza,

e as senhoras reclamando: “Com franqueza!”

 

Passou-se mais um ano até que veio

Chumbo fatal (milagre ter passado)

Da Vesga que pensara sem receio

Nas Caraíbas. Pronto, ano estragado,

Eu, em Viana do Castelo, anunciaste

Ao meu pai: “Ele passou!”, e tu, chumbaste.

 

Não havia razões para festejo,

Pois fora o ano em que nos separámos,

Foi como ouvir da vida vil gracejo

“Colhemos só o que antes semeámos”

Que estranho foi não ter-te ali, ao lado

Passara um ano e nada, ano passado.

 

Um ano vão passara e regressavam,

Tinha de volta os meus irmãos, amigos

Com outros algarismos continuavam,

Os que me foram sempre bons abrigos,

Sonhava tanto, a torto e a direito

Eu, sonhos vãos, inúteis, imperfeito.

 

Então vieram dias amorosos,

Vivi também fui mero observador

Escritos pensamentos rigorosos,

Recusei transcrever cartas de amor,

Teve que ser o Pinto, novamente,

Escritor, copista, génio producente.

 

(A fome negra aperta. O almoço adio

Atraso-me no meu diário suplício,

Lá fora a chuva adensa-se, faz frio

Aqueço-me à lareira do alto vício

Olhando o meu passado tão risonho,

Mais que lembrá-lo, vejo-o como um sonho.)

 

Eis que a Janica entrou no coração,

Do Pinto, numa altura tão confusa

Que o tal amor às vezes é ilusão,

Quem nunca ingénuo amou uma Medusa?

Senti-me um pouco só, sou-vos sincero

Amei a Solidão, o desespero.

 

Enfim, acabou tudo, outro começo

Mudanças, casamentos, raros dias,

Para ter a amizade que conheço

Composta nas minhas magras poesias,

É bom ter filhos esposa, emprego, mas

A pouco sabe ouvir-vos por telefonemas.

 

Eu grito ao mundo inteiro: “hoje recuso,

Qualquer ofício, este que não seja

Dar parabéns desejar que profuso,

Lhe seja o dia que hoje se festeja,

Ó Pinto, a vida não é só trabalho

Há que mandá-la às vezes pró serralho!

Beleza

És como a Alma do Mundo, a ressonância

Divina, lá do cimo do alto cume

És sombra, que ilumina a ignorância

Que à minha sabedoria se resume.

 

És como um céu de prata rutilante,

Que substitui-me o bronze da tristeza

Esquecida mala pelo viajante

Num canto inolvidável da Beleza.

 

És raio fulminante que atordoa

Levíssimo tapete que me leva

Ao sol cor de açafrão sobre Lisboa

Que empurra, ao fim da tarde, toda a treva.

 

É pouco tempo o ínfimo segundo,

Que me demoro nos teus olhos meigos

Ah quem dera tocar mais nesse fundo

Mantido longe dos olhares leigos.

 

És como aquele hotel feito de gelo,

Erguido, como um sonho inalcançável

És boca derretida em caramelo

Mantida num silêncio inquebrantável.

 

És como as quedas de água. Quem te impede

Teu curso impetuoso e natural?

Borrifas a flor cândida que pede

teu sopro fresco no seco estival.

 

És sonda que me sonda o insondável,

Perdida nessa imensidão do espaço

Que existe em cada espírito impalpável,

Que se enternece com singelo abraço.

 

Se és tudo o que te digo, então quem sou?

Apenas quem constrói sagrado templo

Honrando essa pureza que sobrou

Um dia, em minha alma, sem exemplo.

Viver é Loucura

E, amor, saber que num qualquer momento,

Bem pode ser nosso último suspiro

Que seremos nada: ar, pó e esquecimento

Da beleza, nem um grão de pó lhe tiro,

 

Saber que é vão viver, anjo, transpiro

No início milagroso do amanhã,

Sentir que a vida é dádiva, retiro

Todas estas negras nuvens da manhã.

 

Saber que será tudo insubstancial

Dá-me vertigens neste voo imenso

Loucura que é a vida enquanto dura,

 

Saber que um Bem virá maior que o Mal,

Que alívio, ignorar onde pertenço

Porque me acolhe bem esta loucura.

Meu ser

Eu nunca soube o que é ser-se feliz.

Em frente, amor, eu sei, seguir em frente

Andar, para o futuro, calmamente

Nenhum autor mo disse, nem mo diz.

 

Floresça o dia igual à flor de lis

No vale, não no escuro de uma igreja

Floresça como ordena e amor deseja

E que me impeça, assim, ser infeliz.

 

Magnânimo, tornou-se o tempo em bruto

Por conceder-me a mais que alguns uns dias

Que vivem a adivinhar noite e futuro,

 

Presente, veio tornar-se irresoluto

Colorido era o passado se sorrias

Sou ferida, quem sou, não me suturo.

Meu Céu Azul

Donde virá esta dor que me enlaça,

esta fúria que abraça, morde e atordoa,

donde virá este amor que me abraça,

Lembrando delírios do nosso Pessoa?

 

É gota de sangue caída no chão,

Estilhaços de vidro, de sombra no mar,

Rebenta-me as minhas bolas de sabão,

Que alegre me sinto largá-las no ar.

 

Em busca de Proust do tempo Perdido,

chamando seus livros, nenhum encontrei,

Sou chuva sou neve, gelo derretido,

Sou folha de plátano na água deslizei.

 

Sou estátua marmórea num largo jardim,

Telhado de vidro, abóbada celeste,

Sou poema gritado, sou livro sem fim,

reflexo no espelho do sol que me deste.

 

Sou sombra nocturna na rua apertada,

Povoada de vício devasso de crime,

Procuro no escuro a Lua encantada,

Alguém que me encontre, incendeie, reanime.

 

Sou cinto apertado, inútil gravata,

Sou lente perdida pra sempre no chão,

Sou ramo espinhoso, veneno que mata,

Flor tóxica, ideal que me mata a paixão.

 

Pirâmide do Egipto, muralha da China,

Que nunca encontrara como ser quem sou,

Sou língua fecunda que beija a vagina,

Da terra, imagina, quanto me encantou.

 

A Lua persegue-me, obscura, sombria

Pulando telhados, prédios, catedrais

Já este negrume do céu enfastia,

Cobrindo meus versos, Musa, musicais.

 

Ó escadas rolantes, levai-me lá cima,

Rasgando este manto tão escuro do céu,

Mensagem electrónica, traz-me a rima,

Descomunal força do forte Teseu.

 

Sabe-me isto a pouco, enlouqueço; compara

Esta minha loucura co’ a neve que cai

Na Europa assolando o lar do amparo,

Miséria que nunca, minha gente, sai.

 

Ó flor deslumbrante, que abrasa, que ateia,

Um fogo vibrante, vivo, furioso

Que por meus sentidos parece a alcateia

De lobos, mordendo meu lado meloso.

 

Ó lúbrico fogo, dançante, exótico,

Tu pões-me nos olhos tom rubro do Inferno

Incêndio lavrando tal poema erótico

teu corpo gelado do frio de Inverno

 

Ó vento ocioso, gemente, uivante

Inútil, que empurras o ar contra nós

De lâminas finas, torna-se o ar cortante

Que entra nas narinas e nos rouba a voz.

 

Ó jacarandás mimosos sem flor,

desnudos salgueiros, tristes oliveiras

depenas-me, ó tempo, amargas-me o amor,

Que sinto por coisas puras, verdadeiras.

 

Que carros modernos me venham tirar

A neve gelada dos meus pensamentos,

com mil pás mecânicas, possam andar,

Nas ruas da mente livres sentimentos.

 

Ó poética Musa que sinto e não vejo,

Abraça-me, encosta meu rosto aos teus seios,

Despede a ansiedade, verme do desejo,

Lança-me feitiços com teus devaneios,

 

teu corpo de estrelas e constelações,

Flutua solene nos sonhos nocturnos

Que a chuva de versos são como balões,

Largados no céu, de encantos diurnos.

 

Ó génio da lâmpada, mulher-Aladino

concede-me três desejos de estranho

O primeiro é ter-me pra sempre menino,

Amar-te, o segundo. O terceiro? Não tenho

 

Animo o momento, plantando a ruína,

No ofício que eleva a cor da Natureza

tudo o que me envolve me abraça, fascina,

Há religião em amar a Beleza.

 

Ó fome apertada, fútil, momentânea

Ó sede que engano com água dos olhos

Minha alma maldita, torna-se espontânea,

Ouvindo rugidos e vozes dos escolhos.

As Janeiras

Bom dia, Dois Mil e Dez,

Bom ano! Bem que vieste,

Sombra colada a meus pés

Esguia de verde cipreste,

No início é sempre mudança,

Que metemos na vontade,

Nada muda, só a esperança,

Que esmorece, na verdade.

 

Observo o mundo lá fora,

É muito mais velho que eu,

Sou aquele que namora

As infindas estrelas no céu

Sou o que trago vontade,

Dobrar o férreo destino,

Que funda soa à idade,

Ao ácido som do violino.

 

Ó rostos que agora contemplo,

Ó bocas que nunca beijei

Ó deusas que oram no templo,

Que o corpo nunca tomei,

Papéis esparsos que tenho,

Guardados numa gaveta,

Meus solilóquios de estranho

São mil devaneios de poeta.

 

Ó duas pombas mimosas,

Que vira hoje de manhã,

Que voaram tão deleitosas,

Aos meus olhos sem amanhã,

Minha amálgama terrestre,

Serei sempre o que escrevi,

Serei o fruto silvestre,

Que plantei e não comi.

 

Não há cura a esta doença,

Que padeço por olhar

Crio à alma desavença

Por ver sem poder provar,

Sou a chuva copiosa,

Que não cessa o versejar,

Sou a nuvem langorosa,

Que não vive sem parar

 

Sou a geada matinal,

Na selvática verdura

Sou a aurora boreal

Que dum céu anda à procura,

Sou a roda giratória,

Que nos anuncia a sorte,

Sou a nota introdutória

Escrita pela mão da Morte.

 

Quantos poemas escreverei,

Ano Novo, Vida Nova,

Quantos versos já sonhei,

Cuja vida mos reprova?

Servirão de alívio doce

Aos que sofrem neste mundo

Como se a salvação fosse

Para as mágoas lá do fundo?

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