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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

NUNCA MAIS, 2009!

Nunca irei esquecer-te, Inverno, escuta agora meu gemido,

Ouvi-te o discursar de chuva e vento. Pára um pouco,

Que no mundo, inconsciente, geme e chora, anda perdido

Consciente por que vive. Escuta, Inverno, quem é louco,

Faz-me a vontade: inspira fundo e espera

Pois quem não é ouvido, desespera.

 

Pois é hoje último dia, trinta e um do teu Dezembro,

Mês gritante, onde engravidas nuvens negras pinceladas,

De pavor e tirania, que outro Inverno não me lembro

Do dilúvio andarmos perto, de árvores nuas arrastadas,

          Correndo novos rios caudalosos,

          Ouvindo o uivar dos ventos pavorosos.

 

Dá vontade de apupar-te, de lançar-te imprecações,

Mas respeito, ó céu senil, pois repetes dia a dia

Vento e chuva, frio e neve, lençóis de água, inundações.

Seja poste este poema, que me agarre à Poesia

          Que sirva de ombro amigo, minha gente

          Esperemos que o sol surja no oriente.

 

Mais não peço ao mundo esmola, deixarei de ser mendigo,

Servirão meus olhos loucos à procura de sustento

como a pomba seu conforto, aconchego, bom abrigo

Ou pastor perdida ovelha, ou filósofo pensamento,

          Ao poeta imenso verso que lhe dê,

          Calor humano, sem saber porquê.

 

Como aquele que vivia de saudade e solidão

Longe da mulher e filhos, rodeado de alva neve,

No exílio amargurado, aquecendo o coração

Pois que dera angústia a Augusto, assim a pena minha escreve.

          Se o ferro e fogo apagarão meus escritos

          Ignoro. São meus ecos, são meus gritos.

 

Meu martírio de cantar às escondidas, neste ofício

Que devorador me engole, esmaga sonhos passageiros

Que meu espírito iluminam, rosas brancas no suplício

Belas flores bem entregues aos meu versos jardineiros

          A alma é meu jardim que alegre cuido

          O corpo caprichoso é meu descuido.

  

Vejo-te, Dois Mil e Nove, como um barco que se afasta,

De bom porto pelo mar, cauteloso mas seguro,

E ao fitar-se o horizonte, vê-se onde o tempo se gasta

Se bebido num momento, na Beleza que procuro,

          Que dói lembrar-me que tudo tem fim,

          Antes que chegue, amemo-nos. Enfim…

 

Como um abutre avista, ao longe, o pobre animal morto,

Logo aquele e outro atrai, vão compondo um ramalhete

De lúgubres rosas negras, que me criam desconforto,

Vêm Tristeza e Solidão sedutoras de corpete,

          Beijam-me, afagam-me com mil carícias

          Enchendo a minha boca de delícias.

 

Dão-me os dias aspereza, fome e sede para erguer,

Memoráveis monumentos com mil cânticos poéticos,

Dá-me a fúria bater asas, dá-me a ânsia de querer

Viver versos escritos, tão delgados e esqueléticos

          São marionetas lúdicas da alma,

          que insaciável quer mais ter que calma.

 

Fotografo tudo à volta, tudo guardo, colecciono.

A Divina Inspiração está nas coisas que me ocultam

Mil enigmas, mil mistérios que meus olhos direcciono

A espantosas obras feitas, que no Céu e na Terra avultam,

          Igual à longa seara que termina

          Aonde a vista alcança e me fascina.

 

Longe de curiosos olhos, na penumbra, atento alheio

Aos gestos que esta vida teatral se manifesta

Cubro o papel virgem branco, com esmero, sem receio

Como se fosse esta via, meu consolo, alegre festa,

          De tilintar de copos cheio de gente,

          Que sinto dar dentro da minha mente.

 

E aquele vale escuro onde dois rios se beijam

Em passeios sucessivos, caminhando num tapete

De húmidas folhas fulvas, onde as árvores cortejam

As águas transparentes, onde tocarei trompete

          Num sonho pastoral de aves pousarem

Por perto, e a melodia escutarem.

 

Onde renovo o citadino e gasto sentimento

Andando de mãos dadas, com meu pequeno Cupido,

Que seu piar mavioso encanta, eclipsa meu tormento

Melodia angelical, Éden do Paraíso Perdido,

          Que arranca um riso a deus se mal disposto

          Sou neve a dereter-me a olhar-lhe o rosto.

           

Nos meus olhos apertados, tudo brilha à minha volta

Como poça de água de óleo, prateada de luar

Como fixas, as estrelas, serviçais da Lua, escolta

Cintilando brandamente, como um doce soluçar,

          Espiãs da Vida, guardiãs da Morte

          Desta maldita e abençoada Sorte.

           

Meus amigos espalhados, separados à nascença

Da amizade inexprimível (já lá vão vinte e três anos),

São pilares, alicerces, templo antigo, simples crença

que não há melhor remédio que aliviam nossos danos,

          Vós que dais cor aos dias sem vos ver

          Grito convosco: “Querer é Poder!”

 

Poucos são os dias claros que em uníssono cantamos

Nosso hino, honrando aquela que “tão bela e tão ridente”

Foi a casa onde crescemos, que tão pouco visitamos

Águia real de asa ferida, abandonada, decadente,

          O vasto império azul de que me lembro,

          Que ecoa forte ao chegar-se a Setembro.

 

Nunca mais, dois mil e nove, chegarei a visitar-te,

Cravas-me agudo espinho de escreveres: “Nunca mais”,

No papel do Tempo eterno, possa ao menos embalar-te,

Na canção intemporal, compondo versos musicais,

          Ouçamos o silêncio a amotinar-se

          E a todos, um Bom Ano a aproximar-se.

Vozes interiores

A voz do simples cauteleiro,

Soa-me a trompeta do inferno,

a cantiga de aventureiro

Que ruma ao vazio sem governo.

 

A voz prateada da fadista,

De noite, é rouxinol que canta

Cesse o discurso economista

Que a morte tumular levanta.

 

Na voz da morte há sedução,

Convida, afaga, uma alma triste

Inveja, a vida, a criação

Do mundo, o espectáculo assiste.

 

A voz da Vida é diferente,

Soa a soturno violoncelo,

São cordas que vibram na mente

Que, na ânsia, procuram o Belo,

 

Amálgama eterna, sonora

Metálica, confusa e ácida

É grito na virgem que chora.

Da vida, tão seca, tão flácida!

 

A voz de um homem bem casado,

Injusta, na língua tem fel,

Rugosa de timbre escavado,

Num sonho untado de mel

 

A voz da mulher bem amada,

Traz doces murmúrios do rio,

Põe-nos bom sorriso à chegada,

Aquece-nos no tempo frio.

 

E aquele silêncio que ouvimos

Sussurrar do mundo invisível

É quando sozinhos sentimos

Mistério de tudo. É incrível!

 

Mas a voz do pranto, flagela

Se vinda da alma penada

Uns choram se alma congela

Uns choram por tudo e por nada,

 

E aquele louco que nos fala,

Sabendo mais que os eruditos,

Que toda a ingratidão cala

Se nos queixamos aos gritos.

 

E os rios que regam salgueiros

Os mares que inspiram saudade,

E a sombra de mansos pinheiros:

Possuem vozes de verdade!

 

Do fogo que a lenha devora,

Do ar, que o vento suspira,

Da terra ferida que chora

Do ódio que o amor nos tira.

 

E o riso daquela criança

Timbrada de puro cristal,

Inspira-nos nova esperança

É luz de manhã triunfal.

 

Quererei ouvir outras vozes,

que tragam belíssimos cânticos,

Remédio pra angústias atrozes,

Iguais às vozes dos românticos.

 

Eu hei-de propor à minha alma,

Que reúna vozes variadas,

Criam harmonia, dão calma

a almas mais desassossegadas.

 

Por grutas, cavernas e tocas,

Existentes dentro do ser

Eu hei-de unir milhões de bocas

Que tragam novo amanhecer.

To ALL

Por compaixão o poeta nunca escreve,

Nem largo a minha vida para tal,

em mim cai grossa chuva e branca neve,

Digo-te: onde está bem, tu vês o mal.

Ignoro se falhei no alvo certo,

Ou se acertei incauto no alvo errado

Mas Portugal ficou escuro, encoberto

No poema que invocaste vento irado.

 

Se te procuro em horas apertadas,

Porque a saudade obriga e o verso mata,

Porque lançaste nuvens marchetadas,

De cinza (um nó me aperta, um nó me ata)?

Corri ansioso com fome de ver-te,

de via diferente não seria,

com pouco tempo, assim, tento entender-te

que mal espalhei na erótica poesia?

 

que lado feminino vitupera,

Da condição de ser-se masculino,

Que especiaria o amor não te tempera?

(Como não entendo o lado feminino)

Ah quem me dera ser, Musa, mulher,

Para queixar-me ao mundo e cantar prantos,

Querendo o mundo inteiro sem poder,

Não existe o impossível nos meus cantos.

 

eu quando canto meu coração pede,

Que embale no ar levíssimo se posso,

Mas sobrevivo, o ofício me despede,

Se não labuto e aperta-me o pescoço.

temperado no tempo, dar-lhe uso

tendo um lugar para ti, também para mim,

Não me destruas. deixas-me confuso,

Se invocas no papel um mal, um fim.

 

dizer-te que me inspiras talvez seja,

tão pouco quando há muito que dizer-te,

Disse-te que do mar eu tenho inveja,

Porque não posso mais que, assim, querer-te,

E desejar-te ao ponto que me aperta,

espetando a adaga aguda afiada fundo,

deixa-me a porta linda entreaberta

Pra que vislumbre a aurora do teu mundo,

 

De ardentes versos feitos que me inflamam,

Levando-me de noite, a esta loucura,

De só, me amar, enquanto outros se amam

Dando um ao outro jactos de ternura,

Jorros delirantes mornos, quentes,

de fumos lentos nas noites sem ventos

de lúbricas imagens envolventes

espantando desta vida mil tormentos.

 

verei se embrulho um beijo neste verso,

Com fita vermelha de veludo,

Se mo recusas. ficarei disperso,

como se nesta vida obrasse tudo.

Ou se me entregarás ao mudo olvido

Ficando no silêncio na penumbra

Ou se será no meu já esquecido

Por ti, tua tristeza me derruba.

 

Um dia, há muito tempo decidi,

Cuidar do meu jardim, alma infinita,

Deixando entrar alguém que nunca vi,

Ansiosa flor que em verso canta e grita,

Há odores musicais, ânsias dolentes,

Escritos manuscritos e escrituras,

Crescem-me castas flores e indecentes

Exuberantes, sobem nas alturas.

 

flores de versos, poemas, pensamentos

Músicas esparsas nunca feitas,

que a vida adornam, e apagam meus tormentos

entre almas descuidadas, imperfeitas,

Igual à minha que escolha não tive,

Cresci como essas flores que me crescem

Ganhando asas, voando onde não estive

Instáveis serras onde sobem, descem,

 

Em lagos onde as águas se evaporam,

tão límpidas, tão raras, onde o fundo,

existem belos seixos que namoram

Sensíveis mãos que tocam meu profundo,

Cavernas aquecidas com a chama,

Que no coração me arde e ninguém vê

No lodo ou charco imundo onde reclama,

O duro ófício, não sei bem porquê.

 

desvio-me do assunto, eu sei, mas quero,

dizer-te o quanto fui, o quanto sou,

Não quero que me entendas com esmero

Meus versos? Rasga-os... Brisa que soprou

No ouvido, manso, quente e odorífero

Do mar onde mergulhas e me ensinas,

A mergulhar contigo nele e, fero

eu fico, por não ter-te e me fascinas.

 

Durante tanto tempo eu vi-te, assim,

corpo que escalda um deus, minha sereia

A mergulhar nas águas, sobra enfim,

saber se me serias a Medeia,

de artes mágicas, como se invocasses

Ondas tão altas ao azul Neptuno,

Se em mim ao meu teu corpo entrelaçasses

Teríamos os dois 'scrito um poema uno.

 

Vou terminar com minha solidão,

Ociosa, reclamando meu calor,

Cravando espinhos no meu coração

Coroando-o igual ao que pregava amor.

Talvez consiga a imagem na cortina,

Aveludada e negra ter por perto,

Um sol que me descobre e me fascina

Me escalda se caminho num deserto.

 

Talvez me envolva, esse vazio abrace,

Na boca beije, os lábios humedeça

Percorra um infinito e me entrelace,

No ar, igual a um fumo e desfaleça,

este envolver-me sem que ninguém me olhe,

Com olhos viperinos de voragens

este cantar que ninguém ouve ou escolhe

Por encantar-me com mil e uma imagens.

 

Se a tela que pintaste é a Última Ceia

Serei sempre o teu cristo, Madalena,

Se foste mergulhar, minha sereia,

A última vez no mar que se empequena,

se abriste tuas pétalas mimosas,

aos raios do meu sol que em ti dardejam,

Verás que te acho bela entre outras rosas

Cujas bocas sedentas nunca beijam.

 

Ao teu critério deixo o julgamento,

Não de quem sou, por ser-te isto interdito

Talvez consigas ver-me em pensamento,

Me oiças do alto monte este alto grito

Que independente, pena ou benefício

Que vier de ti, ó Musa, só te peço,

Que não me esqueças nunca pois suplício

é esqueceres que inspiras um Codeço 

 

O Poeta Amoroso

Eu quero que meus versos sejam lábios

Que, ardentes, beijem lábios de mulher

Não sejam eruditos, sérios, sábios

Beijem apenas onde a mulher quer,

 

Que línguas sejam como as cobras de água,

Nadando em águas mornas, ondulantes,

Extraindo do minério que há na mágoa,

Volúpias e carícias mil de amantes.

 

Que à noite, quando a solidão aperta

No seio da mulher entontecida

Beijem languidamente a flor aberta

Igual à orquídea ousada, embevecida.

 

Que sejam dentes finos, maviosos

De pentes, ao escovarem seus cabelos

E acariciem ombros vigorosos,

Que só de vê-los dá vontade tê-los.

 

Que sejam coxas, pernas, mãos e braços

Na louca orgia de delícias sãs,

Aos solitários, sirvam-lhes de abraços,

Dados nas noites, tardes e manhãs.

 

Demorem-se um bocado, nem que seja

Por um minuto apenas que lhes valha

Custa-me descolar boca que beija

Desabrochada flor que bem se orvalha.

 

Parti, meus versos! Amai esta gente,

Esmagada pela mó cruel da vida,

Afaguem, mordam, beijem docemente

Uma alma alienada só, perdida.

 

Que única sensação vê-los unidos,

Enchendo aljavas com douradas setas!

Pobres daqueles que andam cá perdidos

Sentindo agudas dores de poetas.

 

Ah se pudesse ver entrar nos olhos,

De quem procura em vão meus devaneios

Ouvindo vozes lúgubres de escolhos

Com carinhosas mãos nos doces seios,

 

Desapertando roupas tão complexas

Caindo à volta como húmidas folhas

Dizendo coisas mudas, desconexas,

Como “Vê como, poeta, me desfolhas”

 

“Observa como calas minhas súplicas

Que inúteis, atirei-as ao ar, ao vento,

Vê como, com teus versos me duplicas

O gozo de viver, em pensamento.”

 

“Escuta meus gemidos, mansas árias

Que do meu peito escapam como pombas

Batendo asas, rasgando indumentárias

Difíceis. Expludo engenhos, minas, bombas!”

 

Ou quem comigo viaja de comboio

Sentada à minha frente murcha e só

Madura idade, a rigidez do joio

Viu seu casório transformado em pó.

 

De olhar distante lembra os tempos que era

“A violeta mais bela que amanhece”

Esquecida e apresentada como fera,

Por quem ignora o mal que a flor padece.

 

E aquela que no escuro, na violência,

Sentira o alcoólico hálito do crime,

Ficando sem pureza, sua essência.

(Que alguém no futuro a ame, a estime.)

 

Será, que ó Vénus, mãe do amor menino

Irás ler estes versos inspirados

No lúdico calor, acto divino

Entre dois corpos por ti temperados?

 

Será, ó Deusa excelsa, que nasceste

Na concha nacarada no mar cerúleo

Aprovarás meus versos que não leste

Tornando teu desejo imenso, hercúleo?

 

Será que estou do Inverno adiantado

Sentindo rebentar a Primavera,

Por recusar-me não ter este fado

Onde me opunha transformar-me em fera?

 

À noite escuto a música dos grilos,

Que na verdura montam-se aninhados,

Em gritos, gritos loucos, mas tranquilos

Cantam por se sentirem bem amados.

 

Parti, meus versos, voai por brandos ares,

Procurai quem padeça da miséria,

De lhes vedarem doces despertares,

Pondo um sorriso à vida que anda séria.

 

Transponde os altos muros da discórdia

Erguidos entre o homem e a mulher,

Uni mãos, corpos, sexos, em concórdia

Vivemos na penúria do prazer.

 

Melhor ginásio que este não existe

Que invoquem vaga Vénus no começo

Fora daqui a quem isto resiste

Lançando ao Tejo o que invocou Codeço.

 

Tu que encostaste teu nevado seio

À lusa caravela no Oriente,

Salvando-a da cilada, dá-me um meio

A cura que me cure alma doente

 

De imaginar o mundo a amar-se tenho

Vontade amar também inteiro o Mundo

Apupem-me de louco, triste, estranho

Os que verdete e lodo há no seu fundo.

 

Mentira estranha e atroz, que triste lado

Quando escolhemos mal por preconceito

Sinto-me enlouquecer por ver-me atado

Tão só, por ser humano e não perfeito.

 

Por este mundo fora reparara

Na liquidez dos olhos tão vermelhos

Das lágrimas escondidas que enxugara

Por quem anseia amor, novos e velhos.

 

Sugais, mas sem ferir doces mamilos,

Sensíveis, radiantes, amorosos,

Livrai da dentição dos crocodilos,

Que são ferozes, vis e mentirosos.

 

Quem neste mundo vive só da guerra,

É por não ser na cama bom amante,

E quanto mais guerreia, mas se enterra

No seu terreno Inferno degradante.

 

Quem ouse amar por vício, nunca o faça,

Não lhe soprará vento favorável,

Levando-o ao mar que logo o despedaça.

Saiba tornar-se respeitoso, amável.

 

E àquelas que se julgam detentoras

De altíssimo tesouro indescritível

Devem lembrar-se que o tempo, senhoras

Passa e nunca mais volta, irreversível.

 

Quem padecer de dores de cabeça

Melhor exercitar ossos e músculos

Que passam logo as dores bem depressa

Tornam-se insignificantes, minúsculos.

 

Homem, com mãos ásperas, masculinas

Sê hábil nessa dança de cintura

Da amada; mas nas partes femininas,

Sê poeta delicado com ternura.

 

Entre saliva e suor vapor libertem,

Igual à Natureza que tem espasmos,

De escaldantes vulcões que lava vertem

É assim que a Terra atinge os seus orgasmos.

O Poeta Exilado

De copo de vinho do Porto na mão,

Seguindo-me os passos veio a solidão,

Passar-me rasteiras, trocista, velhaca,

Espetar-me, invísivel, bem fundo uma faca.

 

Lá fora um gemido nocturno remexe,

Reinando um vazio que, súbito, desce,

Transforma-se em vidro molhado tão frio

Cheira-me esta vida a velhice, a bafio.

 

Meu corpo amolece, transforma-se em vento,

Mordendo-me o corpo, no ar de pensamento,

Meu leito vazio esfria sem calor,

Estendo meu braço, não estás, meu amor.

 

Meus olhos parecem antigas cavernas,

Tu, alma, meu corpo vê como o governas,

Sou ave ferida que embate no chão

que escreve com sangue um visível NÃO.

 

Escrevo umas linhas que matam a fome,

Poema, qual filho bastardo sem nome,

Em mim, há renúncia do ser que antevi

No espelho que antes ser adulto não vi.

 

Acolhe-me, noite, ampara-me agora,

Sou sino que marca sempre errada hora,

Sou gado sem pasto, sou gente sem lei,

Poeta sem verso, sou reino sem rei.

 

Sou vácuo no início, fogo no final,

Sou roda sem óleo que gira mas mal,

Sou águia de ferro cheia de ferrugem,

Pavão sem a sua galante penugem.

 

Sou louco maestro perdido no tempo,

Filósofo sem alto pensamento,

Sou tempo passado mas que nunca volta,

Sou Lua sem estrelas, coruscante escolta.

 

Sou aquele pobre que enrola seu leito,

De cordel atado e papelão feito,

Sou chuva incessante que amarga o mendigo,

Sou vento que leva no tempo um amigo.

 

Que mão invisível é esta que esmaga,

Trazendo na mãos veneno de baga?

Que boca me beija com hálito a enxofre

Trancando-me, ríspida a alma num cofre?

 

Semente plantada num fértil terreno,

Arbusto florido num dia pequeno

em que logo cedo o dia anoitece,

e a sombra do medo sua teia tece.

 

Ergue-se um crepúsculo majestoso em mim,

Arco do Triunfo que se ergue no fim,

Depois uma estátua, avenida ou rua,

Escrito meu nome, manchada de Lua.

 

São mais responsáveis as estrelas no céu

Quantos foram salvos? Um deles, fui eu.

Mania que tenho sonhar com planetas,

Seguindo brilhantes caudas de cometas.

 

Há muros tão altos que foram erguidos,

Para no futuro serem destruídos,

Há ânsias que crescem como ervas daninhas,

São como as conversas co’ algumas vizinhas.

 

São gatos que andam de noite vadios,

Miam como as águas nocturnas dos rios,

Rasgando silêncios do cio, paciência

Difícil saber já qual minha essência.

 

Sou alcool etílico que se evaporou,

Sombra nos muros que à noite dançou,

Rosa desfolhada no seco Verão,

Sou rocha, rochedo sem ter coração.

 

Meus olhos desviam o olhar da coruja

Sou toalha de linho já gasta, tão suja,

Que fora estendida em grandes banquetes

Vinho derramado por mil diabretes.

 

Quando era pequeno trompete tocava

Sem feita uma escolha, alguém me ordenava

Tocando, encantando a feroz multidão,

Querido por muitos, mas por muitos, não.

 

E quando perdera todo esse carinho,

Senti-me perdido, ave fora do ninho,

Somos como as folhas varridas no Inverno,

Douradas no Outuno, queimadas no Inferno.

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