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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Indiferença

Anónimo, sem rumo, andando pelas ruas,

Sem ter noção do tempo, nem sequer da Morte,

Saí! Fui ver-te, Vida, como amas e actuas

Nesta cidade antiga que me coube em sorte.

 

Plátanos e choupos, agitam-se no Outono,

Vê-se no chão tapetes de douradas folhas,

Olhando à volta sinto nos semblantes sono

Para encontrar a Vida, ó céu, finjo que me olhas.

 

Vestem casacos curtos, longos, uns compridos

Senhoras com vestidos de lã insinuante

Eu sou o céu que olha os seios comprimidos

De elegantes mulheres com ar triunfante.

 

Na altura em que Maria deu à luz Jesus,

Uns dizem que em Dezembro, outros num mês qualquer

Enfeitam-se árvores, prédios com jogos de luz

Por homens pendurados bem no amanhecer.

 

Jaz um guarda-chuva morto no passeio,

Foi sepultado ali. Por epitáfio tem

“Servi, honrado, alguém como bem lhe conveio,

Vivi sem ter vivido, sem ter sido alguém.”

 

Eu tenho, por rotina, nas manhãs iguais,

Ver um homem dormir, numa porta de entrada,

Dum prédio onde, elegantes, vivem racionais

Doutores, arquitectos, com vida abastada.

 

E as árvores estremecem no meu pensamento

Na minha mente caiem folhas de ouro fino

E pétalas de flores, travam meu lamento

Que um dia poderei sofrer igual destino.

 

De vê-lo, amaldiçoo Deus e o diabo,

Somos jogo de damas destes dois patronos

Dói-me a cabeça disto, a fronte, os pés, o rabo

Por sermos múmias vivas, mortos, bestas, monos.

 

Nisto, entro, soturno no covil sombrio,

Depois de ver miséria, ignoro vãos lamentos

Nos ares confortáveis não chove ou faz frio

Vivem ignorando alheios sofrimentos.

Cidade Antiga

Anda nas ruas da cidade um Baco errante,

desflorada Vénus pelo injusto Marte,

Medusa, no suplício expresso no semblante

Corre um rio de vício por toda a parte,

Corre nas ruas da cidade um vinho errante.

 

Fitam-nos as montras com olhos sedutores,

Apinham-se cafés que cheiram a imundície

Trocam-se olhares deste tédio redutores,

Florescem prantos, semente que alguém disse,

Porque as montras têm olhos sedutores.

 

Não sinto ser de Deus uma útil ferramenta,

Sinto que sou a sua pior dor de cabeça,

O tempo, esse escultor perito, esculpe, inventa,

Andarmos ao acaso, eternamente à pressa.

Quem pode ser assim de Deus a ferramenta?

 

Assim deverá ser o beijo do vampiro,

Depois de drenar o sangue à sua vítima,

Paredes de papel, pergaminho, papiro,

Perdendo dia a dia o rastro a quem nos estima,

Assim recitarei meu verso de vampiro.

 

Que belas ancas tem minha cidade antiga,

Todos a seguram, amam, e maltratam,

Como caímos facilmente na cantiga

Dos cegos poderosos que as mãos nos atam,

Que bela gente educa esta cidade antiga!

O exilado

O nosso lar vazio tem mil olhos,

Curiosos, que me espreitam do invisível

Rugem como as águas dos escolhos,

Como estar vivo ser quase impossível.

 

Breve me seja o exílio, este desnível,

Entre meu querer puro e não poder,

Ando nas nuvens, guiando o dirigível

Flutuando, no ar levíssimo... até ver...

 

Bem sei que é uma passagem transitória

Que, amor, deve fazer-se sacrifício,

Mas custa-me não ter-te aqui bem perto,

 

Assim, sou personagem sem história,

Bebendo o pó da terra do suplício

E tudo o que me envolve é um deserto.

Refúgio

Mesmo que não seja poeta da alta roda,

Daqueles que se expõem a magras entrevistas

Sou quem fujo sempre a esta nova moda

Vindas das modelos expostas nas revistas.

 

Mesmo que não torne a ver a luz do dia,

Dirão de mim que fui um pobre visionário,

Serei mais tarde sombra a sombra que fazia,

À tarde, na infância alegre de Icário.

 

Nem que me estrangule, rasgue o peito, ou chame

Os filhos de Eólo ou me torne mendigo

Eu fugirei da vida, sempre que reclame

Mesmo ambígua alma, que é do corpo abrigo.

 

Subo o patamar que não se quer mais nada,

Mais que Beleza oculta que esta vida tem

Coleccioná-la e vê-la bela, encadernada

Nos dias de velhice ou folheá-la no Além.

 

A noite desfalece nos ombros da terra,

Numa tontura igual à quebra de tensão

Ó bacante feroz que seu lábio me ferra

Esvazia-me esta noite cheia de solidão.

O poeta longe da Musa

Jaz minha inspiração, sofrendo contorcida

Olhando, vagamente, as coisas que tocaste,

Assim me fita a noite, mole, esmaecida,

Permanecendo tudo igual como deixaste.

 

As plantas que regavas, hoje rego-as eu,

Silêncio que rasgavas, não é mais rasgado,

Mudar é sacrifício, olha-se muito o céu

Olhar o céu deprime, o sol foi resgatado.

 

E ao mais pequeno ruído, ao mais pequeno rasgo

Poético, parece que tudo perdera,

Que cheiro na poesia, a lixo, a nojo. Engasgo,

Como subitamente, a Lua, amor, morrera.

 

Dentro do nosso lar sou qual morcego cego

Na escura casa emito ruídos mentalmente

Metáfora invocando, como me encarrego

Suavizar a angústia fria, mansamente.

 

Mensagem lida. Falso alarme! Estrondo! Farto

Engasgo-me, flagelo-me, encolho-me,

Que plácido delírio! Nesta barca embarco,

Deixo-me ir no mar brumoso, abandonando-me.

 

Passeando num jardim sombrio de mosteiro,

Sigo a própria sombra elástica, azulada,

Sonda lançada ao espaço sem ter paradeiro

Sem ti sou nevoeiro, névoa, nuvem, nada.

 

Cambaleante tem meu pensamento andado

Bicho encarcerado dentro de uma caixa

Fechado num baú, fechado a cadeado

Cortina de veludo vermelho que se baixa.

 

Desafinado piano, entorpecida flauta

Violino sem vara, orquestra sem maestro,

Sinfonia composta a pontapé, sem pauta

Sem ti sou poeta, solitário, sem estro.

Nocturno

Vejo Chopin ao piano, cadavérico,

Tão pálido e febril igual à lua,

Tocando um “...e esta vida continua…”

Sozinho, num silêncio atroz e histérico.

 

Irei, meu ser, espírito esotérico

Enquanto paira a melodia em mim

Lançar minha pergunta ao Tejo, enfim,

Porque nasci assim: calmo e colérico?

 

Que encontre esta resposta na espessura

Que afia avidamente dentes, garras

Quem, com profana mão, o amor embala

 

Suspiro! Cai a noite, igual e escura!

Cerrada solidão, porque te agarras

A mim, sempre que a minha voz se cala?

Interrupções

A madressilva cresce com suas bagas roxas,

Colada à coluna de mármore rosado

Que tua flor febril, por entre as tuas coxas

Emana – ó Paraíso, um cheiro adocicado.

 

Gasto de cumprir mandatos e deveres

Opostos à vontade imprópria e proibida,

Na tua entrada rósea existem mil prazeres,

Onde lá dentro posso achar uma saída.

 

Lábio humedecido, encontra um louco lábio

Pergunta-lhe: Quem és, que vens matar-me a sede?

Morde-se a si próprio, responde qual sábio:

“Sou lábio igual a ti que por teu amor pede”

 

A rigidez dos corpos gélidos dos dias

Derretem nesta dança o gelo glacial,

Pudesse derreter-te a alva neve, e gemias

Canção primaveril, triunfante e musical.

 

Num sufoco dorido, encontro o meu martírio,

Achar-me nos jardins antigos do prazer,

Há muito que não gozo ou voo num delírio

Nos céus coroados de fogo ao entardecer.

 

Declame a minha boca versos proibidos

Ouse cantar-te só o que minha alma sente

Não mais suporto a angústia de estarem contidos

Num músculo sanguíneo que há na minha mente.

 

Sejas vibrante lira, ou harpa encantadora

Sejas violino agudo ou grave violoncelo

Que tua alma se enleie, Musa inspiradora

E rolem, nossos sexos, juntos num novelo.

 

Que nossos corpos nus se unam numa causa,

Alívio dando à Vida, à Morte dê repulsa

Entre mansas carícias, beijos curtos… pausa

A pele se arrepia, o corpo o aperto expulsa.

Por Instinto

 

É por sentir que o sangue em mim se inquieta

Igual a um mar revolto, obscuro e falso,

Que o corpo se encaminha ao cadafalso,

Cumprindo o que esta vida me decreta,

 

Como compete ao ambicioso atleta

Vencer, tendo o triunfo, por encalço

Nem com feridos pés, corra descalço,

Eu cortarei um dia a última meta.

 

Ignoro se fui sempre quem escolhera

(Se por orgulho, crença, vão delírio)

As originais cores com que pinto.

 

Respondo, simplesmente, à voz que impera

No íntimo, amálgama ou martírio

Seguindo a escura estrada, por instinto

Poema Nº 1000

Sou milionário, amigos! Milionário

Com versos, fiz fortuna, enriqueci,

São vibrações da lira que tangi

São cartas escritas sem destinatário.

 

Não tens convite? Não é necessário,

A entrada é livre pois o que escrevi

Sem restrições, são coisas que vivi

Tontura de sentir sempre o contrário.

 

Abram-se em mim garrafas de champanhe,

Soando altissonante a Ode à Alegria

Festejo ter chegado ao poema mil;

 

Haja na festa alguém que me acompanhe!

Brindemos: à saúde da Poesia!

Brindo também contigo, ó Mundo vil!

Crepúsculo

Na rugosa impotência, inerte de rochedo,

No inesperado, um dia o fado cumprirá,

Cairá morto no chão, metendo ao mundo medo

Louca sinfonia que da pauta sairá.

 

Páris, mulherengo, de Helena enamorou-se,

(Que sua seta em mim nunca, fatal, perfure)

Do amor jurado eterno, Tróia incendiou-se.

(Que em mim funesto fogo não me invada ou dure)

 

Prefiro de ti, astro, sedutor, já quando,

A aurora vem abrir-te seus portões rosados,

E à sua irmã de prata vai seu ouro dando

Como dizendo aos homens: “cumpri vossos fados!”

 

Dentro de mim murmura um rio que vermelho

Corre, excitado, inquieto, ansioso por querer

Levar os mil pedaços deste imundo espelho,

Que o íntimo da flor nunca me deixa ver.

 

Ergue-se a voz macia, suave do crepúsculo,

E as nuvens cor violeta ocultam-me esse sol,

Não sei que sensação me aperta como um músculo

De sangue purpurino igual a este arrebol

 

Ah, se o colher de fruto fosse proveitoso,

Eu levaria à boca a fruta que escolhesse,

De súbito dissipa-se o amor vaporoso

Como a Lua se esconde e o sol nos aquece.

 

Suspiro! Empalideço, náufrago à deriva,

Neste mar ignoto negro e traiçoeiro

Anda escondida a esp’rança que se mostra esquiva,

Qual Dafne convertida num verde loureiro.

 

Beijo, com ternura os lábios dum cometa

Que me fura a barriga e passa com fulgor,

Desvio-me do moço cego de arco e seta

O mesmo que ferira Apolo por rancor.

O Rio Invisível

Por entre o revoltado e feroz rio,

De atravessá-lo, quase me afoguei,

No fim, tremo de susto, dor e frio

Lembrando a última vez que me molhei.

 

Que apenas duas margens nos separam,

Nas tumultuosas águas do prazer,

Tentei atravessá-lo a nado: entraram

Répteis e medos teus pra me morder.

 

Bem sei que ser audaz, amor, em excesso,

É errado; que o contrário é cobardia,

Mas não te peço mais do que mereço;

 

Não chamo, por querer-te, ousadia

Porém, por ver-te nua, não me impeço

De em ti me ter até que rompa o dia

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