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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

O amor pelas coisas belas

Meu corpo adoecido, fraco, eufórico,

Oscila entre espirais das aves idas,

Foram-se embora. E agora nas subidas,

Fraquejo no ar confuso e metafórico,

 

Adoecendo, ouvindo no ar, lamentos,

Dos ventos iracundos, inconstantes

Nas estações da alma delirantes

Quais ninhos habitados pelos ventos.

 

Da minha boca sai um fumo espesso,

Vejo-o envolver-se no ar e desaparecer,

Na exalação nocturna das estrelas;

 

Já pouco ou nada à vida frágil peço,

Dissipo-me no fumo sem sofrer,

Porque procuro amar as coisas belas.

Amante Solidão

Quem nunca se sentira só no mundo

Na multidão, seara imensa humana

Sentindo ter batido lá no fundo,

Tentando encontrar cura ao que lhe dana?

Ou alvo cisne andar num lago imundo,

Ou negro corvo no ar que nunca engana?

Não estás só, gentil leitor amigo

Seja-te este poema bom abrigo.

 

Que foi que me lançou nesta árdua empresa,

Expressar em verso íngreme solidão?

Às vezes a alegria, outras tristeza,

Murmúrios das águas do coração,

Convenci-me ter sido a Natureza,

Que me chamara. Bem, é ilusão

Nunca encontrei nada que justifique

Que outro querer melhor se prontifique.

 

Ao ler um livro, esqueço-me que passa,

à frente a vida num louco cortejo,

Meu ser é irreversível, embaraça

A língua gestual do meu desejo

Que austero me comprime e descompassa

Ser livre, tornou-se meu ensejo,

Por mais que encontre, falta-me equilíbrio,

O meio, o vivo extremo, o desequilíbrio.

 

Quem nunca em suas faces encontrou

Rosados tons, do íntimo embaraço

Ou quem nunca vergonha demonstrou,

Tolhendo, frase inculta, certo passo?

Quem nunca infeliz, feliz se mostrou

Disfarce inútil, eu que não disfarço,

Porque não uso máscara no ofício

Mais sofro, nesta via do suplício.

 

Tento manter direito o que me entorta

Mentira inventar quem ser não pretendo

Custa-me ser actor que se comporta

Segundo um guião escrito. Não entendo

O corpo sustentar com alma morta

Sorrir sem ter vontade, vai-se vendo,

Porém, sorriso engulo. A falsidade

Causa-me enjoos, náuseas, na verdade.

 

Dedico este poema aos sonhadores

Poetas, aos anónimos artistas,

Tornaram-se na terra sofredores

Àqueles que não vêm nas revistas

Jornais e televisões, tão promissores,

Talentos, mas que nunca dão nas vistas;

São sombras ocultadas nas cortinas

Porém, autores são de obras divinas.

 

Por muito que me espante quem se esconde

Do mundo, exibindo sua obra

O que mais longe vai, não sei para onde,

Que o duro ferro, em vida, férreo, dobra

Porque não sonha ser barão ou conde

Recusando convite vão da cobra,

Que, com altos caprichos nos seduz,

E à perdição sinistra nos conduz.

 

Tanto alimento, a vida, nos of'rece,

No tempo, passo a passo, abundância,

Perco-me no fascínio que arrefece

Esculpindo o mármore bruto da ignorância

Imagem espantosa que aparece

No mundo inesperado da inconstância,

O sol espalha pela terra o ouro,

Saúdo os que vêem nisto alto tesouro.

 

Ó Céu que colorido te apresentas

Qual tela de Romeu e Julieta

Beleza tens, e nunca representas,

Na exactidão expressiva de poeta

Vejo-te em chamas, fogo que sustentas,

Que às nuvens pinceladas Sol decreta,

Seja este entardecer poema ardente

Pra que se glorifique eternamente.

 

Para dar conta disto há que isolar-me,

Sem magoar quem muito me ama e estima,

No Paraíso Perdido encontrar-me

Na musicalidade de uma rima

Podendo, neste céu, equilibrar-me

Fingir Deus ser pintor lá muito em cima

Puxando rédeas à melancolia,

Sendo mais proveitoso o claro dia.

 

Que importa não ser-se celebridade,

Tornar-se um servo vil da fama e glória

Foi Buda um dia em busca da verdade

Escrevendo ignorado sua História

Porém, é mais um deus na Humanidade

Que se propagam gritos de vitória,

Mas sobre a fé, saibamos ser discretos

Sinais de Deus nunca foram concretos.

 

Teu mal espanta!Canta uma canção,

Eu que não canto há muito, sinto a falta

Cantar para espantar a solidão

Com cores variadíssimas, que esmalta

O espírito, alma, corpo e coração,

Ode à Alegria que a todos exalta

Sintonizado co’o Belo e Divino

Livre das incertezas do Destino.

 

Soubesse ser feliz, feliz seria,

Se interrogasse mais o céu imenso

O mar ouvisse mais, talvez teria,

Temperamento igual, feroz, intenso

Com ventos iracundos gritaria

Manhosa dor que sinto por extenso

Despida solidão, jamais a quero

Amante que me envia ao desespero.

 

Soltar-me dos caprichos corporais,

Insípidos, pesados, carrancudos

É meu desejo; surjam musicais

Meus versos sejam fruto dos estudos

À noite, com fantasmas imortais

Que em mim moram; fora de mim, são mudos

Mantendo com fantasmas bons diálogos.

Curioso, pois com gente são monólogos.

 

Ficaram-me palavras flutuantes

Luas sobre Damasco à noite quando

Estrelas, testemunhas cintilantes,

Assistem quando um mal nos vai soltando

Suspiros impotentes, tão gritantes

Quando terror e Morte vão mostrando

Sanguinolentos campos de batalha

Na Babilónia antiga, Ódio se espalha.

 

Lá mora um mal perpétuo que esperança

Tornou-se, igual ao vil ouro, riqueza

Não há de noite e dia confiança,

É própria sombra truque da incerteza

Ali, ó Aristóteles, temperança

É violentada como a Natureza

Como extraímos do Ódio vil peçonha

E surja a manhã nova mais risonha?

 

Quando poderão ver mais claramente

O fim àquela funda escuridão

Vencendo a luz sublime do Oriente,

Dourando o sol que inspire mansidão

Torna-se bom remédio repelente

Do ódio que lá mora sem Razão,

Que verso milagroso cante um dia,

Às portas da imunda tirania.

 

Que derramado sangue se converta,

Em água fresca, pura e cristalina,

Faça-se em mim a nova descoberta

Querer alto saber que nos destina

Às almas simples ver quanto liberta

Saber tudo que um bem maior ensina.

Amor, que amplia e move o Universo,

Dá-me amplitude e cor ao magro verso!

Inconstância

Ó gratidão que sinto quando vejo

Imagens que, gentis, meus olhos dão

Esta abundância à beira do rio Tejo,

 

Tangendo cordas mil no coração,

Da minha boca os ais que vão saindo

De mor espanto, afastam a solidão,

 

Dando lugar às aves que vêm vindo,

No ar; juntam-se alegres, na harmonia

No espaço que entre si vão dividindo,

 

Trazendo-me esta estranha poesia,

Da placidez das águas transparentes

Às pedras dando calma e cortesia,

 

Sem românticas e abstractas correntes

Reflexo desse bem que muito quero,

Correr alheio aos versos decorrentes,

 

Livre de angústias, mágoas, desespero

Extrair deste correr tão calmo e brando

Andar sem pensamento, força e esmero,

 

Como este rio que vai, gentil, lavando

O mal que trago em mim lá da cidade,

Lugar sinistro, obscuro, que apagando

 

A doce vida vai em tenra idade;

E as deslumbrantes cores variadas,

Das flores colorindo a ociosidade,

 

De vê-las florescentes, espalhadas,

Por verdes campos perfumados delas

Fragrâncias várias, novas, entranhadas,

 

Nas árvores, nas coisas que são belas,

Guardando em mim, no império da memória

Como ser impossível de vencê-las,

 

Entoando suaves cantos de vitória,

No estremecer das folhas outonais,

Nas árvores, antigas como a história,

 

Do cântico das aves musicais,

Que vivem simplesmente, obedecendo

À lei das coisas simples, naturais

 

Que sempre foram mais das que vou tendo.

Por isso, este conter meu pranto inútil,

Não dá felicidade. Mas bebendo,

 

Com ávidos olhos, tornou-se útil

Por que este bem celeste o peito amplia

Dando-me guerra ao meu lado mais fútil,

 

Como se me envolvesse a luz do dia,

Me amortalhasse o corpo, me dissesse:

“Crê que há mais força nesta poesia,

 

Ânimo, coragem pra que nesse,

Mundo em que vives vejas claridade,

Dom de quem ama a vida e nada esquece.”

 

Do Belo em busca, amante da verdade

À sombra do simpático salgueiro,

Planto a semente em mim, nova vontade

 

Que me dê fruto, como um pessegueiro,

Que me floresça mirto imaculado,

Ou sombra generosa do pinheiro

 

Sentindo haver no verso um ser alado,

Sobrevoando terras mais estranhas

Por me impedir sentir-me astro eclipsado,

 

Sentindo a força bruta das entranhas

Subtil leveza nos suaves dedos

Ousando usar de Ulisses suas manhas,

 

Ah assim fossem meus duros degredos,

Igual ao paraíso adormecido,

Afugentasse o fogo que há nos medos,

 

Sempre na terra andasse tão perdido,

Tratasse do jardim da minha alma,

Regando flores como um rio rendido

 

Que à sua Beleza trouxe calma,

Sentir ferocidade de existir

Amar é contemplar, abranda, acalma

 

No ritmo maquinal que há no porvir

Que, passo a passo, rouba-nos pureza,

Tentando gota a gota suprimir,

 

Os dons que o homem extrai da Natureza

Enchendo-nos de gulas perigosas,

Vivências vãs, iguais numa certeza,

 

Grávida de sementes horrorosas,

De áridos ventres, cheios de cansaço,

Longas fadigas, com pompas e rosas,

 

Cobrindo eternamente o sol no espaço,

Fazendo escorrer sangue à maga Lua

Que há numa vida imune ao doce abraço

 

Ser consciente: a vida vai, flutua

No ar, batendo aflita asas de cera,

Fugindo ao escaldante sol que actua.

 

Ah, quem fica à sombra assim e espera,

Um bem mover-se bem dentro de si,

rugido violento de uma fera,

 

Ó rio, por olhar-te me perdi,

Pões-me, só por seguir-te, melancólico,

Teu curso exacto que nunca segui,

 

Neste cenário idílico, bucólico,

Alheio ao pensamento e romantismo,

Liberto agora do furor eólico,

 

Vieste enriquecer meu erotismo

Minha sensualidade de sentir

Deste água fresca à boca ao meu lirismo

Na valiosa esperança de existir.

Canção Outonal

Vento no Inverno é tortura no rosto,

Mas vento no Verão,

É anjo que sopra com extremo bom gosto,

No meu coração.

 

Gemidos das árvores parecem mensagens,

No entanto, não são,

São duendes que brincam nas verdes ramagens,

Sem terem Razão.

 

Os lagos da chuva são espelhos na terra,

Convertem em prata,

As ruas em lama, trincheiras de guerra

Cidade que mata.

 

As mágoas que sinto atiro-as ao mar,

São pedras que afundam,

Sentindo que espreita a Fortuna de ousar

Ideias que abundam.

 

No Outono as estrelas fulguram no azul,

De tons variados,

Diamantes, no límpido céu cor de Nazgul

Que a ninguém são dados.

 

Contrai-se o músculo minha alma de sangue,

Meu corpo descendo,

Em êxtase fico, exausto e exangue

De espasmos, tremendo.

 

Caem-me as pálpebras, os olhos mortiços,

Na vaga da noite

Estremecem doridos vermelhos de ofícios

Que sofrem açoite.

 

As luzes de néon convocam, ofuscam,

Uns olhos sensíveis,

Mulheres que passam: que pensam? Que buscam?

No amor, combustíveis.

 

E eu, que ao silêncio esmola lhe peço,

Minha alma em farrapos,

Cubro-me de versos, e o resto me esqueço,

Como velhos trapos.

Estranha ambição

Um dia hei-de esbarra-me num rochedo,

Minha ambição é mar revolto em espuma,

Navio fantasma envolto em névoa, em bruma

Ave de asa ferida num penedo,

 

Eis que me surge um mal, ergue-se o medo,

Do inédito improviso instantâneo,

Porém, sinto que não sou mais espontâneo

Ao que fui, no passado, meu degredo.

 

Nas belíssimas imagens esculpidas,

Do mármore embrutecido, meu cinzel,

De longe, não são feitas de ambição,

 

São frases fortemente embebidas,

Num lago de amargura, amor e fel,

Das águas profundas do coração.

Ecos da Infância

Mudei, não sou o mesmo. Mas quem pode ser,

Ser sempre igual? Fiz tudo p'ra ser sempre igual,

Morri, não sei viver, nem tenho um só querer,

Tem sido este meu mal.

 

Mudo como a chuva pára a meio do Outono,

Até na cama mudo de alma e posição

Mudo enquanto dura a febre que há no sono

Mas nunca o coração.

 

Esse, quebra, pára, corre, e assassina,

As sensações divinas, torpes e amorosas,

Dói-te coração da vida que destina,

Ter noites assombrosas.

 

Escuta, meu martírio, tu que vens bater-me,

À porta do palácio espírito inquieto,

Diz-me se mais tarde irei reconhecer-me

Ou serei ermo e deserto.

 

Sou tão inconsciente, tenho, em demasia,

Da vida consciência e a percepção da morte,

Segui a indicação da seta: Poesia,

Foi esta a minha sorte,

 

Ou azar, não sei bem. Eu já não sei mais nada,

Contemplo, vivamente, o que à volta rodeia,

Farto ser sensível por tudo e por nada,

Dei ouvidos à sereia

 

Dias tão felizes tive com tão pouco,

Ao rio atirei, pedras num dia de Verão

Antes da minha alma adoecer, ser louco

Mas agora? Agora, não.

 

Ouvi as pipilantes aves na infância,

O mar rugir feroz, cantar canções obscuras,

Mas tudo era ilusão, vivida na ignorância

De abraços e ternuras.

 

Sei bem quem fui. Mal sei quem sou. Sou outro agora

Invoco sem saber idílicas paisagens

Vêm sempre em má altura, sempre à mesma hora

Da infância, mil imagens.

 

Onde estarão aqueles que comigo andavam

A chafurdar na lama, a rebolar na erva

Com papelão, comigo, alegres, deslizavam?

Que adorável caterva!

Alma Citadina

De vez em quando fujo às garras da cidade

Grotesco empório vil do gozo, ouro e prazer,

Procuro no silêncio, longe da vaidade

A calma para ser.

 

Ó céu cortado às tiras pelos altos prédios,

Telhados e vazios castelos sem princesas,

Os meus sentidos tremem, sofrem mil assédios,

Das mil luzes acesas.

 

Ó estrelas que vos vejo, à noite quando a Lua

Sobe de mansinho, meiga, devagar

Trepando o aveludado céu que continua

Pra, terna, me embalar,

 

Cansa-me escapar das mãos quatro estações,

Aqui não há Verão, Outono, Primavera,

Sinto o Inverno frio gelando corações

À sombra da Quimera.

 

Ah, que fadiga, ser alguém que nunca fui,

Que apodrecido bem nasce do fingimento,

Vulcão contido, acorda, em mim, em jactos, flúi

Lava de sentimento.

 

Sinistro estremecer das árvores doentes,

Esquálidas, no início na outonal estação,

O lúgubre ranger de apodrecidos dentes

Mordem meu coração.

 

Esta cidade fala aos encontrões, aos gritos

Sobe a pobre gente, exausta, a escadaria

Como nuvem compacta traz ventos malditos

O caos e gritaria.

 

Tu, cidade, tens tentáculos, elegância

Milhões de almas seduzes, que andam cá perdidas,

De ti sou fugitivo, amo a bela Constância

E as árvores queridas.

 

Tu és a Flor do Mal que fujo só de vê-la,

Tão bela exuberante, tóxica e mortal

Insípida mulher que os lobos querem tê-la,

Insípida e banal.

 

Da libido é a culpa, corre nas artérias,

Na escuridão pesada logo ao amanhecer,

Amo-te recatada e linda pelas férias

Depois, ninguém te quer.

  

Em ti, filha das trevas, cresce-te a semente

Germina um mal crescente, nunca acaba bem

Por isso quando posso ocupo minha mente:

Olho o Oriente, Além.

 

Quando sombras sinistras vencem a luz clara

Escuto o insondável, fúnebre e fatal

À espera, na penumbra, o verso que me ampara

Metáfora celestial.

 

Ao longe, um relicário acende-se comigo

E pelo Tejo entorna sumo alaranjado

E num conforto dúbio, arranjo bom abrigo

No céu mistificado.

 

A ponte honrando ilustre herói Vasco da Gama

Ostenta, debilmente, um cinto coruscante

Serve-lhe, por baixo, um negro pez de cama,

Qual Inferno de Dante.

 

Se me sobrasse tempo, os olhos lançaria

Para encontrar riqueza no lar onde vivo,

Surge-me, porém, cantar de noite o dia

Igual e cansativo.

 

Que sensações insanas, vagas e complexas

A máquina falível gera pra sofrer

Tantas almas proscritas, mortas, desconexas,

Buscando ouro e prazer

A Loucura e a Razão

«De tanto, às escondidas, contemplá-la

Eu ando endoidecido por não tê-la

Só posso no meu íntimo revê-la

Em sonhos, pois assim, não posso amá-la

 

Se ao menos pudesse um dia vê-la,

Ou fosse feito de ar leve e levá-la,

Ou vento, suave brisa e embalá-la

Veria um sol romper na aurora dela.

 

Que tentação! Meu mal, não me dá fruto

Nem flor, deu-me isto: versos, que alimenta

O bem que mora e anima o coração

 

Pois que, por causa dum fatal minuto

Vemos ruir impérios. Quem nos tenta

Dar à Loucura a face da Razão?»

Imaginário

Doura-me o sol lá fora. Arrisco tudo

Rasgo o seco ofício em mil bocados

Para andar aos caídos, aos achados

Ser no futuro objecto útil de estudo.

 

Oiço falar inglês, espanhol, polaco,

Soa-me ao estremecer do arvoredo,

Admiro quem pra cá veio sem medo,

Vivendo entre quem é vil e velhaco.

 

É raro rir-se com sinceridade

Sobra-me pouco tempo pra escrever

São raros os minutos para ler,

Por não ter conquistado a Liberdade.

 

Sou responsável! Falta-me a coragem,

Para lançar-me em queda à falta dela,

Amo a minha mulher, que é muito bela

Mas fala-me, às vezes, noutra linguagem.

 

Encolho-me no canto, se me puxam,

Os braços nas conversas tão banais,

Sinto-me exausto, as frases são-me iguais,

Das ‘stórias que aos encontrões desembucham.

 

Assim eu estou entregue a àrduas leituras,

Tentando dar consolo à minha alma,

Desfeita, em paciência, morta em calma

Ergo meu monumento sem estruturas.

 

Escrevo estes versos parcos, deslizantes

Não espero, no porvir, que façam eco

Escrevo-os para não ficar marreco

Do espírito, nas pausas mais secantes.

 

Porém, sinto que tenho imensa sorte

Fui pai há pouco tempo. Tenho um filho

Lua que à noite brilha, intenso brilho

Vida que me ilumina minha morte.

 

Voo nos céus da minha imaginação,

Vertiginosamente, bato as asas,

Em mim há uma gaivota que nas casas

Escreve com excremento: “solidão”

 

As estátuas, se falassem contariam,

Inéditas histórias do meu ser

Parece que transmitem seu saber.

Se eu fosse estátua, as costas voltariam.

 

Servil, chego bem cedo adiantado.

Ligando-me à corrente, ao universo,

Trancando a setes chaves meu perverso

Demónio, que me diz: “Chega atrasado”.

 

Gasto meu tempo em tarefas secantes,

Entre beldades, flores. Sinto estar,

Num público jardim a descansar,

Do que não me cansei no que fiz antes.

 

Bem sei que lá se esconde o Tejo ao fundo,

Beijando húmidos lábios de Lisboa

Dedico estes meus versos ao Pessoa,

Pois mesmo morto vive cá no Mundo.

 

Multiplicou-se! Uma vida não basta,

Para cantar-se tudo o que se sente,

Fingiu dor, “a dor que deveras sente”,

Um eco que no Tempo ainda se arrasta.

 

Mas vivo numa era em que poetas,

Se escondem, são ridículos aos olhos,

Do mundo inquisidor, feito de escolhos

Ó Deus, que infelicidade nos decretas,

 

Viver, sentindo haver mais do que a vida,

Sentir, querendo mais que este sentir,

Querer outra existência que existir

No orgulho vão não ter alma vendida.

 

Que me trarão meus versos no futuro?

Que rumo têm aqueles que os escrevem,

Almas daninhas, que ousam, que se atrevem,

Buscando o que é mais belo, o que é mais puro.

 

Altera-se meu rosto, se insinua,

No vago olhar um verso escrito, a ruga

Da morte o corpo corre, põe-se em fuga

Meu espírito no ar leve flutua.

 

Meu espírito agitado anda no ar

Qual trémulo, mudo voo da borboleta

Noutro país distante que decreta

No meu futuro um vendaval soltar.

 

Divaga por terras da Patagónia,

Acorda nas pirâmides do Egipto,

Contorce-se de dor, sente-se aflito,

Dormindo um sono num mundo de insónia.

 

Entra no estreito de Gibraltar. Volta,

A navegar no mar mediterrâneo,

Volta-me em vento, em espírito espontâneo

Trouxe-me do Oriente uma revolta.

 

Bem sei que soa tudo a surreal

Mergulho em queda livre neste abismo,

Porém, recuso o fácil conformismo,

Tento inverter o curso da espiral.

 

Ó meu veloz voraz real falcão,

Tu dedicado à vida da rapina,

Traz-me essa voz suave, voz divina,

Que traga ao verso alguma inspiração.

 

Eu queimo incenso, honrando os deuses todos,

Ponho-os no mesmo altar comum na terra

As mãos juntas, orando que esta guerra

Íntima acabe cedo com bons modos.

 

Não há que compreender. Não faz sentido

O meu, como na vida que não tem,

Possa cantá-lo um dia que não vem,

Buscar-me. Enquanto isso, ando perdido.

 

Virão sentar-se neste imaginário,

Espectros, ocultando a identidade

Aqui, encontrão expressa a verdade

Somente a minha, sem verso ordinário.

 

Meu rosto lentamente empalidece,

Meu punho cessa o impulso de esgrimir,

Guardo o florete agudo de sentir.

Por fim, a alvorada… eis que amanhece…

Imaginação

Vivo dentro de um sonho húmido e louco,

Há lábios que me aquecem o coração,

Há seios que me oferecem perdão,

Mas tudo sabe sempre a muito pouco.

 

Vivo dentro da rósea orquídea aberta,

Meus dedos ressuscitam almas mortas,

Abrem, na exalação da noite, portas

Minha alma voa quando a flor me aperta.

 

Vivo aninhado em seios virginais,

Deslizo sobre o mármore das coxas,

Das pétalas suaves brancas, roxas

Dançando com as línguas musicais.

 

De dia, pouso as mãos nas ancas curvas

Descendo vales, montes e montanhas,

Entrando dentro das escuras entranhas

Com minhas mãos agito as águas turvas.

 

De dia é quando durmo, é quando sonho,

Eu já não sei quem sou ou que pareço

Vagueio pelas ruas e esmoreço

Esperando em mim um sol bem mais risonho.

 

Que bela melodia, ó alma do mundo,

Que belo jardim este que ofereceram,

Às almas mais sensíveis que aprenderam

Que existe outro universo, amplo, profundo.

 

Ah se não houvesse crime contemplar

Fixasse os olhos sem desconfiança

Ingénuo, alheio ao p'rigo qual criança...

Se alguém pousasse em mim também o olhar!

 

Desata, nó na minha imaginação,

Pois posso imaginar meu vil pecado,

Sentar-me por um pouco. Ando cansado

Viver só dentro do meu coração.

A voz que vem do fundo

Dispo-me a pensar nas coisas trágicas.

Fechando os olhos, vejo imagens mil

Fulgurações de unidas pedras mágicas,

Como vivesse inquieto num covil,

O que senti guardei, não me foi extinto

Enterram-se na alma mil tesouros,

E o que vivera é a ideia do que sinto,

Do que senti, nunca me deram louros.

 

Ó alma inebriada, entontecida

Espantada com tão pouco mas que é tanto

Saúdo, ó gente que anda cá perdida

Que amor, que inspiração me causa espanto,

Meus olhos são gentis porque me guiam,

Meu espírito, ansioso por sentir,

Devora tudo, ignora o que diziam

Sobre encontrar sentido que há-de vir.

 

Não fez sentido algum, viver é nada,

Vaga ilusão, mentira, ânsia, queixume,

Beleza, eu te procuro, és minha amada

Amante, sem mentira, sem ciúme,

Amor livre, benéfico que dói,

Saber que à volta tudo é perecível,

Sabendo que a Beleza se destrói

Com selvático gesto, horrendo, horrível.

 

Dói-me pensar encher meu coração,

Milagrosa beleza, inesgotável,

Dói-me estar só entre esta multidão

Fingindo ser rei mas tão miserável,

Escuto-me, inconstante, nesta sombra

Gerada pelos raios da razão

Ergue-se a loucura que me assombra,

Trazendo pânico, ânsia, confusão.

 

Meu coração transborda de contraste

Brincando o sol no rio parecia,

Enchendo de cristais que me lançaste

Quando contigo nosso amor fazia,

Movia, lentamente, o espelho na água

De pedrarias feito, cintilantes,

Como de mim moveste minha mágoa

Nascida antes de ti. Sim, muito antes...

 

De noite é quando as luzes da cidade

Parece um santuário cheio de velas

Suspiro como soubesse a verdade

Sou sentinela entre outras sentinelas.

De dia cheira a tédio, ócio e dever

Minha alma trepa ramos ressequidos,

De árvores esquálidas a arder

Sentindo a sonolência dos sentidos.

 

Que bem virá colher desta seara

Humana, ou bem se extrai da fina-flor?

Lembro-me dos sonhos que plantara

Em verde idade, imune a qualquer dor.

Degraus do tempo, desço-os, retrocedo

Tenho sido um turista no passado

Razão para vencer humano medo

Continuar, sem ter medo atrelado.

 

Cantar bem alto o mundo é dura empresa,

Cantar-me, pior, parece-me impossível

Que bem maior cantar a Natureza

Que nos esconde deus ser bem possível

Ó acto irreversível que é sofrer,

Possa manter distante o sal das feridas

Delas orgulho nasce. Isto é viver,

Ó Almas volúveis que andam cá perdidas.

 

A luz do candeeiro cai no chão,

De mármore, enchendo o chão de sombra

Movo-me, contorço-me, mas não

Apago a luz a tudo que me assombra,

Deram-me o dom do ousado rouxinol

Deram-me o dom também da cotovia,

Cantando à luz da Lua, à luz do sol,

Enchendo o quarto escuro de poesia.

 

Ó máquinas, ó céu, ó gente, ó terra,

Ó homens da ciência, até de deus

Ó linha que contorna a verde serra

Todos os rios e mares são ateus,

Tudo me inspira, tudo me fascina,

Tudo me encanta, tudo me enriquece,

Em tudo, há uma voz que me destina

A guardá-la, quando ela me aparece.

Ousadia

Deixo-te, amor, entregue à tua sorte,

Que a minha, nunca foi melhor que a tua

Digo-te que esta vida continua

Antes do tempo escuro, antes da Morte.

 

Prossegue! Não receies! Tu és forte,

Deixa-me entregue à sorte que flutua

Subindo ao céu beijando, terno, a Lua

Gentil. Não tenho mais com que me importe.

 

Não vejas fim, onde antes é princípio

Talvez seja esta vida uma cegueira,

Que ousar e ter coragem seja a cura,

 

Ah, como custa ousar sempre no início,

Tornando tua história verdadeira,

Antes do eterno lar, minha alma pura.

Nuvens

As nuvens correm mudas, apressadas.

Para onde irão troar seu canto amargo?

Prosseguem na aspereza, duro encargo

Seguras, pelos ventos amarradas

 

Minha alma, está com elas. São-me dadas

Em delírios disformes de incerteza,

Carícias suaves. Chove com leveza

Molhando terras nunca antes olhadas.

 

Seguindo o passo incerto, a procissão,

Prossegue, sem seguir com amargura.

Deixai-me, agora, ó nuvens do meu ser,

 

Sigo inconstante, livre, na ilusão,

Que alcançar posso outro cume, outra altura

Até que me renove um novo querer.

Tinta e Papel

Resposta que me aguardas lá ao fundo,

Na esquina do Infortúnio ou da Fortuna

Mistério escrito em código, em runa

Ando às apalpadelas cá no mundo,

 

Imóvel, no início, agora farto,

Pesa-me tanto o fardo como a terra

A Atlas pesa sobre a verde serra

Na linha do horizonte onde me aparto.

 

Resta-me somente ver-te, amar-te

À primeira e fatal vista, nesse instante

Que num minuto a vida se resolve,

 

Não mais me resta, ó tempo, de lembrar-te,

Lançando o verso ao vento útil, gritante

Sou tinta que no teu papel se envolve.

 

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