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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Poema fora de água

Serei o único atormentado pela passagem,

Ignoram. São felizes. Falam outra linguagem

Sou um país distante longínquo, desconhecido,

Desta barca da vida, sou náufrago, perdido.

Bóio num mar inacessível a quem quer,

Saber além do mar, muito mais que ter: ser!

Ignoro e passo, furo a imensa multidão,

Finjo ser a luz que afasta e espanta a escuridão.

 

Serei o único que fala da angústia e desespero?

Ilha inexplorada no Pacífico que quero,

Mas hei-de ter um dia, nos olhos esse brilho,

Verde, olhando a costa, para contar-te, filho

Que é preciso sair deste círculo de fogo,

Viver é outro lado das coisas que interrogo,

Esparsos, meus versos, são brincos de oliveira

Ou cachos de uvas podres de velha videira.

 

Serei o único a pensar que tudo é incrível,

Sonhando ser capaz dobrar o impossível,

De construir cidades, perfeita arquitectura,

Forjando império cíclico na alma enquanto dura

A vida num papel imaculado e virgem,

Nos céus corcel alado, voo e… vertigem!

Sou gigante que montanhas amontoo,

Antigo aedo que meu canto forte entoo.

 

Bem sei que não serei nisto que canto o único

Canto… sou aquele que canta sem ter público

Que pensarão de mim? Que importa? Nesta idade

Já nada do que dizem soa-me a verdade,

Mais verdadeiro é aquele pombo pardo além,

Que sobrevive e voa com outro igual também.

Ou árvore antiga de fortíssimas raízes,

Crescendo ignorante de regras e matrizes.

 

Escrevo num prazer de virgem que perdeu

Sua poética pureza lembrando que aconteceu,

Escrevo, à procura do prémio de consolação

Escrevo, como sinto a própria pulsação

Escrevo para saber notícias do Oriente,

Como se ignora tudo, cá no Ocidente.

Escrevo, como as águas correm no ribeiro,

Escrevo como dá sombra este pinheiro,

 

Escrevo, em segredo, como se olhasse as blusas

Um universo insólito de ninfas, novas musas,

Como se lentamente minha mão ousasse,

Entrar no Paraíso e um pouco lá ficasse,

Escrevo como os dedos dentro de uma flor,

Que aguçam os espinhos, hirtos de pudor,

Escuros e rosados, mudos, salientes

Versos feitos língua, lábios bem mordentes.

 

Escrevo e saberei mais tarde se valeram,

As rosas que lambi, os beijos que me deram,

Escrevo sem seguir atalhos, sendas, trilhos

Como mãos arrancam apertados espartilhos

Eu tenho mil segredos, sofro de obsessões,

Sombra do martírio, livre de equações,

Arrasto ânsias e medos, ritmos sincopados,

Melífluas aflições de poetas embriagados.

 

Escrevo sem saber que irei dizer agora,

Para mandar o tédio e a lucidez embora

Escrevo para crer no canto das sereias,

Ou ninfas a correrem nuas p’las areias,

Trocando mil carícias, dedos, mãos e braços

Imaginando Safo entre beijos e abraços,

Sejam, versos meus, eflúvios, sal, suor

De selváticas fêmeas cheias de langor.

 

A sugestiva orquestra de mãos, braços, dedos

Onde se afogam mágoas, dores, ânsias, medos,

Aliviando a cólera contida de pirata,

Roubando ao Sol o ouro, à Lua cheia, a prata,

Polvilhando de pós, óleos e especiarias,

Os corpos esculturais cheios de ninharias

Sejas, verso meu, o dedo que adivinha,

No cálido segredo o enigma que não tinha.

 

Escrevo sem saber de rima, regra, ou ordem,

Por uma vez na vida, escrevo na desordem,

Mas saberei daqui a uns breves instantes,

Se deverei cessar o que comecei antes,

Repara, flor-de-lis, a noite branda cai

Sucumbe ao inevitável. O olho do Sol descai,

Afasta, sonolento, azuis lençóis do mar,

Poema, abres a boca… Tens sono! Vai-te deitar!

Horas raras

Que aroma doce vem destes pinheiros!

Trazem-me mil imagens da infância,

Aqui, na verde e idílica Constância,

À sombra dos simpáticos salgueiros!

 

O lento deslizar das águas claras

Do Zêzere, beijando o Tejo antigo,

Aqui sinto um conforto, um tal abrigo

Como na vida estas horas são raras!

 

Abranda, ó Tempo, para que ler possa

Os versos manuscritos pela mão

Divina e generosa Mãe Natura;

 

Ando à procura desta Inspiração,

Do cio desta brisa que se roça,

quente, no meu corpo, com ternura

Boomerang

Tens a vontade

Mas não consegues,

Por mais que afirmes

(Não! Não mo negues)

Dar rumo à barca,

Dobrando o vício,

Na pedra, a marca

É teu suplício

Dobrar o Cabo

Da Boa Esp’rança

Não é brincadeira,

De uma criança,

Dobrar o Cabo,

Do Bojador,

Por não ter tido,

Sorte ao amor…

 

Terás, no entanto

Vontade imensa

Se a dor for tanta

Aguda, intensa,

Soltando o grito

Medonho, à noite

Dá-nos maldito

O Tempo açoite.

Olha-te ao espelho

Diz-me o que vês

Escreve-te a ruga,

Tua pequenez,

Essa arrogância,

Vem da vontade,

De uma criança

Sem Liberdade.

 

Brinco, brilhante

Pulseira, anel,

Colar de pérolas

Concha ou cordel,

Mulher sem graça

Fêmea sem fama

Passaste a vida,

Colada à cama,

Colando a ti,

Miséria e fome,

Já me esqueci

Teu pobre nome

Seda ou cetim,

Conde ou Condessa

A Vida passa,

Passa depressa!

No Paraíso

Passava o tempo todo a olhar pra ela,

Como se olhasse o abismo, vago e frio

Vivia sem lançar meu mal ao rio

Da vida, falo. Um dia hei-de vivê-la,

 

Rasgar todas as plantas de arquitecto,

Que concebi, só por não ter mais nada

Sentir que a ansiedade foi levada

Esquecida, qual inútil, vil objecto.

 

Ó triste sensação colada à alma

Ao Pégaso atrelada, à fantasia

Quanto no meu passado me isolaste,

 

Vedaste-me o jardim florido em calma

Da cor da infância, minha Ode à Alegria.

Serpente, com teu mal, bem me enganaste!

Longa vigília

Saúdo-me na noite silenciosa e terna,

Na longa vigília, estirado na cama da minha alma,

Saúdo-me, ó nervos eternamente em reboliço

Revolto, como as águas frias do Pacífico,

Saúdo-me, sozinho. Não há ninguém para saudar-me,

Saúdo-te a ti também, vizinho anónimo, desconhecido

A ti, palmeira, a ti arbusto, a ti, ó flor

Os carros em fila parados, dormindo, à espera

Que os reanimem e os levem daqui para fora.

 

Saúdo a mentira atroz dos solitários doentes

Saúdo-me porque uso do verso livre para mentir

E toda a literatura que fizera, a que farei, e a que não faço,

É toda uma saudação das sensações imprevisíveis

Saúdo-vos, almas artísticas, poéticas, desconhecidas

Perpetuamente inquietas, doridas, amaldiçoadas

Por lhes vedarem a felicidade e não os olhos,

Por lhes barrarem o caminho à porta da fama,

Por lhes estenderem a mão, como esmola entregue ao pobre,

E disto o pobre ri-se e alegra-se com pouco,

Por suas almas ascenderem realmente à escada do céu,

Por haver Beleza, por haver Vida, por haver Morte,

Por que se abrigam da ignorância

Como se chovesse torrencialmente a noite inteira,

Saúdo-vos a todos, a todos como eu, diferentes de mim,

Saúdo-vos, sem rostos, amigos desconhecidos.

 

Saúdo a estrada, lá em baixo, dos carros quando passam,

O mar que não vejo, o rio que alcanço, a Lua escondida

As estrelas, testemunhas fixas, cintilantes,

Dos nossos feitos, dos vossos feitos, dos meus feitos,

Únicas admiradoras do que plantamos e erguemos,

Únicas ouvintes da nossa angústia única.

Ah, não ser a estrela mais brilhante dum céu inexistente,

Ah se fosse o orvalho matinal na primavera

Ou chuva milagrosa e miúda, e regasse as flores,

Lhes desse cor e as podasse, e as ouvisse,

Daria para ser jardineiro no lugar de poeta,

Pois este solo fértil, terra branca e ampla de papel,

Farta-me e cansa-me, embala-me, enjoa-me,

Como se viajasse num cruzeiro sem fim,

Ou fosse ilha inexplorada no meio do Pacífico.

 

Quem serei no futuro para me saudar,

Ou para me vaiar, desfazer em cinza ou sonhos de espuma,

Crescer-me hera à volta, cobrir-me de musgo verde

E libertar-me, explodindo de vez, Big Bang em mim

Cessando o farejar da natureza dos outros,

Como o cão ladra quando pressente a presença de um estranho?

Irão ter comigo os que me amam,

Esperar-me-ão à entrada do palácio do outro mundo,

Ah, vida, que não sei saudar-te de outra maneira,

Senão pôr em papel às escondidas

Pois ser poeta é estar doente da alma

Ter gula de sentir mais o que outros sentem,

Ter ganância de sentir o que mais ninguém sente

Sem que em vida desejasse ser

Isto que não sou…

Desconversar

Caiu-me um tédio como tromba de água

Que vendaval! Veio sem prévio aviso,

Suspiro, impaciente, tenho a mágoa

Não ser teu lago fundo, tu narciso.

 

Escorreguei no chão limpo, brilhante,

Lavado com a vil promessa e dei,

Um trambolhão, assaz desesperante

Que fiz? Que disse? Ignoro, isso não sei.

 

Eu sofro de ansiedade, desespero

No decorrer de insípida conversa.

O hálito do tédio é desagradável;

 

É meu defeito, é nítido, mas quero

Que a sensação de ausência seja inversa

Porque a conversa foi muito agradável

A casa das minhas tias

Deu-me para travar esta torrente,

De cristalinas lágrimas. Que aperto

Ver lugares onde fui contente

Em ruínas! Ó Tempo, que desconcerto!

Parecia que as vinhas me falavam,

Falar-lhes agora é impossível,

Tombaram, onde sombra me espalhavam,

O tempo passa certo, exacto! Incrível!

 

Rústica casa alegre, ó minhas tias

Ficou apenas vosso a vossa alma,

A mesa, onde pousavam iguarias

Coberta agora de hera, morte e calma

Estranha, oposto à vida que antes via

Com olhos postos só no meu futuro

Sinto quase a voz de quem dizia

Que: “tu, menino tens coração puro.”

 

Caminhos de pedra que guardais

O murmurar das horas que passava

Cantando, incauto, alegre com pardais

Fingindo que a videira me adorava.

Ó rústico lugar, hoje moderno

Aqui e ali, a estrada, a mão humana,

Deu-me a mudança tempo, fogo e inferno

entregue a gente má, vil e profana.

 

Cuidaram possuir, não de guardar

No fundo este lugar serviu de herança

Tristes, meus olhos vêm a passar

Minhas tias, quando ainda era criança

Ali guardavam coelhos e galinhas

Onde passava as horas perto delas

Ouvindo frases simples das vizinhas

Entre risos, nos olhos, piscadelas.

 

Os cachos cheios de uvas purpurinas,

Aquela sombra entrecortada a meio

O riso colorido das meninas,

Vindo de longe, sempre sem receio

Logo na entrada as boas vindas dadas,

Por majestosas rosas que aspirava

Odor paradisíaco, desmanchadas

Em risos, onde a brisa as suavizava.

 

Zumbiam no ar exércitos de insectos

Contra as abelhas, vespas conspiravam

Entre heras, silvas, árvores e fetos

Contra abelhas, as vespas guerreavam

O gato, pachorrento, sempre perto

Aninhado aos pés das minhas tias

Contando histórias dele, de tão esperto

Como era inteligente todos dias.

 

Que aperto! Aquele poço de água fundo

De pedra, pensativo; o tanque, ao lado

Sempre útil, jaz agora, moribundo

Antes, cheio de água e espuma, hoje quebrado…

Deixas-me, ó tempo, a marca da certeza

Viver hoje, mais tarde, relembrar

Vivo às apalpadelas na incerteza

Se hei-de voltar aqui a este lugar.

 

Trancado a sete chaves, interdito

O silêncio sepulcral do abandono,

O suprimir da lágrima, do grito

Este lugar ser hoje um cão sem dono,

Onde prosperam ervas esparsamente

Onde já ninguém ri, fala nem vive

E o tempo corre, corre lentamente

Saudade, ó coração: pulsavas livre,

 

Meu sentimento torna-se sombrio

Torno-me pensativo, sorumbático

Meu trémulo coração geme de frio

Olho distante, vago, fico apático,

Meu lábio descaído, olhos brilhantes

Aperto o pranto à porta do meu ser

Repito, intimamente: “como era antes

Sinto-me este lugar, a envelhecer…”

Os olhos

Que dirão meus olhos?

Que incómodos e constrangimentos provocarão nos outros?

Que ar senhoril, que fome, que sede revelarão,

Do espírito e da alma, mais imprevisíveis que o Universo,

Mais que os caprichos impostos e impossíveis de mulher?

Que ar decidido ou indeciso,

Sabedoria ou estupidez, seguro ou inseguro,

Sonhos fantásticos ou ausência deles,

Que ânsias ocultas esconderão por necessidade fictícia,

Não revelando a feroz necessidade de me lembrar de tudo?

Que força ou fraqueza, vácuo ou universo,

Que ideia, como um rótulo inútil de garrafa velha

Colocarão de mim, através dos olhos?

O Louco

Bem sei que sou sinistro quando passo,

Absorto, não na vida, só no verso

Fanático, maluco, controverso

Que viajo com os olhos pelo espaço.

 

Bem sei que num queixume me desfaço

Distante, pensativo, vil, perverso

Com ar de imperador do Universo…

Afasta-te, se tanto mal te faço.

 

Não te pedi que viesses ver-me à hora,

Igual a muitas horas de outros dias,

Segue teu curso, eu seguirei o meu:

 

Se sou a noite eterna, vai-te embora

Levando teus caprichos e manias,

Tenho a loucura, o dom que Deus me deu.

Diário Citadino

Saber o que não quero é acessível,

Meu qu'rer é a longa linha do horizonte,

Tenho funestas ânsias de Faetonte,

Meu desejo nefasto e impossível.

 

Meu ninho quente, doce e morno lar,

Persigo a sensação absurda e rara,

Saber o que me inspira, o que me ampara,

Como encontrar no céu a estrela polar.

 

O que me envolve aperta-me o pescoço,

Tirano dedo que me aperta a ferida,

Vi sempre minha vida dividida

Entre o que nunca pude e o que não posso.

 

Relembro vagamente a doce infância

Navio que se afasta do amplo cais,

Cravam-me estas imagens mil punhais

Vivo a gerir, fatal, minha inconstância.

 

Se não gravasse o mundo que me envolve,

Vivesse o dia a ver o sol esconder-se,

Veria o pensamento a desfazer-se

Em branca espuma: o mar, tudo revolve.

 

Penetro, na cidade, túneis escuros,

Cheios de crime e sombra, luz e pânico

Sonho ser imortal, poeta titânico,

Sonho co’ a exactidão dos versos puros.

 

Guardo o arrastar sinistro dos papéis,

Espalhados como folhas outonais,

Tapete dos mendigos ancestrais

Que dormem juntos de ricos painéis.

 

Guardo o rugir mecânico, sinfónico

Dos incontáveis carros melancólicos,

Os cânticos sem esp’rança dos alcoólicos

Do infortúnio, em som estereofónico,

 

Da milagrosa luz dourada e terna,

Lançada pelo louro Apolo, ao vê-lo

Passando os dedos pelo seu cabelo,

Ao fim da tarde cansativa, eterna.

 

No vago olhar, disperso de quem espera

Vencido, paciente, o fim dos dias

Por entre gente cheia de ousadias,

Com vestes ricas, ar de quem impera.

 

O alívio dos comboios cheios de gente

O ensurdecer horrível na cabeça

Que aperta, empurra e passa quem tem pressa

Custa viver a vida calmamente.

 

As plataformas de pessoas cheias

Parecem juncos, canas ondulantes,

Maleáveis flores, cores deslumbrantes,

são menos, as bonitas; mais as feias.

 

Respira-se o ar pesado, a impaciência,

Pungente grito agudo da criança

Ser Mãe constantemente é duro e cansa

Esta é a Lei da Divina Providência.

 

Cravam-se olhos ansiosos nos cartazes,

Revistas e jornais, filmes, concertos

Eu que procuro oásis nos desertos,

Tento fazer comigo mesmo as pazes.

 

Minha imaginação é uma mesquita,

Com cúpulas douradas onde o céu

Se oculta com um verso íntimo, meu

Quando a inspiração rara me visita.

 

Se meu sustento viesse do talento,

Que há muito tempo tive no passado,

Eu viveria alegre, abençoado

Tapando a boca imunda ao pensamento.

O Extremista

Às vezes sou selvagem,

Arrogante qual leão,

Sou às vezes tão submisso

Infeliz qual pobre cão,

Às vezes sou a águia,

Escolho o alvo, vejo bem

Lebre esquiva, aventureira

que no prado corre além.

 

Às vezes sou violento,

Sou abstracto, indefinido,

Mórbido, imundo, nojento

Receoso, destemido

Sou às vezes leve brisa,

Valiosa no Verão,

Sou a ilustre Mona Lisa

Ardendo num caldeirão

 

Às vezes sou a cobra,

Mordente nos mil dizeres

Sou equivocado como,

Nobre povo em seus dizeres,

Às vezes uso a máscara,

Personagem teatral,

Para quem não me conhece

Para quem me quiser mal.

 

Brando, às vezes como o rio

Fresco Zêzere, vagaroso

Celebrado, antigo Tejo

Imortal e lacrimoso,

Às vezes sou sonhador,

Petulante e atrevido

Melancólico, tão triste

Numa teia envolvido.

 

Às vezes sou o tigre,

Camuflado solitário,

Repelente, sou miséria,

Quanto vale meu salário,

De poeta, que não sabe

Quanto vale em peso de ouro,

Ignorando se seus versos

Luzirão como um tesouro.

 

Às vezes falo em código

Sem querer codificar-me,

Sem haver valiosa pista

Se preciso desvendar-me,

Às vezes traço um círculo,

Definido, inconsciente,

Fogo ardente que me impede

Ver a Aurora do Oriente.

 

Sou às vezes intranquilo,

Sou mar temperamental,

Esquivo às vezes qual esquilo

Fugitivo de seu mal,

Sou no ar veloz falcão,

Paira sobre verdes montes,

Procurando que comer,

Metáforas, novas fontes

 

Sou a rectilínea sombra,

Da cidade, nas conversas

Sou um manto espesso, escuro

Nas palavras mais adversas

Às vezes sou semanas,

Que nos custam a passar,

Longos anos, longos dias,

Que ninguém quer recordar.

 

Às vezes sou espinhoso,

Do aromático pinheiro,

Qual cipreste, arbusto, planta

Choroso como o salgueiro,

Agressivo se sentir

O perfume da mentira,

Brando se oiço alguém cantar

Como nunca antes ouvira.

 

Sou assim, Outono Inverno,

Primavera e o Verão

Espasmo feito de lembrança,

De esperança e solidão,

Sou o abraço do soldado

Que abraça sua mulher,

Na sofrida despedida

Que anseia voltá-la a ver.

 

Sou colina, sou rebanho,

Sou as ervas, sou comido,

Pelo tempo ruminante

Pelo mundo sou bebido,

Dobradiça de uma porta,

Que se impede de fechar,

Sou a chave a porta abrindo

Pra sair de mim e entrar.

 

Sou o claustro de mosteiro,

Muro das lamentações

Sou fiel, sou companheiro

Combatendo tentações,

Sou demónio do céu expulso,

Ascendente alma do céu,

Beijo abraço por impulso,

Talento que deus nos deu.

 

Tenho livros, bibliotecas

Lidos nos meus vagos olhos

Tenho CD’s, discotecas,

Bandas, músicas aos molhos,

Tenho vícios e maus hábitos,

Como qualquer animal,

Sou artista, sou guerreiro

Demoníaco, angelical.

 

Sou límpida água de um lago

Numa floresta encantada,

Sou fétida água de um lago,

Na cidade condenada,

Sou doença, verme, insecto,

Sou a cura, a mão que mata,

Coração puro, impuro,

Mão que o nó ata e desata.

 

Tenho o dom ser toda a gente,

Maldição não ser ninguém,

Tenho dois pólos na mente

Tenho o que mais ninguém tem:

Nem que seja único nome,

No que fiz, no que farei

No que vou escolhendo em Vida

Se da Morte eu nada sei.

Distância

A que distância estou de ter coragem,

Meu coração? A que distância estou?

É ténue a linha, é nítida essa imagem

Quem foi que à alma os punhos meus atou?

 

Quero encostar a minha mão ao medo

Da cor da noite, frio qual Inverno,

Vivo hesitante entre este Céu e o Inferno

Aurora da vontade: ergue-te cedo!

 

Perdi a lucidez do quanto valho,

O fio atado à mão num labirinto

Sabendo no regresso para onde ir;

 

Fui pôr em falso o pé em falso galho

Quebrou-se! Meu destino é-me indistinto,

Talvez me possa um dia descobrir

A Bela Flor

Eu costumava ler-te e as noites prolongar,

Bebido de licor da cor dos teus sonetos,

Extasiado e lânguido, um rio de luar

Ler-te… que ficassem os meus olhos pretos.

 

Contigo, embriagada, bela na moldura,

Posta fielmente ao meu lado, chorosa,

Coberta por um xaile negro de ternura,

Para beber teus versos, poetisa amorosa.

 

Porque sentia ter a tua inquietação,

O teu pulsar inquieto, a fome insaciável,

A atroz melancolia, a doce solidão,

No róseo entardecer, benigno, memorável.

 

Velho, perturbado, eu rejuvenescia

Ao ler-te, embriagado por rubro licor,

Até fragrâncias novas tuas recolhia,

Desse amor colorido que era a tua dor.

 

Mágica, atrevida, rábida, envolvente,

Seguia-te as pegadas dos teus pensamentos

Pondo nos meus versos o teu beijo ardente

Para esquecer a dor, com mil atrevimentos.

 

Subiste à tua torre e perguntaste a quem,

Vivera como tu, nessa doce amargura

Tu que és da mulher símbolo, já no além

Diz-me o que é melhor: a vida ou a sepultura?

 

O teu rosto redondo, pálido e mortal

Parecia mergulhar na reflexão da Lua

Teus olhos perseguiam um canto imortal

Que te dera fraqueza igual a quem jejua.

 

Rainha da ansiedade à espera que viessem,

Pôr cobro à agonia, e que te amassem bem,

Coroando-te de abraços, mil beijos te dessem

À espera de notícia alegre que não vem.

 

Amo a definição que tens de ser poeta,

Saber que foste aquela que andou cá perdida

Amo os que seguiram sempre em linha recta

Dando encontrões à morte, e pontapés à vida.

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  169. D