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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Sobrevivência

Há quem não suporte a carga do cargueiro,

O peso do Universo dentro da cabeça,

Lançando seu martírio ao mar com nevoeiro,

À espera que se torne a vida uma surpresa.

 

Há quem não suporte a chuva, a neve, o frio

A fúria glacial pedindo o sol a deus

Lutando agarrado a um ramo contra o rio

Amaldiçoando a vida, amaldiçoando os céus.

 

Há quem siga o rastro da estrela cadente,

A cauda flamejante rara do cometa,

Uma vez só na vida, achá-la deslumbrante

Qual épico poema de imortal poeta. 

 

Há quem, incansável, escave a dura terra,

O ouro tem a cor de um sonho de criança

Há quem se apaixone pela verde serra

Guardando o odor que traz do ar verde esperança.

 

Há quem por vaidade queira ser amado,

E que deseje ser um deus na terra vivo,

Mesmo sendo uma fraude, belo, idolatrado

Ofuscado por luzes, p’la fama cativo.

Lisboa em pleno Agosto

Corro atrás do tempo como um louco,

Estendo a minha mão, mas não consigo,

Chegar-te, ó livro, silencioso abrigo,

Para que não me saiba o dia a pouco.

 

Corro atrás do verso que não escrevo,

Agora vejo o quanto outros ousaram,

Agora vejo o quanto outros cantaram,

O que não canto, e nem sequer me atrevo.

 

No rosto em chamas da minha secura,

Corro atrás do sopro desta brisa

Sorrindo suavemente a Mona Lisa

Falta-me um químico que é a loucura

 

Tudo o que vejo, lembro, adoro e amo,

Me maravilha, eu que não fui além,

Das ilhas lá de Espanha. Sou também,

Do tédio um fugitivo, aflito gamo.

 

Corro atrás de fantásticos sonhos,

Guardados no meu íntimo inquieto,

Ando, nas conversas, circunspecto,

Fixando no vazio olhos tristonhos.

 

Invade-me uma agonia experimental,

Berrando-me aos ouvidos da minha alma,

A carteirista que me rouba a calma,

Enquanto eu viro costas ao meu Mal.

 

Não me demoro muito na conversa,

Pois corro atrás do tempo, atrás do vento,

Para gritar-lhes só meu pensamento,

Com o estrépito do grito que é meu verso.

 

Anda atrelado à gente a depressão,

Da crise, a gripe, a morte, a agonia,

Maldita sombra em cima deste dia

Vive-se afeiçoado à maldição,

 

Ter corpo, carne e osso, caprichoso

Sentir fome, ter sede e ser complexo,

Roçar-se pelos céus por não ter sexo

Gemer no escuro como um cão raivoso.

 

Cidade antiga cheia de fantasmas

Foram-se embora, sem deixar saudade

Que estranho amor, amar esta cidade,

Cheirando a vício, a éter, a miasmas.

 

Os meus ouvidos sangram diariamente,

Tenho comboios dentro da cabeça,

Perco-me facilmente na conversa,

Com um velhote exausto, tão doente.

 

Corro e corro…mal respiro… e corro

Ando sem fôlego, ofegante e morto,

Lívido espectro, farto andar absorto

Sou mancha de óleo e na cidade escorro.

 

Sinto-me entrar dentro de um lar qualquer,

Vendo num livro o sol da absolvição

Passando a tarde inteira a ler, a ler

Fugindo à conversa sem coração.

 

Eu corro atrás de tudo, atrás de nada

Sou vagabundo posto num cubículo,

Fechado, exposto num mundo ridículo

Como um poeta chora a sua amada.

Sobra a alma

Tão bom! Que bem que sabe a suave brisa,

Que paz me traz neste escaldante Verão,

Que embalo tem o vento que me avisa:

Tão bom que é ser gente, ter coração,

 

Sorrio. Sigo o voo da andorinha

Radiante, se não há falcão por perto

Que paz na minha alma num deserto,

Nas dunas lisas onde anda sozinha.

 

Ter alma é ter no corpo um infinito,

Um sol em si, um céu, vasto universo,

O nosso corpo é esta fecunda terra,

 

Ter alma é poder soltar dentro um grito,

É ter fecunda árvore, o fruto, o verso

Um eco a propagar-se além da serra

Temporal

Os meus poemas são meus improvisos,

Contínuos traços como a própria vida,

Em linha recta, às vezes, mas perdida,

Entre mil pensamentos imprecisos.

 

Contemplo as coisas como um sonho errante,

Caminho sobre o abismo da conversa,

Chega-me a sensação tão controversa

Que incrível é viver! Que perturbante.

 

Em procissão no céu as nuvens passam,

O bando de estorninhos de manhã,

«Existirá pra nós novo amanhã?»

Desconhecidas vozes que embaraçam.

 

O olhar por cima do ombro do tempo,

Nas quentes e abafadas noites de verão,

Esmaga-me o fascínio, a sensação

De ser as próprias coisas que contemplo.

 

No início, um suspirar breve do vento,

O deambular de alguém que anda perdido,

Morcego à noite, homem divido,

Entre viver longe do pensamento.

 

O mundo oprime. Obriga andar-se bem,

Fingindo o esforço enorme do amor

Que se não fosse feito maior a dor

Seria nesta terra e céu também.

 

Que digo, nada é só meu improviso,

Divagações de um velho ainda novo,

Quem diz verdade é sempre a voz do povo

Cansado, justo, pobre e enraivecido.

 

Que deambular, à luz do candeeiro,

Se o mundo dorme, eu não quero dormir,

Penso no que serei depois de me ir,

Se tenho sido falso ou verdadeiro.

 

Como se me envolvesse o nó da corda

Envolta no pescoço angustiado,

No fundo, ando soturno, ando cansado

Berra-me ao ouvido a Morte escura: «Acorda!»

 

O sol é belo, quente, universal,

Com língua de ouro fala à muda terra

O céu cerca-me o sonho, a paz dá guerra

Vislumbro no horizonte um temporal

 

A palidez mortal da realidade,

Escorrendo um suor frio e venenoso,

O desespero ambíguo, cavernoso

Saber-se que se avança só na idade.

 

O ter que ter um sonho, um deus e crença

Fujo desta doentia religião,

Já basta esta profunda confusão

Eu quero erguer-me sem lançar ofensa.

 

Ser triste se motivo houver pra tal,

Alegre se vier a alegria,

Trazei-me um copo de água e poesia

Para matar-me a sede universal.

 

Meus olhos são dois pontos esbranquiçados

Meu rosto estreito frio e cadavérico,

Meu espírito inquieto e esotérico

Escrevo com meus sentidos revoltados

A Mão Divina

Agora entendo o mundo: ordena e trata

de pedra o homem não pare, nem se deite

Julgando bela a vida com deleite

Insciente. O movimento nos retrata

 

Bralhando em cada rosto esta vontade,

Suprema, solitária até divina

É este tecto azul que me destina

Nunca parar, viver sem liberdade.

 

Mas quem não aprecia o que lhe envolve?

Quem nunca melancólico, ocioso,

Sentiu descer esta mão sobre si?

 

Que vida! Em movimento nos revolve

O mais que desejei e, rigoroso

Sinto esta ordem de alguém que nunca vi.

A Princesa-Arranca-Corações

Passei pelo Triângulo das Bermudas,

Teu corpo de seráfica sereia,

Volúvel, meu olhar nele receia,

Pousar como tu fazes e me estudas,

 

Poderá ser que um dia assim me iludas,

Como pedras se confundem com nenúfares,

Porém, tens o prazer de me estudares,

Desabe o mundo, enfim… tu nunca mudas!

 

Corpo ondulante como a cobra de água,

Que vício, frequência, campo magnético,

Incrível vendedora de ilusões;

 

Há quem ame o perigo, a dor, a mágoa

Fica-se fixo inerte em ti, patético,

Minha Princesa-arranca-corações.

O começo

No adorno do verso forjado, no verso que sinto,

Torna-se-me abstracto o sentido, onde me desminto

Agora tão perto do berço da minha loucura,

Converto ansiedade no aperto que cause ternura,

 

Que seja sereno e bondoso como aquele moinho,

No cimo do monte tão verde, tão leve, branquinho,

Que seja, não a despedida, mas novo começo,

Sabendo explicar-me o porquê chamar-me Codeço.

 

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