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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Interrupções

Que ninguém me interrompa enquanto escrevo

Nesta escalada de alma adormecida!

Fiel, tornei-me dela há muito um servo,

Depois que me encostei à flor querida.

 

Enquanto ninguém vem, escrevo um poema,

Ninguém me empurra ou cala a voz sumida

Apenas sinto a vida dividida

Mesmo que não contenha um alto tema.

 

Depressa enquanto sou porção de terra

Que ninguém trava o tempo nem me encerra,

Num cárcere vazio que há no dever;

 

Resta-me apenas uns míseros minutos

Tornam-se os amplos versos diminutos

Até que outra vez sinta entontecer.

Entendimento

Não tens que me entender! Eu que me entenda,

Lá bem no fundo eu fui quem me afundei

Da escarpa pedra solta me soltei

Sonhei que em vida era capaz ser lenda,

 

Não tens que compreender feroz contenda

Quebrado como rija e seca noz

Comprometi-me usar a minha voz

Quando esmoreço ou não me compreenda.

 

Talvez seja artimanha deste tédio,

Que sinto diariamente forte assédio,

Como o lilás das nuvens neste Outono;

 

Vezes sem conta, eu já tentei matá-lo,

Ouvi-lo, conhecê-lo, subjugá-lo

Pra encarcerá-lo na Mansão do sono

Anjo e Demónio

Já fui menino mais bem comportado,

Também já me chamaram bom rebelde

Ó sábia Musa, diz-me: que me impele de

Ser estes dois, maldito e abençoado?

 

Já fui demónio vindo dum Inferno,

Onde se encerram culpas e remorsos

Cravei dentes e garras em mil dorsos

Fui Primavera, verão, Outono, Inverno.

 

Toquei pra muita gente em pensamento,

No vácuo informe, imundo, insubstancial,

Canções, onde na flor prospera o verme

 

Mas nunca quis viver de fingimento

Fechado num silêncio sepulcral

Em que nunca fui Rei só por vender-me.

Verdadeiro e Falso

Verdades ocultadas cá no mundo

que nos parecem mal mas que era Bem

Haverá sempre quem escave fundo

Doendo a quem o mesmo mal contem.

 

Mentiras, que se mostram com disfarce

No tempo em que se vive só mais tarde,

É quando o Mal está prestes a safar-se,

Que chega essa donzela, essa verdade.

 

Em grande escala pregam-se partidas

Como crianças brincam às escondidas,

Entre calúnia e infâmia assim se move

 

Um mundo que transborda de Beleza

A garra que nos crava a Natureza

Sem cura que nos cure e nos renove.

Atrevimento

Repouso um pouco agora deste ofício

Que é pôr em verso sóbrio um pensamento,

que incide como o sol meu sentimento

Pois não fazê-lo em vida é meu suplício.

 

Porque se do prazer passa pra vício,

Cria-se deste vício uma cegueira,

Bem embalado vive o verso à beira

De ousado se lançar dum precipício.

 

É só porque amo e quero este fascínio,

Vivo milagre, andar vivo na terra

Expresso num papel branco de neve

 

Mas fico nesta alvura. Meu declínio

Está onde ondula aquela linda serra

Lugar onde ir ninguém vai nem se atreve

Ao fim da tarde...

Ainda é quente o sol em pleno Outubro

Criança, ao céu pedindo mais um pouco

Brincando morno ao fundo do mar rouco,

O sol, que ao céu espalhava um tom mais rubro.

 

Parecia encher as mãos com finos raios

Depois com brusco gesto os espalhava

cardumes de cristal ao Tejo dava

Até sentir seus lânguidos desmaios.

 

Toda a riqueza espalha pela terra

Ignora ao que é divino, ao que é humano

Sem ver quem lhe notasse o gesto nobre,

 

Por Dafne ainda espreitava pela serra

Escrevendo no crepúsculo seu engano

Os versos que de Amor nunca foi pobre

A dança

Dancemos nosso alegre menuetto

Lá fora o mundo triste adágio dança,

Bailando num momento de esperança

Em que também depois há o allegretto.

 

Pequemos como eu peco num soneto

Rasgando, de escrevê-lo, leis antigas

Que as regras são, por vezes, inimigas

De quem procura o verso mais directo.

 

Amemo-nos antes que chegue a trágica

Hora em que a vida, amor, chama escarnece

De haver sempre na vida outro dever;

 

Deixemos que esta noite seja mágica

Brilhando a Lua enquanto um manto tece

Dizendo: "Não há mais nada pra fazer!"

Dor de Cão

Dói-me a cabeça de ouvir a Verdade

Andar de boca em boca a ser mentira

Como este verso, dói-me a Liberdade

A cor dum sonho antigo que extraíra.

 

Dói-me a flor esmagada e perseguida

Por duras mãos da que chega atrasada,

Dói-me a ave caçada ou de asa ferida,

E a moderna Babilónia arrasada.

 

Dói-me este céu sem passado ou futuro,

Da máquina uma vibração constante,

Onde o silêncio puro é esquartejado

 

Dói-me haver guerra e paz e miseráveis

De haver terror e espanto inexplicáveis

Dói como aquele cão abandonado.

 

(Este soneto é dedicado ao cão que possivelmente,

andava desesperado à procura do seu dono)

Insatisfações

Hei-de hoje ter um sonho diferente,

Oposto ao sonho de ontem, de amanhã

Não sei que sonho plantarei na mente,

Se sabe a cinza, framboesa ou romã.

 

À vida hei-de agarra-me nestes dias

Que as horas passam como nuvens brancas

Que escrevem com os astros profecias

linhas vagas como as que me arrancas,

 

Nas ervas crescem plantas tão diversas,

Como entre bons amigos as conversas

Porque não tenho mais que em mim floresça?

 

Abrindo o peito aos céus, confuso e gasto

Porque me escapa um mundo belo e vasto

Esta escada que desço há mais que desça

Perante o Mundo

Perante o mundo, nada me envergonha

Em ti, que em cinza escura me desfaço,

Guardo o que penso, apenas se risonha

Transformas ousadia em embaraço

Porque bem sei que me escorre da boca

Um rio sem remorso, de alma louca.

 

Perante os astros dou-te a palma a glória

Num sonho de alcançá-las, na conquista

Aos céus, não gritarei sequer vitória

Podendo só tocá-las com a vista

Mas se te exibes ao meu lado nua

Além da Cassiopeia, beijo a Lua.

 

Perante o deus que crava seu tridente

Gemendo a Mãe Natura de aflição,

Mergulho nesta imagem lentamente

Como se ouvisse a voz do coração

De ter-te num pequeno ameno espaço

Sentir o deus azul no nosso abraço.

 

Meus olhos turvos líquidos avistam

Montanhas coroadas de alva neve

Tão perto, minhas mãos, amor, conquistam

As que de conquistar ninguém se atreve

Mas não das partes que meus olhos prendem

Que algumas de presente dão e vendem.

 

Devo ocultar tamanho sentimento

Ou deleitar-me só no meu segredo

Sincero, hei-de expressar meu pensamento

Assusta-me não tê-lo, é só meu medo

Deixar de olhar-te como uma criança

Imune ao mundo, triste e sem esperança.

 

das árvores deténs molhadas sombras

Onde me deito em sonho se me sento

No branco imaginário onde me assombras

Quando te invade um mau pressentimento,

Brotam das folhas presas nos teus ramos

Os frutos proíbidos que gostamos.

 

Eu que na vida procuro Beleza

Paixão ardente que a obsessão me soa

Sigo-te o rasto ouvindo a Natureza

Vindo também dum canto que me entoa

Da alma brilhante tua aureolada

Angélica, terrena, humana, amada.

 

Mas também negras nuvens amontoas

Se espreitas mil perigos nos meus olhos

E quase me condenas se apregoas

Roucas árias marítimas de escolhos

arranjos feitos pelo deus levado

Instável, por cavalos, adorado

 

Repousa docemente no meu ombro

Quando escurece a tua clara mente

De noite escolho penetrar no escombro

Nas tuas conclusões, naturalmente,

Onde mergulhas não num mar que tenho

Mas nesse mar que tens, obscuro e estranho.

 

Será na inversa face nesse amor,

Ou lá que seja, nobre, indefinido

Na face oculta expressa nessa dor

Como se me encontrasse em ti perdido?

Oiço morcegos, ouve-se a coruja

O coaxar das rãs na água suja.

 

Mistério, oiço de noite a revelar-se

Em vendavais que a terra inteira oprimem,

De Eólo ira dos ventos a soltar-se, 

ritmos sincopados que me imprimem

Nossas palavras, brusquidão nos feitos

As armas apontadas aos defeitos.

 

Sereno quando a claridade embate

Num quarto molhado só de escuro

Vejo o campo que ontem foi de combate

Hoje ser um lugar bem mais seguro

Pois tu perante o mundo entendo o mundo

Bebo as horas da vida num segundo.

 

A uma mente pouco aberta

Uma resposta a dar-te eu tenho ainda,

Nesta azulada e cândida manhã,

Torna-se na demora a vida vã,

De estar em falta nesta manhã linda.

 

Atraco a minha barca do dever

P’lo telescópio tento avistar estrelas,

Num amplo céu que tenho, as sentinelas,

Das coisas que desejo ainda fazer.

 

Que importa o que me queiras? Qual aranha

Olhas-me de uma teia pegajosa

De transformar-me a vida numa rosa,

Trazendo nas palavras sujas, manha.

 

Não, minha senhora. Não está feito

O que me pedes. Dói-te por não querer-te,

Resposta dar, desperto por não ver-te

Pois sempre fui o ser-mais-que-imperfeito.

 

Tu, que sempre querias que eu só fosse

Mais uma inútil vírgula sem contexto

Eu que me recusei entrar no texto,

Monótono, insípido sem posse.

 

Eu que me sentava à tua frente

Anónimo, discreto, e infeliz

Guardando na minha alma o que não diz,

A tua alma passada sem presente.

 

Eu que já me importei com teus trabalhos,

De frívolos papéis que caem como,

As folhas num caderno escrito um tomo

Final, discurso vão dos teus orvalhos.

 

Praticamente, flor, tudo me falta

Início, desenvolvimento e Fim

Tenho um demónio a mais que fala em mim

No entanto, nunca a tampa, flor, me salta.

 

Porque não estendes sobre a mesa a Lua

Guardada no teu íntimo segredo?

Tua áspera vivência é meu degredo

Apenas paira a sombra em ti e flutua.

 

Como uma excelsa Mãe que ao filho pede

Prudência, antes do tempo, me pedias

Que não vivesse (e nunca desistias)

Que não matasse nunca a minha sede.

 

Perdão, por ver-te posta num retrato

Velha moldura, gasta de madeira,

Vejo-te em nova, uma velha oliveira

Flor murcha, haste cortada, ignóbil cacto.

 

Nem deixas que haja sol nem que apareça

Na terra adormecida no horizonte,

Coroa alaranjada que defronte

Me acaricia a fronte sem promessa.

 

Explicar-te o que sou hoje, o ser assim

Inútil desafio num poeta

Ó minha flor espinhosa pouca aberta

Eu nunca levaria a empresa ao fim.

 

Que importa mais que este ouro nas paredes

Me douram como velas numa igreja

Lembrando um sol gentil que há muito beija

A terra, libertando o que me pedes.

 

Coloco uma bandeira que há no monte,

De verde impaciência que há em ti,

Já mil vezes teu livro aberto li

Onde nunca alcançara um horizonte.

 

Sejas a tempestade que bem tento,

Pedindo à estrela amada que me oriente,

Levar-me (escrevo ausente a uma alma ausente

Longe de ti, soprando afável vento.

 

Por isso, que me importa, que me queiras,

Papéis escritos cheios de tortura

Se é meu papel deitar neles ternura

em verso escritas frases verdadeiras.

 

Na mesma exactidão que incide o sol

Raios na terra, à mesma velocidade

Porque descubro que encubro a verdade

Que se entranhou em mim no corpo mole.

 

Afasto o pó pousado no passado

Polindo o espelho a ver se há algum reflexo

Tentando tornar simples meu complexo

Viver no meu romance inacabado.

 

Há um mecanismo em mim que não me deixa

Abandonar-me, logo o alarme soa

Dispara se me sinto outra pessoa

Negando a minha alma, o corpo se queixa

Num segundo

Em pó desfez-se, em ar, o odor das rosas

Das dálias, lírios, cravos, margaridas

Chegou-me em baforadas doces, glosas

Para um poema escrito às escondidas,

 

Em mar desfez-se o verso enquanto lido

Cheirando a erva cortada à vaga infância

Na noite em que chegava ao meu ouvido

Mais uma viva prova de ignorância.

 

Mais uma imensa massa de tristeza,

Mais uma vaga enorme de alegria

Enquanto o corpo ampara um ombro amigo

 

Mais um soprar suave a natureza,

Mais um espantar de pombos neste dia

Em que o silêncio foi nosso inimigo

 

O triturar das horas

Na gare esquecida pela mãos sensíveis do Tempo

Onde horas tangíveis trituram os nossos fantasmas

Em formas de comboio sentindo vibrar no corpo

Passos apressados, rostos encolhidos, pombos e cansaços,

Voando em bando no ar, entre pombas ousadas, aflitas,

De fome, de pena, de frio, calor, de falta de pão, só, mais nada,

Onde uma linha compacta de gente,

Desenrola um tapete interno tecido com fios de impaciência,

Grasnam, cospem, mugem, rosnam, gritam,

Pensam, sonham, querem impérios mudos,

E assim, anónimo, inútil, sentando num banco qualquer,

Grito sem gritar, digo sem falar, bramo sem bramir,

Colocando de lado a minha loucura, a mística humana,

Com versos e poesias eróticas obcecado por dentro

De toda a torrente de Beleza passar-me à frente,

Dos meus olhos pesados de chumbo, mortiços e vagos,

(Diziam antigamente que os olhos de Vénus eram vagos)

Sonho sentar-me, ocupando todos lugares vagos,

Lendo, sorrindo, pairando no ar, no fumo, nas escadas rolantes,

Sentindo vir um perdão como pão quente,

Matar a minha fome com chicote, espada e escudo.

 

Outro comboio que passa, outra hora triturada,

Outra criança que no colo da mãe se balança,

E aquela voz gravada soa como se anunciasse,

A próxima partida para o céu, para o Purgatório, para o Inferno,

Aquela voz, que faz com que corramos ao destino,

Onde me atraso até à força de não querer,

Lembrando-me de amigos de longa data,

Assim como longa a estrada percorrida sem esforço,

Leva-me sempre onde quero, onde nunca me acanho.

E estes comboios, estas gares, estes rios confusos de gente

Rios de carne, de pele, de ossos de cabelos,

Rios de essências tantas quantas flores há no mundo,

Comovem-me, remexem-me nas feridas,

Por sermos guerreiros do inevitável,

Por sermos rebeldes, proscritos, iguais,

Enquanto nos julgamos sermos fantásticos diferentes,

(Por tatuagens, roupas, livros, gostos, obsessões)

De caminharmos lentamente com passos de esperança,

Que surja o nosso D. Sebastião da Felicidade,

Entre o cerrado nevoeiro

em que se vive, em que se sente, em que se morre,

Nos braços reconfortantes e bondosos de um grande Amor.

 

Vãs filosofias

Deixa-me andar seguro na incerteza

Apenas de saber coisas inúteis

Penso que ninguém tem bem a certeza

A ressonâncias soam, vagas fúteis,

Deixa-me, num momento, esta leveza,

Minhas certezas poucas me são úteis.

 

Eu nunca tive uma grande ambição

Assim terrena, humana enorme e digna

Bem sei que já vivi numa ilusão

Senti o odor de qualquer flor maligna,

Ouvido enconsto ao teu bom coração

Meu anjo, minha alma, flor benigna.

 

eu quero-me com pouco que ainda tenho,

Do pouco que se tem, me sabe a tudo

Sinto o cansaço apenas de ser estranho,

Sem máscaras de Carnaval, sem escudo

Ignoro aonde vou, sei donde venho

Lembrando meu passado, não me iludo.

 

Fiquem com jóias, carros, com herdades

Com vícios gordos, com magras virtudes,

Fiquem também com funestas vaidades

Que eu ficarei com minhas atitudes

Que tudo guardo junto das verdades,

Coleccionando-as, mesmo ásperas, rudes.

 

Difícil é manter-me tão desperto,

Como este sol que traz esclarecimento

Mesmo que tenha aspecto de deserto

Sopro de vento do meu pensamento

De noite é quando mais sinto este aperto

Em que me lanço ao mar do esquecimento.

 

Há quem muito se esforce a ser diferente,

Há quem tatue os braços com mil cores,

E troque o belo corpo pela mente

Sofrendo nestes climas dissabores

Se sou feliz em ser da selva ausente

Se me contento em contemplar as flores.

 

Se nunca sou capaz de ser correcto

Pois sou aquele ser mais que imperfeito

Se não há lei nem regra, nem decreto

De parecer feliz, normal, perfeito

Prefiro andar soturno e circunspecto

Se for meu natural e próprio jeito.

 

Pois neste aspecto inútil sou proscrito

Pensar ser outro, mesmo que me odeie,

Soa-me como um abafado grito

Por entre a multidão que me rodeie,

Ficará de meu só o que tenho escrito

Mesmo que a fronte o mundo a mim meneie.

 

Sentir-me pleno em vida, é meu intento

Ouvir vozes marítimas, selváticas

Sentir-me sem qualquer encobrimento

No fundo, ouvir as plantas aquáticas

Entendes esse mar de esquecimento

Onde incertezas todas ficam extáticas?

 

Ouvir correr o sangue em minhas veias

Ouvir o pipilar do coração,

Ouvir cantar nas dunas as sereias,

Canções, versos que nem sequer lá estão

Ouves? Claro que não. Estranha meneias

A fronte, como outros que nem lá vão.

 

Da natureza, eu hei-de ouvir-lhe o canto

Que grita, em voz aflita, por socorro

Que eu junto a minha voz, a mão levanto

Pelos campos, um rio onde me escorro

Não chego a ser de leito largo a tanto

Antes que chegue este tempo, não corro.

 

Saber-lhe os nomes todos como prova,

Da minha honra maior sincera e dura

Seguir-lhe os passos onde se faz cova

Funda, onde a idade é já madura

Vendo chegar a deusa que renova

Enchendo de Beleza a terra escura.

 

Seguir ansiosos voos de andorinhas,

Das pombas e dos melros, das gaivotas

Seguir também com tuas mãos nas minhas

Ouvindo o canto que da boca brotas

Andando pelos prados, pelas vinhas,

Nas sombras, onde aves te são devotas

 

Ouvir dos oceanos harmonias

Chegar sem que se dê conta do Mundo

Ouvir também o canto das Harpias

De noite quando o canto é mais profundo

Ouvir e ver o sol banhar os dias,

Viver a vida sóbrio num segundo.

 

Já não me importa esta misantropia

Minha, vivo apenas, tudo cansa,

O que me importa outra filosofia

Além, amor, da minha que descansa

À sombra duma árvore vazia

Apenas dando fruto da esperança?

 

Basta-me ver como teus dedos pões

Dentro das mãos macias e mimosas,

Olhares, valem mais que solidões

como o despertar dos botões de rosas

Olhares, são crianças, são piões

Girando à volta alegres e ociosas.

 

A minha angústia é por não poder ver

E estar, co’ o mar as vezes que pretendo

Ouvir-lhe a força imensa, alto poder

Os verso de Sofia aparecendo

Na areia, branca espuma a revolver

Enquanto o sol no mar vai recolhendo…

A máscara do Amor

Uma mulher que aprende o amor nos livros,

Outra que prende o amor de alguém que ama

E ainda um novo amor, são dois cativos

Da Liberdade, a chave atira à lama

Não mais entendo o que esse amor me seja,

Como a bondade a mão estende e negreja

 

Um homem que à mulher o Amor lhe oprime,

Outro que deixa entrar no seio materno

Outra mulher pensando que o redime

Metendo a mão no leme ao lar paterno

Ignoro o que este amor me representa

Ao abandono deixo quem o orienta.

 

Um infeliz banqueiro, pai de filhos

Que olha pra trás nos tempos em que foi

Feliz, que à Musa fala em trocadilhos

E a corda que sustenta queima e rói

O que me importa que este amor me trás,

É certo, é descoberto não dar paz.

 

Um arquitecto ergue outra torre além,

Como os mamilos róseos que ele aprova.

Esforço, que é o amor, em si não tem

Que em tudo, sua amada, lhe reprova,

Desisto, ó Afrodite; de entender-te

Ando a tentar, no entanto, ando a perder-te.

 

Um jornalista mais a professora

Decidem velhos tempos relembrare

Com mais o economista e a doutora

Tentando outros amores conjugar,

Eu nisto nem sequem meter um dedo,

Pretendo, por meter ao susto medo.

 

E as novas flores tenras que mil prantos

Soltam de amor nos braços de outro alguém

E aqueles mentirosos que são santos

Que só no Inferno pregam deus também?

Tanto me exalto, Musa, a pensar nisto

Que nunca tenho nada disto visto.

 

E a actriz que vai no seu décimo amor

E diz que desta vez sente-se amada

Depois que veio alguém dar-lhe mais dor

Vendo-se actriz na vida armadilhada

Eu já não digo nada. Quem sou eu

Eterno amante do canto de Orfeu?

 

E o carregador pobre de caixotes

De fruta, que à bela lhe furta o olhar

Com mãos cheirando a fruta nos decotes

Que possa uma mulher mais lhe emprestar?

E os padres, os poetas, e os polícias

Que arrastam sacos cheios destas delícias?

 

E a sombra na parede que ama o vento

Mas que porém ama também o mar,

E a virgem flor que nos dá pensamento

Amando o sol e água pra desabrochar?

E o líquido que quer ficar gasoso

Ou por capricho ou por ser desgostoso?

 

E meu poema, quarto escuro, esquálido

Amar também a glória que não tem

Qual rubicundo rosto amar o pálido

e o pálido o rubicundo amor também,

E o Mal e o Bem? No fundo é ser-se humano

Do amor, até nos céus existe engano…

A encruzilhada

De noite é quando mais me perco e fico

Junto ao nítido lago transparente

Mesmo que o sol me seja ouro de rico

Melhor entende a Lua a minha mente.

 

Primeiro, abro a janela reflectindo

Aquela que de dia é caçadora

No rosto, sua luz vai incidindo

Aquela que de noite é sedutora.

 

Labores de poeta, ó meu amor

Sorver, enquanto vivo, a vida toda

Nem tudo pode ser tristeza e dor

Em mim, sempre a Beleza esteve em moda.

 

Escrevo algumas linhas de conversa,

Entre o meu ser e outro que seja meu

Amo quando interna voz dispersa

No branco, um pensamento que me deu.

 

Folheio tantos livros que alimentam

As bocas às centenas que detenho,

E sempre insaciáveis se apresentam

Defronte do meu lúgubre desenho.

 

Conto os anos longos que passaram,

Os sonhos que plantei e fui colhendo,

Outros que rasguei e ultrapassaram

Novos desejos que hoje vou detendo.

 

E quase nunca penso, é curioso.

Talvez convoque só o meu sentir

do eterno movimento vigoroso

Universo, sem querer nada pedir.

 

Soltam lamentos as verdes palmeiras

Suspiram dormitando as margaridas

Curvadas com seus ais as oliveiras,

As rosas orvalhadas e despidas.

 

Movem-se as ervas quando vem a fúria

De quando em quando, dos ventos do norte,

Roçam-se nelas gordos de luxúria

Ouve-se quase o rir de Eólo forte.

 

No mesmo instante tremem as janelas

De medo, um assobio, entre uma brecha

Se abertas, sombrias, cantam belas,

Melodias aguçadas como flechas.

 

Ficando no ar suspenso o meu reflexo

No espelho, surge o meu exausto rosto

Palavras solto sem beleza e nexo

Profundas, como o chão do meu desgosto

 

Por vezes, ser quem sou, por vão orgulho

Às vezes arrogante e envaidecido,

Como se ouvisse estrondo em mim, barulho

De gente a apedrejar meu ser despido.

 

Rebolo por ladeiras infernais,

De quem mais uma noite só se enlaça

Um dia, em muitos dias culturais

Onde a cultura é só vento que passa.

 

Se ao menos arrancasse cá de dentro

Camadas e camadas de imundície,

Olhasse e visse nítido meu centro

Fosse o que há tanto tempo atrás eu disse!

 

Carpindo planos geniais, ideias

Que me exaltassem vozes dessa glória

E se movessem lábios das sereias

Cantando esse refrão que há na vitória.

 

Porém, achei-me numa encruzilhada

Escolher nunca ter paz ou tê-la bem

Segura, pelas mãos da Musa amada

Ou ser poeta, escolher não ser ninguém.

 

Causa-me incómodo, causa-me dor

Pensar no errado ou certo, Bem ou Mal

Há quem se senta e pense com fulgor

Nada escolhendo. Chega a ser fatal.

 

Veio-me alívio ter feita essa escolha

Que o Tempo nos empurra para a frente

Chega-me agora a solidão que me olha

E mil delícias crava em minha mente.

 

Mostrou-me essas delícias em sementes

Abrindo as mãos. Mas eu lhe disse assim:

“guarda-as para depois, pois o que sentes,

Não é mais sentimento para mim.”

 

Deusas Modernas

Amas a tua beleza, com esforço, com esmero

Ignoras, ó ninfa moderna, que existisse Homero

Ignoras também quem sucumba nos braços de alguém,

Ignoras que és filha do Pai e filha da Mãe.

 

Usas pulseiras raríssimas, colares, anéis

Do ódio, na pose arrogante, libertas corcéis

Algures na terra há-de haver quem te ame e possua

Banhada somente de espuma da pálida lua.

 

Vês-te no espelho brilhante que a vaidade cobra

Corpo de mármore angélico, alma de cobra

Guardas na íntima roupa rosada virtude,

Olhos que quebram rotinas e roubam saúde.

 

Teus seios são assassinos que farejam medo

Desenham muralhas nosso terrível degredo

Encerram perdidos fiéis, dóceis pretendentes

Reinos dourados prometem reis florescentes.

 

Tua alma gentil candeeiro que a rua iluminas

Invocas com luz desmaiada almas assassinas

Com alma de vento, poeira, de fumo de guerra

Invocas coléricas fúrias no sangue da terra.

 

Finges guardar mil segredos num monumento

Mas trazes o sexo na mala daquele momento

Usas perfumes das flores que invocam prazer

Guardas repulsa nas calças de alheio poder.

 

sonhas ser pomba no céu que nos há-de salvar,

Ser Vénus por cisnes puxada e nos possa quebrar

Domínio da carne, fraqueza de animal ou gente,

Colocas enfeites obscenos na alma, na mente.

 

És vinho que escorre bem doce pela garganta,

És canto hediondo que espanta a ave que canta,

És ninho aquecido, conforto de quem tem frio,

Um espanto de fêmea, o lixo boiando no rio.

 

És montra coberta com luzes artificiais,

Sereia surgindo das dunas ou canaviais,

És Musa, luxúria no verso que nunca dura,

És rosa coberta de sombra pela sepultura.

 

A eleita que à volta lhe cresce, crentes, raízes

Que engoles desejos, que ignoras o mal que dizes,

Fogo que espalhas espectros fazendo-os dançar

Que sonham um dia puderem teus mantos rasgar

 

SEXTINA - Os desenhos na água

Este silêncio, enfim, debaixo de água

Na minha amada, agora, os olhos tristes

Extinto lume feito em cinza escura

Por ventos iracundos do horizonte,

Os astros curiosos são mil olhos,

Coruscam na minha miséria de alma.

 

E quando encontrarei esta minha alma?

Já desce a pálpebra da noite escura

Tornando líquidos seus baços olhos.

Desenho estranhos círculos na água

Meus versos certamente serão tristes

Seguindo a longa linha do horizonte.

 

Não me prolongo além mais do horizonte

Fico-me inerte apenas com seus olhos

Seguindo-os, separando corpo e alma

Para derramar cor nos versos tristes

A ver se dobro essa tristeza escura

Afogando-a no reino azul da água.

 

Sede, tenho sede, amor! Dá-me água

Quebram-se ramos na árvore da alma

Sei que ingentes fontes tens nos olhos

Que em vida vertem cantos nunca tristes

Desenho o indefinido no horizonte

Onde minha caverna nunca é escura.

 

Olhemos para a inesperada e escura

Via como esconde os lábios tristes

Traçado por mãos sábias no horizonte

Se trazem quatro ventos dentro de alma

Ou tempestades num copo com água

Suaves expressões nos meigos olhos.

 

Desperta! Olha-me, amor! Fixa-me os olhos

O que dirão as flores se andam tristes

As mãos que lhes dão quase corpo e alma

A alma que lhes dá amor, frescura

coroando de flores o horizonte,

Tornando alegres aves que andam tristes?

 

Alma vazia a minha se estão tristes

Teus olhos tensos como a noite escura

Sem horizonte, ar terra, fogo e água

 

A Mentira

Eu não conheço há muito alguém que tenha

Dentro de si uma lira vibrante

Que me tocasse com a consoante

Que existe na palavra em que se venha

 

A descobrir a frase sibilante,

Mudando exacto curso do destino

Que se ouve dentro um repicar do sino

Brilhando intenso meu baço semblante.

 

Por mais que na mentira inventem histórias

E tragam do Oriente novidades

Numa mentira os olhos anunciam

 

Pois esses mesmos olhos denunciam

Que em ruínas deixaram as verdades

Que em tempos defenderam sem vitórias.

Santa Maria!

Um antro de miséria e perdição,

No corredor, o odor da má notícia

Alguém com bata branca diga ou não

Se a Fortuna nos cospe ou dá carícia,

 

É quase um circo à frente da fachada,

Faltam balões nas mãos destas crianças,

que choram não por tudo e nem por nada,

Cortando à faca os pulsos das bonanças.

 

Ergue-se um choro agudo, a tempestade

Vindo de alguém que come o desespero

À mão, na mão sinistra da verdade,

 

Por todo o lado há gritos que não se ouvem

Sento-me! A boa ou má notícia espero

Mas a notícia boa ou má não vem

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