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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

enigma lunar

“Quem sou que à noite aclaro a Terra inteira,

e brinco às Escondidas nos telhados,

cantando em sons de prata aos namorados,

e no arco sou exímia, sou certeira?

 

Quem sou que torna a noite verdadeira,

beijando imensas águas com candura

choram em verso amores com ternura

dos poetas, sendo a eleita conselheira?

 

Eu fui desde o princípio inatingível.

Beijar-me o rosto então era impossível

ou tactear-me o seio ou ver-me nua;

 

Mas bem há pouco tempo eu fui pisada,

e agora descoberta eu sou filmada,

quem sou, poeta?” E respondi-lhe: “a Lua!”

Soneto a Mercúrio

Corro ao fim da tarde a largos passos,

Sabendo bem não sermos sempre eternos,

Sonhando ardentes beijos e cansaços

Delíquios longos, lindos, mornos, ternos.

 

Alteram-me, nos versos, os compassos,

Legião de agulhas nos cantos internos

Caiem levemente em nossos braços

Humedecendo nossos lábios externos.

 

Mas só te vejo à noite quando esfria,

Enquanto vivo e morro à luz do dia,

Podendo ver-te só no sol no espelho

 

Que substitui teus dedos delicados,

Como seus raios finos e dourados,

Pensando a cor no amor não ser vermelho.

O lírio e o verme

O branco atroz da tez da flor-de-lis,

Melindra-me, pensar que existe verme

Arranco a voz de vez da dor que fiz,

Em verso, onde bem posso a mim vencer-me.

 

Mais branco quanto a nuvem branca ou giz,

Lembra-me se a Morte vem escolher-me,

Assim como o vil verme nada diz,

À flor que escolhe, Amor possa deter-me.

 

Nem palmas, nem Fortuna, nem vitórias

Converte o que é da vida exacto oposto,

Como no fogo a neve, o frio do quente;

 

Como abundantes flores, colho histórias,

Ponho meu canto nelas com bom gosto,

E esqueço-me do verme… é-me indiferente.

Soneto inglório

Com calma, eu não me acalmo. E o que me acalma

Tão longe de acalmar-me anda de mim

Aguardo anjo da guarda ou querubim

Que traz na mão dourado ramo: a palma,

 

Que em vão cobiço e a glória hoje se espalma

Na minha mão como um pequeno insecto

E fico só no escuro circunspecto:

Olho-me ao espelho baço e olha-me a alma.

 

Querendo mais que possa bem querer,

Beijando o que não posso nem beijar,

Sem ter corpo que aperte, mão que enlace,

 

E num sentir distante sem perder

O assombro deste negro versejar,

Vislumbro outro horizonte que ultrapasse.

O Improviso da Loucura

Apertada sonolência como a terra,

aninha no regaço os oceanos,

cria-se matéria sobre os anos,

Que enfrenta e aterra e encara a dura guerra.

 

Mancha derramada no alvo pano

Tinta sem negrume se me oferece,

E todo o pensamento desaparece,

Como anelante fumo num oceano.

 

Quebrou-se o leme; o verso se desprende

De toda a real essência enquanto vivo,

Porto inseguro cómico e festivo,

Mundo onde já nada me surpreende.

 

Ditou-me a terra seu longo ditame,

Contente, fiz-me péssimo escrivão

Assim mantendo o lume aceso, não

Quero mais que mancha em mim derrame.

 

Só pelo baço vidro vejo rostos.

Prendendo-os, observando-os como as feras,

Com que me prendem garras, ó quimeras,

Adivinhando-lhes estranhos gostos,

 

Um peso inerte a fronte em vão segura,

Como ranger de porta de madeira,

Velha, antiquada e verdadeira

Quando a cópula da alma se abre impura.

 

Música maestro que comece,

A sinfonia adúltera e humana,

A mais estranha música não dana,

O meu sentido fixo que se aquece,

 

E arrefece, num lago de cristais,

Abertos entre as blusas de mãos cheias,

Onde olhos dedos mudos tecem teias,

Correndo o sangue dentro mais e mais.

 

Percorre, ó gozo, ó vício a minha fronte,

Escorre-me um licor amargo e doce,

Ah se eu nunca fosse e outro eu fosse,

Seta aguda de ouro outro arco aponte.

 

O estar a mais na soma ou adição,

De um mais, que menos tanto a neve e fogo,

Soe-me agora um cântico, e mais logo,

Vagueie nas asas do meu coração.

 

O estar à porta à espera que apareça,

Mordomo da Beleza e uma denúncia,

Fazer por se esconder sempre em renúncia,

Passando à minha frente sempre à pressa.

 

Esqueça vil senhor. Volto mais tarde,

Quando outro for, ou ser, ou estar, ou ir,

Onde possa o impossível conseguir,

Pois sofro de ansiedade, e a vida me arde.

 

Musgo verde cresce à volta e dá,

Um toque aveludado na alvorada,

Que viu a escuridão ser terminada,

Ofício de coveiro e sua pá.

 

Termina o curso, Sol. Meus versos pedem,

Cores angelicais, se no céu brincas,

Mas neste mês de Maio agreste trincas,

Humanas preces como mãos que estendem

 

Eu ver-te ao fim da tarde e decorar-te,

Os olhos, quando me olhas e iluminas,

A clara e branca cura que desatinas,

Papel imaculado para amar-te.

 

Deitar-me em pedra dura e aquecida,

Pelos teus mansos raios de crepúsculo,

Que o estro me entumece, a veia, o músculo,

Embate vão por alma já perdida.

 

Por versos não brincarem como tu,

Quando o fazes, e se me olhas pelos ramos,

Saltando os raios como alegres gamos

Como enfrentando a guerra puro e nu.

 

Queima-me docemente o rosto frio,

Cortante, quando o vento da montanha

Causa-me frio de morte ou coisa estranha,

A voz que o vento traz e nunca ouviu.

 

Gigantes ondas de água em mim desabam,

Gigantes monte a monte os amontoam,

E cânticos antigos alto entoam,

Na glória infame onde por terra acabam.

 

Formam deuses deitados deleitados,

As curvas graciosas tão formosas,

Torna-me extensos campos verdes glosas,

Escrevem ao tempo versos aos bocados.

 

Ah, versejar sem rumo e sem ter meta,

Antigo cravo silenciado e mudo,

Nada mais que a música, que tudo,

Como seguir a vida em linha recta.

 

Ah pomo aperaltado e desgostoso

Mamilo róseo em minha boca húmida,

Ah veia avermelhada doente e túmida,

Ah pétreo coração, louvor honroso.

 

Ah tempo que tornado te tornaste,

E me empurraste em frente e eu não sabia,

Que tudo acabará a seu tempo um dia!

Ah noite umbrosa: bem que me avisaste!

Soneto resistente

Num frívolo momento de ansiedade,

Cobrindo a tez nevada de suor,

Ali andava aquela bela flor,

Que ignora uma mentira, uma verdade.

 

Contei minutos gordos na vontade,

E minha insegurança tão manhosa,

Tentou-me convencer que era uma rosa

Que se oferece à tenra flor de idade.

 

Quanto tempo vivi, quanto me resta

Para embarcar na barca de Aqueronte ,

Sem que este, com desdém, me olhe de lado?

 

Esta Comédia Humana é uma festa

Jardim de luxo onde repuxo ou fonte

Borrifa o meu querer de ser lembrado.

O Número da Besta

Eu tento aproximar-me e... sem efeito
quebrando atroz silêncio sem palavras,
mas com silêncio o meu silêncio lavras,
qual chuva o imenso campo sem preceito.
 
Aquele seco incómodo: "Quem fala,
audaz, que quebre o gelo em mil fragmentos?"
um vendaval levou meus pensamentos,
porque essa voz que entoa em ti me cala.
 
Eram dois cisnes juntos tão formosos,
nascidos da semente que em mim gera,
A fome me enrolando a língua audaz;
 
Eram dois pomos juntos ociosos,
Que a minha mente humana não esquecera,
E disse à bela imagem: "vai em paz!"

Soneto do Além

Caminhas num tapete feito em folhas,

De Outono fulvo, imprevisível; fazes

Com que façam, meu corpo e alma, as pazes,

Do jeito doce, Musa, com que me olhas.

 

Nem Flora verdes campos de cor tinge,

Amor, que pardos dias meus convertes

Um deboche de cores em mim vertes:

Sou silêncio de deserto, e tu, a esfinge.

 

Num dia em que pareceu que o vasto céu,

Vendeu a alma sua ao Universo,

Deixei-me… e fui-me embora em pensamento:

 

De lá, do além, a minha alma escreveu

Com púrpura, de ouro e azul, que adorno o verso,

O que dizer-te tanto, amor, bem tento.

Soneto sobre a língua universal

Ai de mim do que seria, se não ouvisse

Música, arrebatar-me a alma quando,

Gestos, cheiros, sentidos quatro dando,

Tudo o que desejasse e conseguisse!

 

Se a minha alma voasse hoje e partisse,

na morte não se ouvisse único canto,

Bradava aos céus com garra e fero espanto,

“Seria céu se música não ouvisse?

 

Sem torres de babel que não se entende,

Línguas várias, quando uma é só esta,

Universal, divina, eterna e Bela;

 

E não se fala em música que estende,

Ao pobre mão bondosa, amável, desta

Língua gentil que por minha alma zela.

 

Soneto de querer-te

Qual abelha que esvoaça e na flor poisa,

dela lhe tira o ouro, meus olhos fremem

as asas dela, assim, meus olhos tremem,

sentindo oceano imenso e imensa coisa.

 

Meu corpo é o homem; a alma é um falcão,

Que lanço, e digo: “traz-me tal Beleza,

Que ao magro verso dê mesma nobreza,

Desta imagem que me adorna o coração.

 

Que impede, amor, lançar-te, do meu braço

À chuva, ave que vive de rapina,

Que os céus alcança, assim, como eu te alcanço?

 

Pois dá-me, no que vejo, este embaraço

De mais querer que inflama a alma e me ensina,

Que, por querer-te mais, nunca me canso.

Soneto sobre o engano

Lançaste-me um sorriso tão vibrante,

tão marcante, sincero de ouro puro,

abrindo as portas, lassa e triunfante,

mostrando airosa o pomo firme e duro.

 

Seria uma peleja interessante,

o entrechocar de sexos que muito amo,

mas tu não és Diana, e eu não sou gamo,

e o peito não te espreito, astro ofuscante.

 

Divina fêmea entre as fêmeas mais bela,

movendo os altos montes e montanhas,

presa que se transforma em predador;

 

esta crua vontade hei-de vencê-la,

ao ver, no teu sorriso ardis, mil manhas

ruína de não querer-te sem amor.

 

Na selva

Orvalho meu do rosto a desfolhada,

Flor, de encanto tanto e muito em pranto,

Promessa foi divina e foi quebrada,

Por teres mais do que ela, flor, encanto.

 

Paira um beija-flor à tua frente,

E tu, nessa vaidade de seres flor,

Abrindo as pernas dás-te como crente

Mimoso beijo ardente do beija-flor.

 

Belo ancestral mandril seguro engana

Tronco de árvore e o monótono leopardo,

Listado e feroz tigre na savana,

Onde qualquer felídeo à noite é pardo,

 

Mimosos pandas folhas de bambu

Devoram, tudo ignoram, o que lhes cerca,

Alerta, ó crocodilo, alerta ó gnu,

Que é hoje, a refeição, que hoje não perca!

 

Ó selva que me embrenha o estranho peito,

Ó gente sem ser gente que me inclina,

A fronte, se curvado, humilde aceito,

Na orla da floresta que fascina.

 

E tu, ó pombo ousado que passeias

entre gente que te nega uma migalha,

Furta a fome a liberdade, e ateias

Toda a gente que se engana e se embaralha.

 

Torna-me, amor, a ver-te o teu sorrir,

Luzir na cauda ardente, cuja estrela

Menor, que empurra Árcade a refulgir

A mais brilhante estrela que amo vê-la.

 

Torna-me em timbre puro e cristalino,

Manso piar, mar vasto onde me afogo,

Quebrando este meu pensar diamantino,

Que em pedra me transforma. A ti te rogo:

 

Salvar-me desta cisma que me impede,

Contigo estar presente mais que posso,

Ninguém o mundo inteiro a alguém lhe pede,

Quando este mundo invade a carne, o osso.

soneto erótico

Se me concede o Tempo a nudez ver-te,

Nimbada como estátuas e as estrelas

Dum branco alabastrino, irei descê-las

Com mãos melodiosas por querer-te.

 

Nos braços, ânsias, fome de envolver-te

Por gritos, mil harpejos sincopados

Termos brancos lençóis de amor molhados

De amar-te, a linfa escorre, amor, em ter-te.

 

Na tua bela imagem leda e nua,

Que um bem maior me excede e compactua,

Em toda a imperfeição, há um poema,

 

Incapaz de escrevê-lo eu sou; no entanto

Serei capaz de amá-lo como um canto,

Que excede em melodia o verso e o tema.

Soneto sobre a Glória

Quem busca glória dá-se ao mundo inteiro,

De vícios cheio, cheio de mentira,

Quem busca a glória e fama as costas vira,

Arqueólogo do que é puro e verdadeiro.

 

Mesmo que o mundo inteiro se corrompa,

Se entregue às libações do velho Baco,

Mesmo que o mundo fique feito em caco,

Se falsifique em cor purpúrea e pompa,

 

Não me hão-de colocar a velha máscara,

Vivendo atrás à espreita p’la cortina,

Qual vil actor que actor nem sabe ser;

 

A todos chega a Morte. A Morte ampara

Quem vivo o ser emprega e alma fascina

Numa vontade enorme por querer.

Ondulações

Num dos muitos parapeitos do mundo,

Estático, pensando, sorvendo a vida

Plácido, quanto a vida é no profundo,

Meus olhos ondulavam na árvore vestida,

 

De um verde carregado mais que a esperança,

Na ébria e louca dança na folhagem,

Que ondula, oscila e verte a bela imagem

Na transbordante taça, a louca dança.

 

Eu via um belo rosto a comprazer-se,

Só da minha loucura, e a desfazer-se,

Na ondulação que o vento, enfim, soprava;

 

Caia um véu no chão de chuva intensa,

Sentia em minha alma nova presença,

Do transe, era só o céu que me acordava.

 

Entre o céu e o sono

É só um sono de Atlas que me invade,

A percorrer-me a espinha já curvada,

Eu lanço aos céus a minha prece alada,

E espalho pelo chão a Liberdade.

 

Tropeço a qualquer hora, num começo

Nesta manhã de rude Maio a meio,

Num sono de poeta, eu ponho freio,

Porque dormi-lo agora eu não mereço.

 

Tão alto como as ancestrais sequóias,

Meu sono atinge os píncaros do céu,

Mas invisível, penso não ser meu,

Como envergar nas mãos inúteis jóias.

 

Chegam-me os deveres como balas,

Bolas de fogo, laser, munições,

Nesta leveza mole de balões,

Não posso mais que a todas suportá-las.

 

Quero dormir na vida em pensamento

Perplexo, olhando as flores, saboreá-las

E com as minhas lágrimas regá-las,

Mudando a cor monótona um momento.

 

Se eu conseguisse em vento transformar-me,

E uivasse por entre árvores frondosas,

E refrescasse as flores caprichosas,

Deste sedento sono reformar-me!...

 

E ser gotas de chuva gotejando,

Na terra, desfazendo-me em pedaços,

Nos ferros, nas mansardas, nos terraços,

E inanimados rostos despertando.

 

Tornar-me indiferente, sem Poesia

Passar por entre a gente qual morcego,

A beliscar a escuridão do apego,

Que à noite amor lhe tem, ódio de dia.

 

Pesa-me este querer mais que um elefante,

Que esmaga a terra inteira onde florescem,

Nos versos, margaridas, e mais crescem

No céu a magna Sirius coruscante.

 

Eu sou Manfredo numa torre gótica,

Gritando à noite o que tanto fascina,

Enigmática, a Noite a fronte inclina,

E a Lua volve o seio, bela, erótica.

 

Quantas velas por fé, se acendem longe?

Quantos versos são escritos na procela?

Quantos medos se escapam duma cela?

Quantas meditações faz de mim monge?

 

Quantas almas penadas penam mais

De quem depena e, mais, sádico, ri-se?

Ah se ao menos Deus viesse e existisse,

Não fossem só imagens em pedestais!

 

Não faço mais que adormecer desperto,

Ouvindo, ao lado, as sonolentas vozes,

Despertam se zangadas, são algozes,

do meu amor, do mau humor liberto.

 

Nas horas gastas, secas, eu contemplo,

Igrejas e capelas, monumentos,

Em mim, guardo escarninhos e tormentos

De almas, sem Terra ou pátria, sem exemplo.

 

Terra sem rei, cidade de fantasmas,

Tristes árvores decrépitas e esquálidas,

Passam por mim espectros de mãos pálidas,

Enchem-me a mente e o peito de miasmas.

 

Dum ramo infecto vem um negro canto,

De obscenas frases quando a fêmea passa,

Com passos de loba bela ultrapassa,

Ouve-se, ao longe um cisne aflito em pranto.

 

Passa também febril velha leoa,

Passeando pela Feira das Vaidades,

Lobos e cães competem com verdades,

Mostram mandíbulas a uma pessoa.

 

E eu passo, passageiro em passo incerto,

Como descobridor de novos mares,

Fotógrafo das cenas singulares,

Que escaldam como areias do deserto.

 

Amo embrenhar-me em tudo o que não posso,

Embrenhar-me, como este poema é escrito,

No meu íntimo solto mais um grito,

Como um colar envolto num pescoço.

 

Minha alma é libertina, é desumana,

Caído fruto seco que não presta,

E só banhar-me em nada não me empresta,

Na arte, que ao mundo e a mim, muito me engana.

 

A ponte envolve o rio na cintura,

Luzindo jóias cor laranja; a margem

À volta, a citadina e bela imagem:

Ruindo ao longe a rouca criatura.

 

É neste sono negro de Kali,

Que finjo estar quieto e adormecido,

Mas tenho bem desperto o meu sentido,

Por não querer também ir por aí.

 

Tantas vezes me encontro a perscrutar,

O céu sem fim, sem decretado início,

A cura para meu terno suplício,

Que vem com boca ardente me oscular.

 

Mas, minha Musa, basta contemplar-te

E ter-te, qual jibóia, em mim, colada,

Para não lamentar meu sono em nada,

E tudo se converte à volta em arte.

 

Não sou o Sol que a Terra à volta gira,

Não sou nem prece ou bênção ao chão lançada

Não sou brilhante espelho, alma comprada

Que ao trato humano o tacto humano tira.

 

Beija-me uma vez por dia os lábios,

Manjares de poetas, de donzelas,

Que nuvens tão cinzentas são aquelas,

São pensamentos trôpegos de sábios.

 

E dá-me uma só vez. Em duplicado,

Terás o beijo doce convertido

Fulgor me nasce quando estou retido,

Nos braços teus maternos, sossegado.

 

Quase adormeço amontoar montanhas

De sono entumecido e de cansaço

Mas um só basta amor, teu quente abraço

Para abrandar a guerra nas entranhas.

 

É ter na frente a estátua em pedra e ver,

Calor do sangue humano encher-lhe as veias

É ter de imensos versos as mãos cheias,

E uma alma insatisfeita para os ler.

 

Mundo-Gato

Na terra o sol brilhava

Macio, imaculado,

Quando um gato procurava,

Preguiçoso, entediado

Num carro se instalava,

Procurando o sol dourado.

 

Lambia o pardo pêlo,

Como quem esfrega um chão,

Ou quem cuida do cabelo,

E do corpo mole não,

Tão elegante e belo!

Tão próximo da Razão!

 

Ah se fosse o mundo inteiro,

Como o gato que procura,

Não mais que o sol no outeiro,

Ou da sombra, da frescura,

Debaixo dum limoeiro,

Sem mistério, sem tortura…

 

Quem sou Eu?

Lamento muito ver-te mergulhada,

No lodaçal, de nojo e limos cheia,

Vinho entornado na Última Ceia,

Quando te vejo entre a corja embrenhada.

 

Tens mais valor sozinha, ó abençoada,

Se a avermelhada e ténue linha passas,

Separando o que desprezas e trespassas,

Frívola gente que não pensa em nada.

 

Sento-me isolado nesta selva,

Deitando-me na verde e fresca relva,

Rodeado por mil cânticos de Orfeu;

 

Mas minha amiga, é meu este meu meio,

De agasalhar-me neste verde seio,

Por ter escolhido um dia ser sempre Eu.

 

Soneto saltitante

Fechei-me num quarto, prendi-me no escuro,

Trancado com chaves lançadas ao mar,

Acolhe-me ó noite, num céu prematuro,

Onde sol no além demora a mergulhar.

 

Desci numa escada na íngreme encosta,

Num ermo deserto sem um pensamento,

E sem pensamento minha alma desgosta,

É ave que voa sem ter mantimento.

 

Vem cantar-me Lua, prateada canção,

Jorrando divina luz ténue no quarto,

Alarme-me igual a matriz do meu dia;

 

Embala-me amante fatal solidão,

Do porto me acena na barca em que parto,

Seguindo o crepúsculo da melancolia.

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