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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Infortúnios

I

Chamo por ti, Ó Deus de quem se aflige,
Com a beleza que estonteia ao ver; martírio,
Porque o mercúrio no topo atinge,
De olhar para tão belo e casto lírio.
Quem me dera ser escultor atento,
Que escuta todos os traços e movimentos,
Dos meus ávidos olhos, não está isento,
Este corpo perfeito em sentimentos.
Cada curva sua incita um poema,
De quem Calíope foi sempre gentil,
E qual, para meu mal, será o tema?
Ela por quem desejos eu conto mil.
Ó selvática mulher atraente,
Que se abstrai de si, bela e independente.

II

Assenta-lhe sobre os ombros majestosos,
Cabelo, numa elegância, penteado,
E os olhos meigos, volvem em vigorosos
Dardos ternos por Cúpido prendado.
Os braços com os quais se movem brandos,
Seguram, como Cristo em La Pietá,
Meus desejos longe de serem nefandos,
Retenho em não querer que até ela vá.
É uma verde e azul bela paisagem
Como paisagem que a Natura oferece,
Ah, e se enviar-lhe uma bela mensagem?
Era só que ao louco tudo apetece,
Porque sobre a janela corre uma aragem,
Quente como no verão nada arrefece.


III

Permite este meu curvar sobre o teu,
Cândido olhar ao qual eu me envergonho,
Se cobrisses teu sorriso com negro véu,
Rasgavas em mil pedaços este meu sonho,
De ter-te envolta em meus lânguidos braços,
E com as mãos, prender o teu compasso
Porque em versos, quero descrever-te os traços,
E socorrer-me é só dares-me um abraço.
Mas não te apoquentes, ó Afrodite
Do teu luxuriante bronze da pele,
Pois guardarei segredo, e acredite
Quem se pica, rouba à abelha, o mel.
Mas temo este meu íntimo desejo,
Que se converta um dia, um abraço em beijo.


IV

Sinto deter nas mãos o fogo que faz,
Com que o teu corpo queime e fira tanto,
Que escolho guardar estas palavras más,
Antes, que em vida, dos dois, se esvaia em pranto.
Pois canto, para ninguém, canto para mim,
Sem aspereza, a voz do meu cantar,
Sendo último na corrida sem fim,
Poder algum dia eu vir-te a amar,
E assim terei sempre o olhar de ti,
Sem mácula imposta deste atrevimento,
Mas minha Beatriz de Alighieri,
Ainda fumega o meu abrasamento.
E o teu não estares ao meu lado num dia,
É músico que canta sem melodia.


V

Deténs no corpo muito maior deslize,
Que este afrouxado deslize em pena gasta,
Talvez viçoso corpo, teu olhar vise,
Prender o olhar que, dele, nunca se exausta,
Deténs maior brancura que em meus versos,
Que não revelam ao mundo um Mundo Novo,
Mas mergulhei meus olhos e, submersos
No que és ficaram. E não os reprovo.
E além do mais deténs forte feitiço,
Lançado, sem que seja o teu ensejo,
E assim, pondero, e não penso mais nisso,
De nunca vir a ter de ti um beijo.
Bate então ó sonho alado
Pela Fortuna, reprovado.

Tentação

Entre a roupagem existe,
Num espaço curto minúsculo,
Que o sangue flui e insiste,
Entumecer-me o músculo,
Porque o que os olhos vêm,
São frémitos de paixão,
Como crentes que em deuses crêem,
Sem que ganhem galardão,
E as curvas dela são,
Um tentação atroz,
De um macio tenro e quente,
Que transforma em pó a mente,
Quando olho e não desvio,
As carnes: é doentio!

Não é doença, é poesia,
Que ela oferece, tão gentil,
Num simpático terno olhar,
Que pelo meu, valem por mil,
Tão bonita que ela é,
E sinto dela um terno gesto,
Mas entre a veste que veste,
Olhando, eu sinto que não presto.
Porque não escondo e divulgo,
O toque suposto ser quente,
Que nunca é indiferente,
Só à vista turva do vulgo,
Que sobre a mesa eu vejo,
Uns seios postos com gosto,
Que olhar só, sobe disposto,
Alpinista disposto a um beijo.

Contemplação

Num escondido segredo eu admiro,
Seu rosto instável, qual fresca primavera,
Gracejo à b'leza sua é nuvem; lhe tiro,
Seu Sol que Deus no rosto lhe oferecera.
Se é contemplada vista de algum castelo,
Meu olhar triste se torna por não poder,
Abrir meus braços e Amor meu oferecê-lo,
Como um grande sonhar, sem sonho deter,
E envolver nos braços seu corpo esguio,
Que a cada passo dado é um assombro,
Ao meu sol que é nuvem, e eu, doentio,
Deixo tal desejo ficar escondido em escombro.
Tão bela, tão doce tão, qual paixão de Cristo,
Crucificado, e eu olhá-la, é isto.



Um forasteiro

Quando nos ferra o ódio as suas garras,
E atordoados num chão em dor nos deixa,
Deixemos que um Amor solte as amarras,
E alma tão preciosa, já não se queixa.
Como mero humano nu não inanimado,
Voltei o olhar à costa abandonado,
Qual flor que ao sol os braços tenros não fecha.

Na costa verde, famélica alma d' águia,
Poisei num florido e ramo seguro,
Cambaleei, sem ter estrela seguia,
Sem que sentisse de mim ser inseguro.
Voltei debaixo, qual Phoenix renascida,
Dos escombros, das cinzas, quand' Bela Adormecida,
A ver se o nevoeiro denso perfuro.

Com nada me importei ou desejava,
(Quem deseja detendo o vasto mundo?)
Quanto mais perecia, mais eu amava,
Mergulhei num sono terno, assaz profundo.
E copiosa chuva de estrelas eu vi,
Gelado o corpo meu nada senti,
Num 'plim', vi minha vida em um segundo.

E tresmalhado do rebanho andei,
Sem que sentisse ser cordeiro ob'diente,
Outras verdes pastagens, livre, pastei,
Como um cavalo correndo livremente,
Qual ser que a cerca salta, e adiante,
Se torna o tempo atroz pr'a trás, distante,
Ao certo Destino fugi desob’diente.

Mas fiz que o lago das Lamentações,
Com lágrimas vertidas de solidão,
Chorei uma a uma as tentações,
Da Liberdade que tolhe o coração.
Sem fórmulas vendidas por Alquimistas,
Ouvi os sofrimentos tantos de artistas,
De em vida não terem tido resolução.

Pensei o quanto existia equilíbrio,
Nas coisas, sem que dele me esforçasse,
Senti perder vontade, gosto ou brio,
Em empresa alguma que eu me entregasse.
Porém, nada surgia de novo em mente,
Porquê então seguir sempre, sempre em frente?
Talvez o incerto, o oculto me osculasse.

Como cristais quebrados num lajedo,
Tive meu mundo feito em mil fragmentos
Como em crianças demónios, os meus medos
Entraram em sonhos, em pensamentos.
Flor frágil, guardada por sonhos de rios,
Globo Azul reinado por homens gentios,
Quem em si semeia e colhe sentimentos.

Que tem o meu querer nada se eu nada...

Que tem o meu querer nada se eu nada,
Quero? Obtive sempre o que nunca quis,
Não chores, não chores, ó minha flor de lis,
Meu querer é simplesmente uma simples escada,
Sem portas que fim algum anunciem,
De mármore, atrium de luz e uma porta,
Farejo procurando uma alma morta,
Que daqui me levem ou que me guiem.
Talvez seja este o querer que tanto adio,
Que tarde e alongue o eco da minha alma,
Confesso dela desejar de ouro a palma,
Que o fatal golpe em mim seja tardio.
Se o teu querer é mui nobre e valioso,
Que sempre o teu ele seja; de mim, leproso.




Desperta, ó Vesúvio que há em mim...

Desperta, ó Vesúvio que há em mim,
Explode como um estalo dado de mão cheia,
Engole o que em mim planta e põe-lhe fim
Que é doença em mim, minha Pompeia.

Vem-te em lava ardente na cara dela,
Sê com a lava tua a negra peste,
Mesmo que seja de todas a mais bela,
É tédio, é ócio é o qu' dela recebeste.

Sê espora, vontade imensa, no meu dorso,
Espicaça-me e que veloz mais eu corra,
Chama-me de idiota, chama-me de urso,
E que, nos seus assuntos, o rio decorra.

Pois que seja sem ter humano entrave,
Um rio, um mar, elevada montanha
Ou punhal que na madeira bem crave,
Amor sentido por uma donzela estranha.




XIII

Invoco nossos momentos de outrora,
Com punhais cravados na memória,
Estou perto da exacta e negra hora,
Porém, já longe do ouro da história.
Soam nos corredores desta mente,
Vagos sorrisos como espectrais figuras,
Indistintos, que nossa alma consente
Água em socorro, da alma, securas.
Que vale agora que não sinto luz,
Bater-me nos olhos sóbrios no rosto,
Quem sofre e ama, o sentir seduz,
Lembrar momentos sem sentir desgosto.
Porque a saudade dentro reproduz,
Como no Céu cores de um Sol posto.

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