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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Inédito

Bati nas portas todas, cara quebrei
Seja ditoso o meu rosto quebrar
Que achar velho depois: “eu nada ousei
Não dei a outra face sem a face dar.”
Qual traço deixo para trás, guiada estrela
No frio, na chuva, que finos os traços,
Torna áurea divina e estagna os passos
À quase estátua que vida ganha bela?
Não a sendo nem ela tendo direito,
Vou sendo quem no tempo não será,
Nunca, quem do estulto tem preconceito
Sou estreito para onde quer que vá.
Não sou do espírito belo licor,
De espesso rubi que estanque a dor.

Ode à Musa

Musa, que ao pranto incitei teu peito,
De rios guardados, chuva de outrora,
Das margens transborda azul, o leito
Por ti teu vate também ele chora.
Versos purpúreos, minha Afrodite,
Que a veia nunca a dor te incite.

De ver-te o rosto brindado luar,
Ao meu aninhado, o teu corpo lasso,
Ateias-me a veia crepuscular,
De versos da cor de beijo e abraço;
Vermelho é teu o sangue meu,
Sem herdar certo que Zeus nos deu.

Curvo-me perante forte vontade,
Que em ti germina como na flor,
Rebento de Primavera na claridade,
Antes de desabrochar de Amor.
Curvo-me a quem vida germina,
Olvido quem mal trama ou congemina.

Quem tudo nos Deu amaldiçoei quando,
Soltei-te à frente, Deusa poética
A ira; não escoa no rio estando,
Na lama corre a água atlética.
Talvez terena mágoa a Neptuno,
Vai dar ao ofício seu olhar soturno.

Lembras-te, Deusa, quando olhos teus,
Cheios de graça de quem tanto sonha,
Inertes, ígneos ficavam nos meus,
Quando feliz, ficavas tristonha?
Lembra-te ao meio que eu não esqueço,
Sabendo vil que por vezes pareço.

Dançava à frente fogo alto ardente,
Que frases constantes soltas à noite,
Quando ébrios de luz incandescente,
Tornava-se ao fogo dar-lhe açoite.
Quem tempo me dera agora ter,
Ser um alado ser para te ver.

Vejo-nos na viagem a Esparta antiga,
Que paz levaram príncipes troianos,
De lá trouxeram, terra inimiga,
Quebrada aliança com os espartanos.
Porque o amor forja revolta,
A quem a Baco criou a escolta?

Porque vaza o licor a alma nossa,
De frases de ti, Musa, eloquentes?
Talvez carpir de ti perdão possa
Um dia em que teu trilho, enfrentes.
Como ao vento esvoaça estandarte,
Danças livremente honrando a arte.

Se nas veias corresse um escaldante,
Sangue no mármore tão frio tratado,
Por sábio, talvez levasse avante
Meu sonho seria, Musa, realizado.
Como se encara em derrota sofrida,
Que não deu Páris volta à seta ida?

Pois setas desferidas por Páris são,
Minhas frases que tanto anunciam,
A desgraça a ti, pobre coração,
Que os olhos , besta sou, extasiam.
Ah vontade da qual eu não primo,
Porque te magoei se tanto te estimo?

Mais forte que a tempestade irosa,
Se forma ao longe na linha distante,
Negro no mar cerra, ó virtuosa:
Quando te arde fogo flamejante,
Que dos meus olhos, besta, não seguro,
E à noite com Baco me desnaturo.

Porque te vejo na rósea alvorada,
Quando dá luz astro à Terra gentil
Sobe alto e a deixa tão iluminada
No zénite que atinge com seu ardil
Porque escorre de ti a doce linfa,
Porque és Musa, és Deusa, és Ninfa.






Se contigo deténs suprema moral...

Se contigo deténs suprema e vã moral,
Que por debaixo fique bem na almofada,
Quem a exibe existe nela só trama e mal:
Quem moral sua exibe, é porque ela é nada.
Se te sentes - BRAVO! - alma iluminada
Dá luz a quem dela, pedante, carece,
Se julgas da virtude seres afortunada,
Em versos, bruma, em olhos névoa se tece..
Se da vida alquimia via encontraste,
Vive com paz dela feliz, ó alma inocente.
Talvez porque de ti dívidas nunca pagaste,
Talvez nunca foste por cá descontente.
És miserável alma humana quanto eu,
Julgando que já tudo, por cá, sorveu.

Soltas quadras

Vivo como gato esquivo,
sobressalto que, miau, nos espanta,
Vivo como alto vivo,
Alto gato que a mim me encanta.

Vivo como alto falcão,
Que a poesia é caça, alimento,
Ou árias que causam no coração,
Amor que do ódio fico isento.

Vivo cá e permaneço,
Sem desejar apenas sobreviver,
Fogoso não vivo arrefeço,
Como sangue que não cessa de escorrer.

E maravilha-me tudo,
O facto de verbos conjugar,
Ah se longa vida, ao estudo,
Podia no mundo me dedicar.

Ser arqueólogo em busca,
Como o do chapéu do Santo Graal,
Que respeito luz ofusca,
Matando o pouco ou nada sentimental.

Quando pelas flores passo,
O vento embala-as como me seguissem,
Ah como é sentido o abraço,
Se dado aos que me ouvissem.

Pois subo a rocha perto,
Do mar azul assaz,
Mergulho em céu aberto,
Que vento forte não traz.

É leve o batimento,
Da plumagem celeste,
Qual arrependimento,
De tanto amor que me deste.

Ah Cleópatra chegaste,
ficaste sem tempo me ver,
Grato porque me deixaste,
todo este tempo a escrever.

Vulcano

Vulcão, não sou. Mas no entanto,
Sinto que o quente em mim borbulha,
Como à madeira se deita fagulha,
Em esmaltado palco de verde espanto.
Contenho lava e ao céu não levanto,
Ira funesta que aos montes entulha,
Caos; mas pelo ponto da agulha,
Está cobrindo de veludo, negro manto.
Vulcão quieto de ver é inefável,
Dormindo sono profundo de criança,
Que o ar a calha espalha agradável;
Mas quando fogo, fumo, pedra lança,
Lava correndo célere é memorável
Só na mente que furta a esperança.

Olho o branco espaço tempo incerto...

Olho o branco espaço tempo incerto,
Quando da tinta quero só o que vejo,
Olho o sol erguer-se do deserto,
Em sonhos; e versos, em papel, despejo.
Solta-se ferrolho pesado e entro
Na repleta beleza como epicentro.

Quando fixo olhar, nada me ocorre,
Sentado, realmente sonho criança,
Vejo estreita paisagem que percorre
E esqueço o santo ofício que nos cansa.
Eis que aperto surge sem que saiba,
Não há Universo que em mim, não caiba.

E cabe-me engaiolá-la, ave exótica,
Das tropicais florestas nunca vistas,
Sorrateira inspiração na óptica,
Quem nunca viu surgir estrelas imprevistas.
Passam à frente tão doces momentos,
Candentes estrelas rasgam céus, os ventos.

Mas antes do que inspira só o ser,
De abertas asas, engaiolado, não voa,
Que sonha alguém para me desprender,
Cantando, encantado, com quem se entoa.
Quem chilreio doce não se amordaça,
Pois dentro natureza sua, embaraça.

Reparto-me em mil versos sossegado,
Música que trago não podendo
Sem que ouvidos os tenha subjugado
E alçado o canto a ira vou contendo.
Introspecto tanto no fim do dia,
Se d' outra forma fosse, adoecia.

Colhe-se o qu' é nosso imenso gosto
Tem a mente cesto que comporta,
E quando cheio, e tanto bem composto
Abre-se gentil a um ente a porta,
Do próprio mundo que do ser advém,
"Entrem e vejam o que nele contém!"

E vejo-o como sendo o próprio mundo,
Da Lua, visto, vê-se azul terrestre,
Contemplando o nosso lar rotundo,
Bela obra divina, cena campestre!
E soa a Sexta de Ludwig soando,
Como majestade no palácio entrando.

Porque não vejo outro lar senão,
Globo rotineiro do que não tem,
Passado nem futuro, tempo. Questão:
Como? Quem? e resposta não vem.
Caminha Homem na Terra sem destino,
E sentimento este é só benigno.

Ó coração de pedra: a ti não basta,
Colher raios de sol na madrugada,
Anseia-se ser cativo em nobre casta,
Nem que se viva a vida anafada.
Como aquela loba que nos enche,
De fúteis desejos que não preenche.

Quantos são, da tábua, mandamentos,
Escritos, contam, com divino fogo,
De visões que se erguem monumentos,
Mares onde com os olhos me afogo.
Porque beleza etérea ao escuro, resiste,
Do germinado Mundo, que à volta, existe.

Por isso guardo os mais ínfimos gestos,
Porque em todos vejo um Universo,
Ó fortes, de banquetes não são restos,
Porque me dão riqueza a meus versos.
São no lodo flores finas, mimosas
Sendo pobres, nobres são ditosas.

Ouvi um conto triste e ountro ainda,
Que idoso ainda com o Sol se ergue
Andando declinado até que finda,
Jornada que à Vida ceifa e persegue.
Mas enquanto de ouro esse Sol for,
Calmos, embalemos berço de Amor.

Mas traição morde e a gente atordoa,
Dessa mortal constância imperfeita,
Que, expelido veneno por alma boa,
Torna e aperfeiçoa, nunca perfeita.
É por Deuses oculta cruel verdade,
Transcende ao humano a imortalidade,





Meu consolo eram versos emblemáticos...

Meu consolo eram versos emblemáticos,
Por mim escritos não eram, e agora
Que os escrevo são versos problemáticos,
Porque a Primavera (que besta!), deitei fora.

Sem ter doce consolo, agora serve,
Poemas por amparo, jogo infantil
Insofrido sangue corre dentro e ferve
Papel inanimado, falando em versos mil.

Encrava-me de início frases pomposas,
Sem que delas precise para expressar,
Guardado ódio inútil das desgostosas,
Frases secas, alheias ao meu pensar.

Assim sofre o papel de branco maculado,
Que se ocultado no declinar dos tempo,
Talvez seja ouvido, sentido e lembrado,
No derradeiro e último mês de Dezembro.

Mas não, ainda não. Que ainda dure,
Bastante para amar o que 'inda não aprendi,
Na ferocidade de amar. Que a luz prefure
E pelo escuro alastre e ilumine o que não vi.

Desejar livre amar é mui' penoso
Porque sinto ser no tempo, passageiro,
Voo que nuvens surgem e desgostoso
Finda como se do voo fosse pioneiro.

Encontro de puras almas é raro feito,
Busca de arqueólogo ao Graal santo,
Porém, nunca alguém será perfeito,
Mas que evolua e crie a si espanto





A minha Mãe

Teu Requiem, ó Amadeus, não cantes,
Nos Céus honrando a minha Mãe,
Canta uma alegre sonata antes,
Que, alegre, a incite ela também.

Ou então tu, Ludwig, tresloucado
Donde de Shiller Ode experimentaste
E monumento alto edificaste,
Na Nona, teu grito imortalizado.

Mas da pobre Mãe minha consente
Que o padre ruivo com seu violino
Flua como sorriso de menino,
Nosso anjo, Bernardo contente.

Que todos cheguem de Amor cheios,
Consoante a dor atroz no peito,
E todos tenham pelo Pai respeito,
E dele afastem todos os receios.

E a voz piano, ó grego cego poeta
Homero, Ilíadas ou Odisseias,
Agora não cantes. Antes respeita,
Dorido pomo. Chama as sereias,

Que do Egeu filhos tristes têm,
Por terem mães de peito aperto,
Concede-me desejo, poeta desperto,
Por mim; terrenos outros não vêm:

A ela aclama versos que acalmem,
A ânsia, porém, antecipada,
Que a ajude, ampare e fique curada,
Que dores agudas depressa espantem.


Ode Mortal

Qual fogueira fumegante que arde últimos instantes,
Onde húmida névoa paira e esquiva quando espanta,
De arco, aquele que setas de ouro disfere como antes
O astro pontual; assim, minha voz áspera não canta.
Porque exausto, trémulo corpo fica quando se espera,
Por glória em sonhos vista, onde vontade clara impera.

Se me entristece o rosto na debanda de companheiros,
Que comigo alto urram como se às estrelas aclamassem,
A inspiração divina, onde ardem versos verdadeiros,
Como se em taças decoradas, bebidos versos desejassem.
Mas penitente caminho aquele que escolhe o sentimento,
Que espessas nuvens perfura por onde voa o pensamento.

Se encolerizado vento minha alma não governasse
Talvez calma chegasse da Primavera dádiva da Terra,
Se atenta alma, fraqueza assaz, meu ser não ignorasse,
Talvez eu conquistasse néscio império que me encerra.
Já quando no Homem o sangue inaugura o nascimento
Já se reserva em frente caminho cheio de tormento.

Mas qual lenho da costa se afasta frágil do rumo,
Sem ter estrela por guia que a Colombo orientou,
Seu Norte sem ter norte, seu sonho fio de prumo
Foi embalo da esperança que ao Continente o levou.
Quem nasce com mar defronte, insufla em si vontade
Nos interditos mares onde se lcança a Liberdade.

Corre-me no sangue, dos horizontes, pesada herança,
Pelo globo rotundo onde Verdade longe se oculta.
Dorme em sobressalto quem engole besta, a esperança:
Loba das almas vagas, carpindo da ignorância inculta.
Em desespero resisto sabendo que um dia tombarei,
Mais um sopro, sacrifício, beijo...depois, sucumbirei.

Archotes são que mentes iluminam, não se afeiçoam,
Ao passo lúgubre da gente que desgosta ou nada sente,
São espasmos do meu peito que pelos vales não ecoam,
Porque pedras não despertam; sou poeta vil resistente.
Mas eis minhas pegadas na areia que o tempo apaga,
Sou perdido peregrino, no mundo outra alma largada.

Não se escolhe quando se é rebento de Primavera
Que pálidas manhãs se ouve ainda claro doce chilreio,
Ao abandono me lanço, de leão, por presa espera,
Feroz dentes mostrando quem invade selvagem meio.
Colhe-se fruto maduro depois de caida a chuva,
Vinho em versos escritos se da vinha colhida a uva.

Já tempo pouco tenho que crave na lápide humana,
Não bíblicos mandamentos de temido fogo de Deus,
Que tornou pálido o rosto visto por ousada e insana,
Príncipe do Nada antes, de Tudo servo dos hebreus.
Pois comigo nada leve que enleve o peito, a voz levante
Quero minha alma deixar, perdida como um diamante.

Qual leproso inesperado saido dum vale sombrio
Que a frágil turba espanta e sorrateiro, desaparece,
Entra, é anular desejo ardente com o frio,
Que com verdade o sangue gela, e dela, esmorece.
Ou antes fogo posto na selva que sempre perdura,
Implante gentil valor virtude que sempre, não dura.














Luzidios

Porque dentro quero ter vasto Universo,
Que saciado não fico com escasso alimento,
Amar mais que devia, chega ser quase perverso,
Ter outro e vaguear divino é meu intento.

Porque nos meus versos sem luz ou espanto,
Não têm luz ejaculada que flui próprio de mim?
Terei que me repartir como o Poeta Santo,
Que sem versos não vive levando poema ao fim?

Ó fim de todas as coisas; ó vácuo eterno,
Permite que ao tecto chegue pilha tremenda,
Bem sei incauto ser, quase descer ao Inferno,
Que valor tem viver nada na reprimenda?

Clangor que alto chegue aos montes mornos
Dos ociosos vales onde olhos em frente tenho,
Sem que perto descanse; outros são contornos,
Com próprio cinzel esculpindo meu rosto estranho.

Não deter plumagem que eleve meu pensar,
É da sede, negra fome todo este sofrimento,
Não engolir inteiro quando avisto o vasto mar,
É na vida, vivo, estar do Amor nobre isento.

Que existe para lá do marítimo horizonte,
Longas são as horas onde vozes não escutam,
Que gente se esconde para lá do triste monte,
Suor escorrido tanto quando tanto no dia lutam?

Reparto este repasto por ninguém que fome sinta,
Deste cereal esmagado pela mó humana,
Qual Eolo iroso, qual sábio que desminta,
Toda a verdade inglória duma qualquer mente insana.

Serei luz solitária, própria a envaidecer-me,
Louco que divaga nas ruas estreitas e obscuras?
Avanço! Que ninguém ouse vencer-me,
Oiçam desabafar de loucos das desventuras.

Medíocre sensação que permanece no redor,
Dos olhos sôfregos que pela presa procura,
Por entre espiga dourada, contendo negro ardor,
Ebule-me nas veias ardente, quente fervura.

Colhe a flor que não plantas...

Colhe a flor que não plantas,
Já basta quanto nada faças,
Vazio, tremendo e embaraças,
Desflorando todas as santas.

Dizer nada é pouco e tudo,
É ser imperador de si,
Restauro d' alma na luz mudo,
No escuro cego que nada ouvi.

Que me serve futuro ter,
Erróne idéia, tudo se inverte,
De que me vale não ver,
Quem à volta se perverte?

Age com selvagem instinto,
Do mundo, incauto, que não erra,
Nunca mentem; no entanto sinto,
Que não mais que nada, encerra.

Tem a noção da Morte...

Tem a noção da Morte,
Perecemos nós um dia:
Que quer de mim a Sorte,
Que ambições eu devería,
Ter? Vivo e é bastante,
Já tanto eu sonharia,
Se primasse pelo instante,
Quanto mais desejaria.

Do vulgo, caso não faças,
Sofre de ti detendo dote
Porque horas cá são escassas
Para te perderes a mote.
Mesmo a água que bebas,
Do dote será de ti forte,
NAda do que recebas,
Pois no fim engoles a Morte.

A Guerra de Luzes

Enlanguesce o Céu diurno, e eu com ele,
Deixem-me, índios mortos tanto ferozes,
Quais setas desferidas d' arcos; na pele
Cravam-se agudas em quem solta mil vozes.
E lembra-me uma só vez,
Constantemente triste,
Vozes dispersas entre bruma cerrada
Nada vem de revés,
Olhar distante em riste,
Deixem carpir meu corpo Tudo ou Nada.

Que a bebedeira amplia fechada mente
Bem sei; licores amargos sabem a verdade,
Assim deambulo sem Norte infantilmente
Sonhando, imberbe, com o voo da Liberdade,
Detenho um sonho ainda
Talvez gigante demais,
Que a flecha em direcção perigo iminente,
Quando darei por finda,
E voltar nunca mais,
Deixando por cá herança da minha mente.

Por meus pés tenho vergado, andando,
O escuro tacteando, corredores sem velas
E enquanto tempo me resta, vou sonhando,
Às portas da mente dormem as sentinelas.
Sem que noção perfeita,
No papel branco que estranha
O arranhar da pele da pena andante,
Broto o que não se ajeita,
Porque não uso da manha,
Longe fico de tudo, longe, distante...

Temo trémulo tanto tudo, e à volta treme,
Qual Lisboa que do mar ira provou,
Vivo afogado numa onda. Qual leme
Se desvie, qual Cristo por cá andou?
Anulo de mim desejos,
Cubram-me de beijos enquanto,
Vivo, duro, não sei; sobrevivo na jornada
Despejos em mim de beijos,
Baptismo próprio e canto,
À Musa bela, gentil que me inspira amada.

Ao improviso cesso oiço a chuva copiosa,
Entrando sem querer que entre triunfante,
O tecto efervesce, mar celeste, Lua formosa
De espanto a boca aberta de negro turbante.
E estrépito de súbito oiço,
Cismando vindo delgado,
Que ordeiro me tome, anjo algum terreno,
Chega divino do poiso,
Belo anjo, Grifo Alado,
Vontade impera de quem não é pequeno.

Talvez ousado seja demais, menos... não sei.
Herança ou testemunho no Invisível existe,
Resiste no azul terrestre como verdades ocultei,
Pungia globo azul Bela esfera (ainda resiste)
Chama Guerra de Luzes
À existência tua, miserável,
Sem que luzes escolhas, não ouves chamamento,
Perto da Morte reduzes
Vontades tantas, execráveis
Bebes sem que sôfrego bebas doce momento.

Nas folhas luz penetra sem mensagens
Voos dispersos de borboletas esvoaçantes,
Que lembram pétalas soltas nas aragens
Dos Reis regresso com luminosos semblantes.
E um que seja entre
A multidão triste e nervosa,
Ao feito frustro sem perder esperança de ver
E ouvir uma que centre,
Devota alma ditosa
Mendigo que seja tem sua história par' of'recer.

Tu, Ulisses...

Perdoem-me, meu Pai e minha Mãe,
Vosso Telémaco mal está co' o mundo,
E já diz ter um abismo profundo,
Que ao espelho visto, tem um também.
A harmonia nele é pássaro que vem,
E vai, voando pelos céus, fecundo,
Sem ter em mim seu voo rotundo,
Sem ter intento mal estar com alguém.
Se pudesse, na emenda, ter arte,
Talvez bem estaría em toda a parte,
Voar somente do bando, isolado;
Porque um não escolho, porque assim sou
Sei de mim bocado, a ira levou,
Perdido, vivo como nunca encontrado.


Intro:

Insolente sou quanto baste,
Ruir inteiro mundo, culpa minha
Sem que este mundo me afaste,
Sou um traste, bela vizinha.

Desculpa me servir na hora,
Sem que pedi-la eu devesse,
Porque ser é alma que chora,
Sem que do mal me arrependesse.

Sou insolente, diz, bem sei,
Comigo tantas contas ajusto,
Talvez me pregue a vida susto
Como dela muitos me assustei.

Não mora razão em mim,
Porque fraco de ira conter,
Incauto com meu negro fim,
De mim sair... preciso de me ver.

E donde vem esta poesia,
Quem me manda ela escrever,
Poderia só dela eu ler.
Mas não: peno nela ao dia.

Porque arte nela não tenho,
Perde depois a validade,
Quando lida por mim mai tarde,
Mas liberto-a. É caso estranho.

Para que nasci então,
qual no mundo meu lugar?
Nenhum. Terei o que apanhar,
Vago, ouvindo o coração.


A Guerra das Luzes

Tenho o que me esmaga,
Tenho o que me aperta,
Tenho o que me afaga,
O que a alma me liberta.

Tenho o que me revolta,
Tenho o que me magoa
Tenho o Diabo à solta,
E o grito alto que soa.

Tenho o que me ata,
O que me ardor retira,
Tenho o que me desata,
E tudo o que me inspira.

Tenho o que me obscura,
Tenho o que me empobrece,
Tenho o que me dá ternura,
E a vida que me enriquece.

Tenho o que me desanima,
A boca que me devora,
A música que me anima,
E o sono que me revigora.

Tenho a imprudência
Não tenho engenho ou arte,
Tenho só a insolência,
E a alma por toda a parte.

Tenho a ira contida,
Que em mim dentro revolve,
Tenho a própria Vida,
E a Morte que me envolve

Tenho em mim maldade,
Os pecados todos mortais,
Invocam em mim bondade,
Tenho em mim Amor demais,

Revolto e comprimido,
Como um dique de preso rio,
Tenho bem ou mal vivido,
E um mundo que ninguém o viu.

Noctívago

Partam a toda a brida, ó versos da minha alma,
Quais negros corceis correndo num prado aberto,
Mais céleres que ventos; terão de mim a palma,
Se até mim me trouxeram obscuro ser desperto.

Já por entre vales a voz ecoa, montes escarpados,
Onde vozes, outrora, em desespero tanto gritaram,
Nos mesmos definharam como tristes rios, secados,
Onde por socorro míseras almas desesperaram.

Alto sobrevoem quente fornalha onde almas penam,
De paixões escassas, trémulos olhos pungentes
Quando pontos de luz com escárnio acre acenam
Borbulha medo dentro de versos serem mais eloquentes.



Será sonho o mar ver...

Será sonho o mar ver,
Capricho meu,
De o ter
Será sonho ver o mar,
Capricho meu,
Nele mergulhar?

Veio de onde,
o mar imenso
Que o sol nele
mergulha exacto,
Dai-me resposta,
ó azul imenso,
Eterno és. Eu não,
Um facto!

Que me entristece,
Porque então,
Bates nas rochas,
E eu não,
Deixa que seja,
O Sol brilhante,
Que eu despareço,
Num instante.

Qual vampiro espera que o sol desmaie...

Qual vampiro espera que o sol desmaie,
Das chamas ardentes que no céu deixa
Fazer vou encolhido sem que saie,
De exausta mente que assim se fecha.

Um encontro comigo mesmo eu tenho,
De ter; no labirinto de errado ou certo,
Inexistente. Vou pelo mar num lenho,
Frágil sem destino, rumo ao incerto.

Talvez se depare à frente horizonte,
Novo raiar de sol, sopros de vento,
Não quero ter por ora, novo alento,
Talvez bela aurora em mim desponte.

Tenho ouvido o hino da mentira...

Tenho ouvido o hino da mentira,
Soar nas ruas, pelos corredores,
Tenho ouvido da vida mil horrores,
Que à pura beleza, beleza lhe retira.
Quem da alma sua já desistira,
Explora o puro ingénuo em mil favores,
Nele vê embaraço e dissabores,
Do que foi, como a si se extorquira.
Guerra de luzes vejo entre pessoas,
Nas ruas, selvas se fingem de boas
Sem que se vejam num espelho polido;
Se assim não fosse, como tudo sería?
Vejo a soturna noite na luz do dia,
A quietude do mundo adormecido.

















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