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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Ode à Mulher Fatal - Dedicado a uma concubina de fina flor

Quando vires passar na rua,
Uma cabeleira loira, encaracolada,
Contempla a mulher fatal:
Eis a loira anafada.

Seu cabelo esvoaçante,
Ao vento de ar condicionado,
Que de "Amor" anda pedante,
Pelo seu príncipe anaf.... perdão:
Encantado.

Em súbitos soltos gemidos,
Como seus cabelos amarelos,
Ao telefone que aos atendidos,
Faz sonhar com seus marmelos.

Não é que tape os ouvidos,
Oh God!!! O God!!! Oh sim,
Dos lábios saem-lhe frases
Que todos ouvem os seus gemidos

E quando surge música latina?
É um primor a sua dança,
Que ahhh... soltou a sua crina,
Ao vento e abanou a pança.

Fingida pose de superior,
Que mais ninguém a eleva sem ser,
Ela própria que procura o Amor,
Por uma noite ao amanhecer.

E veio lá da Barcelona,
Terra das góticas catedrais,
Pos-se mais feia, a matrafona,
Pedindo amor pelos beirais.

Perfumando-se pela manhã,
Com o fresco matutino orvalho,
Trás no peito a ânsia que é vã,
P'ra com força levar com o ... trabalho.

E sem rancor velho ou novo,
sobre o seu soltar de crina,
Dedico as quadras ao meu povo,
Sobre a loira de cara bovina.




TESOURO

Teu sorriso ingénuo e ternurento,
É o palrar tão brando de criança;
Faz na Alma ainda ter a esperança
Na busca efémera de puro rebento.
São raras as flores nascidas, só lembrança,
De encontrar quem, resistente ao vento
Infantilmente sorri sem ardil, intento,
Luzindo entre quem sorrir pesa e cansa.
Se luz perfume fosse, asperges então
Estes corredores de ébano cerrado;
Sem que santa sejas, tens-me curado,
Minúsculo ponto de luz na escuridão.
Humilde alma, que ris-te de ti,
Se graça houver, imploro-te: ri!


PARTE DE UM SONETO

(...)

À existência minha pouca e baça,
Se teu amor por mim te amordaça,
Libero-te do sentimento nobre, tombando.
E quando do mar despojo assim eu for,
Nem uma lágrima derrames de amor,
Por mim! Te peço humildemente;
Só meus entes rochosos sentir-me-ão
Nunca de alguém prendados por um: Perdão!
Pois vivem, resistindo honradamente.

ROCHEDO

Estarei quieto, feito mártir, rochedo,
Ó mar de lágrimas tuas vertidas,
Nas vagas os ventos mágoas trazidas,
Onde estremeço... Porém, livre do medo.
Que Amor disfere frases puras, sentidas,
Antes dor, a revolta em ti vem cedo?
Esfolas-te somente tu no rochedo
E tuas lágrimas em mim embutidas.
Quantos ventos invocas, vagas de fúria,
No fim sorrindo quando da minha penúria,
De vontade hercúlea de resistir;
Tombando sempre se vive livremente,
Se não deixar na vida nada pendente,
Antes a Morte que o Real porvir.

UNGUENTOS

'Inda sinto entranhado,
Fundas feridas do meu passado,
Qual bálsamo aplicado em mim...
À pele não dou descanso,
Viajar nele não me canso,
E dar ao desassossego fim.

Qual martírio é este?
Já alguma vez te rendeste
Ao despotismo do teu ser?
Rebelião inútil!
Terei um futuro fútil,
Se no porvir me arrepender.

São lógicas tresloucadas,
De almas mal fadadas,
Quantos passos avançarei,
Nas escadas do pensamento,
Nos céus do sentimento,
Se pensar que nunca acordei.

Quantas horas me restam
Medos, dúvidas que infestam,
Extinguir em feixes de ouro, de luz,
Do berço frio abafado,
Cantar meu próprio Fado,
Que de impulsos, obras produz.

Torna o homem fecundo,
Quarto barrado e imundo,
Com palavras se alimentando
E se as penas se acabam,
Temo que feridas se abram,
Vivendo só delas tratando.

VERSO

Amor!
Eis o mais sublime verso.
Reune todo o Universo
Cega o cego ser perverso
Luz dum Sol jovem em nós.
Eis todo o esplendor!

CORVO

À mulher fatal, fatal destino
Como quem disse que tombaria
Pela espada se dela vivesse,
Pela espada, sucumbaria.

Ter esperança? Tenho-a nos outros,
E para mim nenhuma guardo
Essa força que levita o fardo
Tornando-nos vivos e não mortos.

Existe Sol, a luz e as flores,
Existe um berço chamado Amor,
Amaldiçoo-me das malditas cores,
De tudo amar causando dor.

Se meu coração cessasse um pouco,
A eterna fome e sede de inverter,
O cântico mudo, gasto e rouco
Feliz sería, ingénuo até morrer.

Nem tão pouco sei como já ando,
Nas ruas estreitas, ruas de imundice,
Mas colho mensagens de um livre bando,
Que desmascara a vil canalhice.

Sinto uma compaixão que comove,
De quem passará por mim agora na rua,
Viola tocando pedindo e continua,
E livre entregue a si mesmo se move.

Sempre me enganei a ajuizar pessoas,
Pois não chego a fazer juízo algum,
Não sou juíz nem tão pouco mártir
Sou neste mundo atroz apenas mais um.

Continuarei pecando como antes, errando
Sem aniquilar a natureza que em mim floresce,
Sou mármore esculpido que de si não esquece,
Que outros para além de mim, vão mais pecando.

CÁRCERE

Sentado na pedra fria duma masmorra,
Invoco o que em tempos tanto vivi
Mesmo que passado o tempo não socorra,
Olho à frente o azul que outrora vi.

Estreito se apresenta ainda a vista,
Qual mente hérculea invoca alucinações,
Quando pelo muro branco se avista,
Ao seu redor, distante de reais visões.

Embalado o berço que se agita brando,
Por mão extremosa, a mente, como uma Mãe,
De recém nascido longe ainda do bando,
Que terá seu tempo de voar também.

Um ponto azul naquela vista primeira,
Inquieto se asperge e o corpo se afasta,
E o mar surge-me de fronte, visão pioneira
Do globo terrestre dorido pela 'fina' casta.

Gaivota sou?!? Albatroz, e sigo a caravela
que em direcção à costa serve-me de guia
Nem Sol ou Lua a costa anunciam. É ela!
Ilha Perdida que não existe. Todavia,

Provo ao toque leve a fina areia
Servindo-me da mente, apenas recordando-a,
Essa realidade atroz que sorve da veia,
Sangue da poetisa vida, drenando-a.

De sonhos meu viver não basta; resta
Parte do meu instável ser e intranquilo
Parte da minha alma não parte nesta
Barca, rumo a um porto calmo e tranquilo.

No chão se espalham histórias de criança,
Lançados ao inglório vento, vento funesto,
Ainda guardo no sonho uma tola esperança
De superar-me. Mas hoje... hoje não presto.

Do que fui e sou, nos escombros remexo
Almas gentis e puras de outros valentes
Que abrem apixonados trancos e fechos
De almas agrilhoadas e dependentes.

E sinto por mim compaixão momentânea
Como a núvem que depressa no céu passa.
Será que 'inda minh' alma é consentânea
Com o que fui? Ou sou já a igual farsa?


In conforma

Se pudesse ter sem teu consentimento,
Este enleio raro da alma embevecida
Dar ao devaneio precioso seguimento,
Estaria sossegada a alma e guarnecida.

Foste-te, Cleópatra de todos encantos,
Que teu polido nome é enaltecido,
Como as noviças e todos os santos,
Tendo ainda o diamante embrutecido.

Todos os dias vejo o que rejeito,
E deito do cesto fora todos os frutos,
Que podres não me servem, e imperfeito
Prefiro estar no meio dos putos.

Quem mandou ser certo ao chamamento?
Lembro-me que faltava imenso no passado
Ao carregar de andores com sentimento,
Tendo todos os poetas ao meu lado.

E agora que todos deixaram as penas,
Tinteiros abertos, papel imaculado
Dizem-me que estão bem com suas Helenas
E fico escrevendo só no chão, deitado.


Mais tarde arrepender-me-ei...

Mais tarde arrepender-me-ei,
Do tempo que agora passa,
Mais tarde recordar-me-ei
Que a vida é escassa,
Que é um tesouro,
Escondido e breve,
Descoberto no peito,
Quando se sente leve.

Mais tarde? Basta!
Hoje e não amanhã,
Porque a torna gasta
O tempo,a Alma vã.
Tacteio o escuro
Na mansarda do destino
Que sempre me é indestinto
Nunca me chega o que sinto
Quando acordo pela manhã.

A BORBOLETA


Não me sinto livre
Minha Musa, minha amada
Nem no punho deslize
Numa folha amachucada.
Só sinto esta dor,
De viver alienado,
De sentir nestes dias
Vazios, emboscado.

Tem batido meu rosto,
Nas portas da alegria,
Definho na realidade,
Definho na poesia,
E se oiço mentiras,
Tantas, à minha volta
Finjo-me que esqueço
O mentiroso e sua escolta.

Se esta vida recuso,
Porque hei-de eu vivê-la,
como mendigo ou recluso,
Sem desejar perdê-la?
Lanço-me no abismo,
de perguntas e monólogos,
A vida é um eufemismo,
De constantes diálogos.

Mas suprimo a dor,
quando contigo eu estou,
Repousando num abraço,
como quem nunca abraçou,
E saindo da teia,
Que me prende no dia,
Contigo, dulcineia,
Tenho a sublime poesia.

E quando o astro ilumina
Na alvorada ao amanhecer
Com a suave luz fina,
Tenho de me desprender,
De ti e invocar,
Uma vontade feroz,
De enfrentar um mundo,
Que é falso e atroz.

Vivo numa ânsia,
constante e irredutível,
De escapar de gaiolas,
Sonhando (irreversível)
Que não basta vaguear,
Nesse sonho constante,
E do avesso revirar,
Minha vida de pedante.

Mas no escuro existe,
Uma borboleta ousada,
Que asperge de luz,
A escuridão cerrada,
E em mim induz,
Força para continuar
És tu, minha Fada
A borboleta a esvoaçar

IN EXTREMIS

Subo gradualmente as escadas, Ó Mãe Natura
Observo o Humano feito, algoz do futuro,
E impotente fico nesta inércia que perdura,
Deixei de viver em tempos; agora, apenas duro.

Mas oiço atento os versos que cantas efervescente
Rasgo um sorriso curto como quando o sol se vê,
Retida gente nas trevas que desponta quando de repente
Contempla-se num gozo como uma bela frase se lê.

O extremo é intolerante e vejo nele vossos impulsos,
Ó mares, ó ventos... ó Terra que nos estremece.
Somos embalados pelos doces e brandos impulsos,
E abalados somos quando Neptuno se enfurece.

...

Ergo-me do leito chamado amor,
Sobre os lençois brancos de cetim
espreguiço-me distante, que não é dor,
Seguindo a voz que chama por mim.

Tratei das feridas da solidão,
Com bálsamo de leite de quem amei
Espantei um pouco a Morte do coração,
Mas novamente sua voz escutei.

De pedra em pedra sobre o charco,
Enlameado pelos lúgubres dias,
Salto sobre o Real que é tão parco
De inspiração para novas poesias.

Sofri advindo a arte do sofrimento,
Outro rosto do amor contido,
Porém, fartei-me do igual momento,
No mundo celeste por dois repartido.

E agora canto um pouco só contente,
Chamando os quatro ventos do passado;
Talvez depois a Musa me seja clemente
E me escute a alma do tempo afastado.

...

Afinal não se é pioneiro
sofredor anónimo longe e, num canto,
Vê-se fugir todo o seu encanto
Mar Alto - barca sem timoneiro!

O vinho bebe-se, sem porém
Bebermos-lhe seu sabor frisante,
Ficando lívido e distante,
Vendo o Real do monte além.

Mas não brilha mais no escuro,
ínfimo átomo, particula de luz,
Clarão aberto por detrás do muro,
Desconhecendo para onde nos conduz?

Só se crê vendo, e se anda
Em frente quando o medo impele,
Ao retrocesso, ao negro regresso
Infantil berço que sempre nos repele.

...

Onde estão os tesouros escondidos
Debaixo da aridez da gente,
Onde estão os espíritos perdidos,
Que sonham apaixonadamente
Pela beleza à vista obtusa,
Explícita, e consecutivamente
Caem sobre braços de Musa,
Do Amor, curiosamente?

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