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POESIA ÀS ESCONDIDAS

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

Mais de mil poemas escritos às escondidas De António Codeço (1976 - 20??)

ABC Poético

A
 
Arte, mundo alto onde homem se eleva
Nos monásticos dias de cansaço,
Sublime cor repele a escura treva
De amplas asas abre, lúrido abraço,
E diariamente neste ar que respiro,
Adverso mundo, enfim, é meu retiro.
 
Ares, belicoso, em fúria ardendo,
Exausto da peleja foi ter com,
A brônzea ,bela Afrodite, cedendo,
À força de Eros, ao feminil dom.
Da guerra, a humana gente respirava,
Porque Ares com Afrodite amansava.
 
  
B
 
Beethoven, sua nona sinfonia,
Ferindo a terra o deus do mar Neptuno,
Prolonga o som gigante no meu dia,
Tornando a minha alma com meu corpo uno.
Pois creio em quem crê, olha além dos montes
Escuta o cristalino som das fontes.
 
C
 
Camões, da poesia lusitana,
Tem luz do louro Apolo que derrama,
Os versos de ouro honrando alva Diana
Lhe concedendo a glória, a palma, a fama.
Naquela Ode de pranto e cor contido,
Da cor de prata o Tejo seu rendido.
 
D
 
Dafne, por primeiro amor de Apolo,
Nada cumpriu, além de amor vencido,
Cativa a bela ninfa em fértil solo,
Viu seu corpo em loureiro convertido.
De Cupido lançar setas douradas,
Já quantas ninfas foram transformadas?
 
E
 
Eros, avistando a bela dama,
Numa floresta, incauta dele andava,
Perdida por paixão ardente, a chama,
Que amargura no peito lhe causava,
No Tempo incauta, sem sonho e esperança,
Lembrou-se o deus dar-lhe o dardo que amansa.
 
F
 
Faetonte convenceu nimbado pai,
Ceder-lhe, por momentos, carro ardente,
Empalidece o rosto Apolo e cai,
Na convicção do filho persistente.
Foi vítima a Terra desta imprudência,
De quem não meteu mão na consciência.
 
G
 
Górgonas, vestidas de tormenta,
Que espalham sobre a Terra horror, andavam
Pelos jardins de Vénus que lhe ostenta,
Lívida fronte, à frente caminhavam.
Porém, do vago olhar que a deusa tem,
Tremeram como quem treme também.
 
 
H
 
Haendel vem soando sempre a festa,
Dos anjos, oratórias, de água, jogos,
Cantando a vinda dum Messias, resta
De artifícios, enchendo o céu de fogos.
Explode cores dentro de mim quando,
Com versos coloridos vou sonhando.
 
Helena da beleza detentora,
De mil graças maneiras, revestida,
De ricos mantos de cores que adora,
Tão fútil, por Páris amada e querida.
Beleza da mulher que ao espelho é arte,
Dançante fogo alastra em toda a parte.
 
 
I
 
Io, inocente e bela ao sol andava
Colhendo flores mimosas na floresta,
Insciente, em sua sorte confiava,
Que à tenra mulher candura lhe empresta,
Mas – talvez por doce odor virginal,
Um deus dos céus desceu, trazendo o Mal.
 
 
J
 
Juno sabia mais do que seu esposo,
Júpiter, descuidado em seus amores,
Jano, na paz na guerra monstruoso,
De Bem e Mal todos eles dadores.
E atento ouvinte o Homem de Prometeu,
Deseja mais encantos de Proteu?
 
Já me entra um ar suave na manhã,
Quando vejo o sol com ares de medusa,
Sair da Aurora, o róseo barbacã
Cativo amante Apolo lhe recusa.
Bastou um só instante e se elevava,
Que o sol, desde última vez baixo estava.
 
L
 
Liszt ouviu diabólico italiano,
Rápido qual raio no violino,
Lembrou-se, em sua glória, ser tirano,
No piano, seu reinado de menino.
Quem vi pra que ascende-se à minha glória,
Que eco meu persiste na humana história?
 
M
 
Mozart, que grão mestre de capela,
Tão cedo foste, eterno em tom Maior
Com “Júpiter” perfumo o ar, a mais bela
Sinfonia, raro em ti em tom Menor.
Ouvir-te obra completa sabe a pouco,
Sonhar-te inacabada obra é de louco.
 
N
 
Noite, a deusa grega envolta em manto,
De ébano espesso, vem e me transforma,
Felino, esquivo à noite, estreito canto,
Trémulo, verso ganha poema forma.
Nemésis, vem! Imprime em meu papel,
Isto que tenho em forma de acre fel.
 
O
 
Orfeu, alando a voz - divino - à lira,
De prata, encantava duros penedos
Dançando numa dança que respira,
Sombrio ar de infernais ares, medos.
Talento, traz audácia e a liberdade,
Penetra fundo a pedra, a Humanidade.
 
P
 
Perséfone, belíssima, passeava
Pelos jardins colhendo incauta flores
Hades, por ela se apaixonava,
Raptou-a abrindo a Terra de fervores.
Beleza atrai, anel que tenta e acode,
E porque é deus de Inferno o próprio pode.
 
Pandora, abrindo a caixa, curiosa,
Nas veias sangue vivo borbulhava
A ânsia de criança a fresca rosa,
E todo o Mal deste Mundo espalhava.
Quem toca em que não deve e abre, ofende
Verdade oculta, a escura mão lhe estende.
 
Q
 
Quíron devorava a sabedoria,
Entre centauros loucos e indomáveis,
Brilhante, solitário que vivia
Tornando heróis antigos mais amáveis.
Aquiles, tendo ao sangue amor vermelho,
Curvava, único, a fronte ao ser mais velho.
 
R
 
Reia, Mãe dos deuses, Mãe das mães
De idílicas e lascivas orgias,
Afasta os filhos seus quais bravos cães,
Lançando das montanhas, profecias.
Mãe, desde o início do Tempo existente,
Travou loucura a Cronos dos céus doente.
 
S
 
Semele, por Zeus perdoada dos Infernos,
De ígneos olhos, diamanta a luzir,
Salgando os olhos de olhares tão ternos,
A mente palmilhando pra fugir.
Porém, honrada pelo alto pontífice,
Perdão, nunca o deus à deusa lhe disse.
 
T
 
Témis, no Tempo esquecida, oculta,
Verdade que lhe pende na balança,
Justiça: nobre farto o fraco culpa,
Perante o forte, insufla, ao fraco esperança.
Revolve, ondas do mar, revolta em bruma
Justiça às praias brancas traga alguma.
 
Tétis, de diáfano véu lindo,
Deixando entrever as mais belas partes,
Destino perpetua ao que vem vindo,
Aquele que prefere da guerra as artes.
Mãe que dá vida a quem ceifando vidas,
Vai, por vã glória e fama apetecidas.
 
U
 
Ulisses, entre os homens capcioso,
Única deusa Atena o auxiliava,
De corpo e astúcia forte e vigoroso,
Pela pura esposa e filho chorava.
Calipso amava-o mais que a própria Vida,
Mas nem por isso Ulisses se endivida.
 
 
V
 
Vénus, traz-me mais práticas tuas,
Empresta-me os encantos que ensinaste,
Com Marte, empresta essa arte com que actuas,
Que uma vez só, o coração lhe amansaste.
Olhos vagos, graça de ave exótica,
Bela, sensual, selvagem, louca, erótica.
 
X
 
Xerxes, abominável, pretendia,
Como um deus do vazio, ser adorado
Esparta, com trezentos nada ouvia,
Vale um por mil, mil por um detroçado.
“Espessa sombra em setas, sol tapava...”
Que importa? Esparta, a pátria, não deixava.
 
Z
 
Zeus, supremo, de olhos coruscantes,
Tanto Tempo sentando no seu trono,
Convocava irmãos divinos e brilhantes,
Mas cedo, ouvindo-os, se entregava ao sono.
Quantas bocas chamaram por Seu nome,
Enquanto Zeus saciava a sua fome?

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