POESIA ÀS ESCONDIDAS
1111 poemas escritos... De António Codeço (1976 - 20??)
25 de Janeiro de 2012

A angústia vaga ter nascido erva daninha,
A tristeza de poeta repugna, é repelente
Olha e repara, tem um dedo que adivinha
é a vela que ilumina a noite noutra mente.

 

Meus olhos se afiguram às câmeras digitais,
Os gestos musicais são mel na minha boca,
Se conversam comigo não escuto as palavras
Mas os gestos, esses gestos são mãos que me tocam.

 

Ó música embaraço na mulher ainda virgem,
que desponta auroras no rosto virginal,
A nesga dum bom busto causa-me a vertigem
Na camisa entreaberta num corpo carnaval.

 

Imagens, mil imagens em redes sociais,
de frases e poemas, de nada e de cio,
"Levemos desta vida o que não é demais"
Que não se leva nada para esse vazio...

 

Imagens, mil imagens, fome de aparência,
Vaidade que nos prende os olhos por minutos
Meu coração, na crise, declarou falência
Por estes versos ocos soarem diminutos.

 

Como este poema, que soava bem no início,
tornou-se entusiasmo dum simples amador,
Crescente, esmaeceu, tornou-se meu suplício
eu que no frio gélido busco algum calor.

 

Ignoro que sentido a vida possa ter
Se a vida é a descoberta que não faz sentido
A vida é queda de água, de água a gorgolejar
Mergulho nesta água, lúcido e perdido.

 

Por isso a saudade, nó górdio que sufoca,
da infância que partira verde, irreversível
A Lua é uma lente que lúcida me foca
O meu rosto lunar que sonha o impossível.

 

há frases diárias, diurnas que nos sulcam
No rosto, abrem valas no coração de lama
Há seios que nos prendem o olhar, e educam
Maternos, uma voz suave que nos chama.

 

Diluo-me na cidade, perco-me de vista,
Sou eco de uma boca muda que não fala,
Notícia de jormal, sou capa de revista
Mas só no coração que nunca mais se cala.

 

Penso, penso tanto, obscuro labirinto
Sou dédalo mental, fui meu próprio arquitecto
Grito, e este grito inútil vai ser extinto
Na escuridão do vale do meu ser abjecto.

 

Sou peça de xadrez que falta na partida
Entre as duas irmãs gémeas siamesas
a excêntrica Loucura, a Razão introvertida
Praticamente iguais de opostas naturezas.

 

publicado por António às 00:56 link do post
24 de Janeiro de 2012

Lá vamos nós cometer mais outro crime,

Ó tu, absurdo vácuo, da cinza imperador

E tu também, senhora super elegante

Que hoje pela manhã me serviu pão com dor.

 

O fato e gravata vis amantes, têm mãos

Sujas de lama, que me apertam o pescoço,

Pés que me esmagam nas pedras da calçada

Luares fúnebres que boiam na água do poço.

 

Escrevo para ti também, mulher de super seios,

Talvez por isso só por isso te aches maior,

Jeito de melro, voz de sereia e vem pedir-me,

O universo inteiro porque se julga superior.

 

Hoje tenho os nervos como carne a ver-se,

Uma fractura exposta na montra de loja,

Perco-me na caverna deste poema abstracto

Ardo mais que o normal, na minha interna forja.

 

Eu devia logo ter escolhido jardinagem,

Há jardins floridos que rebentam dentro de mim,

Mas interditos, não há ninguém que o muro salto,

Para sentir na minha alma o cheiro do jasmim.

 

Cultiva-se tão pouco, uma aparência frágil,

Uma dormência de espírito num ultraje

Diria que a virtude é moeda antiga e fraca

No mercado de insónia, lá para o fim da tarde.

 

Reparem que estas linhas atiro-as ao abismo,

Ninguém ouvirá a voz do pensamento,

Em formato digital eu grito a ida infância,

Um veleiro a entrar na baía do tormento.

 

Sim, escrevo. É uma forma nobre e subtil,

De resguardar-me à sombra dum pinheiro manso,

É uma forma delicada de dizer: “não se aproximem”

Enquanto bebo um copo de sol no meu descanso.

 

Já sinto vergonha da fonte destes versos,

Escrevê-los antecipo já ser pura perda,

Passam, satisfeitos, e por passarem é quando

Digo: “Olá, tudo bem?” mas penso: “vão à merda!”

publicado por António às 16:05 link do post
20 de Janeiro de 2012

Encolho este papel para que ninguém veja,

Neste local do crime, onde o poeta sofre

Humilhações de pedras ao luar prateado,

Que na noite brumosa meu corpo revolvem.

 

Falta-me sentimento como uma caneta,

Frouxa que não escreve a linha dum pensar,

Dum raciocínio mudo. O silêncio me desperta,

Uma louca vontade de alguém no escuro amar.

 

Débitos e créditos de inutilidade,

Minha contabilidade revela a falência,

Sintoma de quem sente mais que uma verdade,

A doer-lhe fortemente na alma e na cabeça.

 

Preciso de sonhar com novas Babilónias,

Caminho pelas sombras em redes perfeitas,

Só eu possuo o sonho intemporal e estranho

De ver bruxuleantes dúvidas desfeitas.

 

Resta-me pouco tempo, avanço, enfim, estremeço,

Alguém passou por mim, que frio de navalha

Furtiva em noites que a morte nos espera

Onde ter lar e amor é um manto que agasalha.

publicado por António às 16:42 link do post
19 de Janeiro de 2012

Às vezes lírio, às vezes mágoa,

Às vezes pó, um grão de areia,

Às vezes triste, às vezes sóbrio

Nem ninfa, Musa ou uma sereia.

 

Às vezes lábios permissivos

Esperando o beijo que não vem,

Sou terna boca, oferecida

Que nunca diz dor a ninguém.

 

Lavro este incêndio de ódio ardente,

Não faço caso, não faço nada

Procuro o cisne, beijando o lago

Às vezes fogo, às vezes fada.

publicado por António às 18:10 link do post
19 de Janeiro de 2012

Ah se eu estivesse agora aonde estás

Tudo seria nítido contigo

Serias na tempestade doce abrigo,

Teria na feroz guerra branda paz,

 

E ver-te, é a sombra que anda comigo

Que de noite meu espírito namora

Crepúsculo de angústia à mesma hora

Que vem lembrar-me só o que não consigo,

 

Que divide o espaço e o tempo em dois,

Antes de ti, contigo, nada depois

Sabe a estrela cadente cristalina

 

Ficou-me o Verão dum sonho ao luar

Num céu de Lua cheia a salpicar

Um pó de estrela e cor, Enya divina.

publicado por António às 15:26 link do post
13 de Janeiro de 2012

Que ninguém quebre este silêncio cristalino,

Apaziguador das almas inquietas!

Finalmente, o silêncio! Haverá no futuro

Lugares onde se venderá sossego a peso de ouro.

Há músicas dispersas nas lojas,

Luzes fulminantes, ar sufocante, abafado

Como se dentro fosse Verão sempre.

Sei que estou a cometer o crime de escrever,

Estes versos que nada são,

São consoladores da minha solidão doente,

Queijo a derreter-se e amolecer-me

O querer e a vontade de mudança urgente

De ir-me embora sem dizer adeus.

 

Deito o licor desilêncio num copo de vidro,

Bebo-o sofregamente...

À tua saúde, incolor pastor do inútil,

Tu que me entregas fardos de palha diariamente

Tu que me empurras para os braços da Morte

Escuto os teus sonoros e deligentes passos

Por alguém superior a ti,

Alguém que te despreza mais do que te tem em
conta,

Leva-lhe vinho e a cega obediência.

 

A ponte, ao longe, parece-me perto do coração,

O rio, serpente azul rasgando a península,

Demora-se nos meus olhos exaustos, encolhidos,

Por verem só o que não querem

Por não contemplarem simplesmente:

Na memória duradoura, um bálsamo na tristeza,

Um cesto de frutos frescos e metáforas

E o bulício citadino embate nas vidraças,

Parece gente fechada numa casa a arder,

Em pânico, aflita, respirando fumo.

 

O papel molhado de tinta branca, a caneta

Azul que me deram no país da saudade tricolor,

Que tentação! Que tentação de pecar

E descrever a fúria da cavalaria ávida,

De sensações dispersas, exército esfomeado

Estremecendo o solo do meu coração enlameado

Criaturas nocturnas que habitam grutas

Desejassem por um momento a luz do dia,

Ou um minuto de silêncio...

publicado por António às 14:46 link do post
11 de Janeiro de 2012

Todas as aves cessaram o seu canto,

Na floresta da minha alma,

Eu, que falo tanto em alma,

Já não sei o que isso é ou que isso seja,

Pois ditas, as coisas

Deixam de fazer sentido

Como mastigar pastilhas e palavras,

E achá-las ridículas

Sem sabor de morango.

 

O rouxinol que cantava,

Na noite do meu coração, calou-se

Quando abriste as persianas

Dos meus sentimentos absurdos

Abriste a janela e deixaste entrar,

A neve gelada, a chuva irritante,

O vento inútil,

E os meus pensamentos voaram,

Como folhas outonais,

Levadas pelos versos dum rio invisível.

publicado por António às 11:24 link do post
10 de Janeiro de 2012

Que belas as luzes dos carros na ponte!
Estrelas cintilantes, trémulos diamantes,
E lá no cimo a Lua, atenta me parece
A bela da pastora, de olhos penetrantes.

 

Que bela é a noite na ancestral cidade,
As árvores despidas calam-se sem vento,
Horrível, tenebrosa, a súbita verdade,
Veio vergar-me os ombros do meu pensamento.

 

Tão bela é a rua que desce como um rio
que nasce na montanha; de súbito parece
Que corre para beijar a boca duma igreja
Católica, num país que nunca mais se esquece.

 

De noite, à solta os homens são feras autênticas
Abriram as jaulas aos íntimos desejos.
As árvores desnudas tornam-se excêntricas
Lançando-me assédios e mil folhas de beijos...

 

Ouve-se o estrondo da garrafa abrir-se
Mais uma, por favor, que espero a negra Morte
ela virá mais tarde, ignoro se hoje vem
sei que virá ditar-me um dia a fatal sorte.

 

Naquela íngreme rua reina a escuridão,
Apela ao crime fácil, fútil e banal
uma velhota deita um olhar de solidão,
Põe toda a gente em fuga no campo sentimental.

 

Eis quando silva hedionda a língua da saudade
Medusa que de olhá-la, o corpo petrifica
Que à entrada da caverna fica a procurar-me
"A rua qualquer coisa...?","não sei aonde fica"

 

Nem sei, minha senhora, se estou aonde estou,
Nem sei se vivo estou, milagre ou ilusão,
Sei só que ando à procura de mim próprio e vejo
Que a infância foi-se embora, e todo o esforço é vão.

 

Converso com os homens que perderam a coragem,
Contam-me mentiras de heróicos feitos, falsos
conservo no rosto um resto de uma imagem
de que já fui, também, dos meus sonhos descalços.

 

Perdi-me! Ignoro qual a linha de partida

Se caí dumas escadas, desci aos trambolhões
Sou hobbit no reino dos homens e gigantes
Príncípe sem espada que luta com dragões.

 

Cai-me a verdade na noite, molemente,
Minha cabeça em brasa, autêntica fornalha
ao caminhar, acendo a forja, e loucamente
escrevo um verso e finto a vida que embaralha.

 

Não sou maestro douto a entrar na minha mente
Há músicos doentes que tocam ao mesmo tempo,
ah não enfurecer-me, erguer minha batuta 
Para que a orquestra toque um sol do mês Dezembro...

publicado por António às 23:17 link do post
06 de Janeiro de 2012

Hoje o chão faltou-me novamente,

Subiu-me uma angústia pelos joelhos da alma,

Viúva negra na cama de lençóis perfumados de infância

Cobra coral enrolada nas pernas do meu ser.

 

Sinto vontade de gritar, gritar, fazer eco

Rasgar o silêncio frio e sepulcral de igreja,

Fixar os olhos das pessoas como se chamassem por mim

Alguém que me visse como ser invisível.

 

Tenho pernas para andar mas não ando,

Tenho mãos para criar e não crio nada,

Cérebro para celebrar a vida com a imaginação,

Erguer templos e catedrais honrando a beleza,

A beleza frágil, tímida e afável,

Das coisas incríveis, multidão eufórica roçando por mim,

 

Todos os meus assuntos ficaram retidos na sala de espera,

Os gostos musicais, gente miserável e inocente,

Congelaram na sala gélida de tribunal sem justiça,

Sofreram a pena máxima: o esquecimento!

 

Se não existisse deixava de existir.

Cai-me a noite de céu florido de lírios brilhantes,

E a Lua, sorrateira trepando os telhados oblíquos,

Oprime-me, como a mulher demasiado atraente,

Estar perto, tão perto, demasiado perto

De nos dar importância sem nos dar importância

Como o próprio mundo, como a própia morte

como a própria vida.

 

Escrevo para sentir nos dedos o fio de Ariadne,

No dédalo mental, absorto, absurdo,

Na exaustiva dormência de achar-se a palavra,

Certa, num poema incerto,

Casto num bordel de palavras,

Zebra inocente entre leões famintos,

E no chão branco deste papel,

Varro todas as folhas do pensamento…

publicado por António às 01:14 link do post
03 de Janeiro de 2012

Nada.

Não sinto nada.

E eu que sentia, dolorosamente, a picada dum sentimento,

Memória ou lembrança, fragrância ou odor

Que viesse lembrar-me que vivo adormecido,

Se tudo me despertava como uma agulha quebrada

De seringa penetra violenta o músculo dorido.

 

Mas não, não sinto nada.

É perigoso sentir. São tonturas e vertigens

Iguais a espreitar dum precipício perigoso o mar sedutor

Que nos envia convites pelos braços de Anfitrite,

Brancos de espuma a desfazer-se no corpo,

Que se sentisse alguma coisa,

Conheceria a deusa marítima pessoalmente,

Mas não, nada.

Não sinto nada.

 

Talvez depois

Quando no fim de todas as coisas,

Me ir de vez embora daqui…

publicado por António às 14:28 link do post
26 de Dezembro de 2011

Que pena! esqueceram-se de me lembrar,
que mais tarde haveria de sentir solidões de séculos,
De reis justos, rodeados de abutres,
De mães trémulas, mulheres inabaláveis,

 

esqueceram-se de me dizer que o desespero,
mora à saída de casa, se nos esquecemos,
da infância em cima da mesa
De quem fomos no bolso do casaco

 

e então, como um comboio invisível viesse,
de encontro ao nosso corpo falível,
esqueceram-se de me dizer que é inevitável,
Perdermo-nos dia e noite dia e noite,
Numa surpresa de frio de navalha,
À espera que degolem o universo inteiro
Dessa tristeza absurda

 

E no fundo, lá bem no fundo,
é uma alegria secreta descobrirmos uma Orion,
Num lugar de gente, mar de cinza e pó,
Num planeta decrescente e decadente,
De ares condicionados e conversas pavorosas,
Onde forçados ouvimos o silvo de áspides,
que a cada dentada se alimentam desse nada
Tão vago como definir a felicidade em vida.

 

deixai-me ser infeliz à minha maneira,
Que meu corpo é uma máscara de Veneza
Pois que meu El Dorado será descoberto e visto
quem olhar meu coração com olhos de veludo

publicado por António às 22:59 link do post
22 de Dezembro de 2011

Quando era miúdo deitava-me no corrimão

Das escadas, onde havia muitas oliveiras,

Fechava os olhos virando o rosto ao sol,

Como em busca das coisas verdadeiras.

 

Sentia que o tempo no instante não havia,

Escutava o entardecer, o recolher das aves,

Brincava com meus carros minúsculos, usados

No muro, se tivesse ali à mão as naves,

 

Eu era o próprio actor num palco de ar e sol

De nuvens em castelo, sensuais, que passavam

Era a dor de cabeça dos meus pais e avós,

Que me sorriam sempre, às vezes me ralhavam

 

A escola era um lugar para estar sempre
contente,

Incauto e radiante o sol me perseguia,

Os olhos azuis daquela que em segredo,

Pensava amar, porém, para ela não existia.

 

Comprei-lhe um anel de prata (creio já não o ter)

Agora que sou outro, fruto do passado,

Flor amachucada pronta a ser varrida

Mina rica em ouro que de ouro não tem nada

 

Pena que a poesia é um sofrimento absurdo,

Batalha perdida sem campo de batalha,

Agora, nesses muros, palco infinito

Meu filho substitui o pai que só trabalha.

 

 A minha avó de luto é a minha alma doente,

Que já não quer sair do corpo que a encarcera

Meu corpo é meu avô que não se encontra vivo

Memória derretida numa vela de cera.

 

Sou assunto suspenso nas mãos da justiça

Um prego torto mal pregado na parede

Sou a lira de Orfeu no sótão empoeirado

A fonte em ruínas que já não mata a sede.

 

A tristeza haverá de ser castelo de areia,

A esperança é um mar de ondas animais,

Ainda hei-de provar o rir de um vento livro

Hei-de livrar-me destes versos sentimentais

publicado por António às 17:32 link do post
20 de Dezembro de 2011

Não foi a minha escolha ser poeta,

Poeta que não sou, nasci, cresci,

E um dia dei por mim a escrever versos,

Pois não havia vida nesse dia

 

Sou mais irmão da árvore e da flor,

Do sal do mar, da espuma, da areia

Que dos homens. Sabe mais de mim aquele

Rouxinol doente a meio da noite.

 

Não foi uma escolha minha. Os livros vêm

Em bando parar às minhas mãos,

São bocas desdobradas em ar em nada,

São línguas afogadas no martírio.

 

Talvez com versos me arme em forte e sou,

Assim, feliz, do mundo em segredo,

Vivo a pensar nisto a vida inteira,

A vida resumida num minuto.

 

Caiem folhas outonais no chão que piso 

Nem sopro oscila um ramo ou treme a folha

As coisas dormem dentro delas próprias

Confusas como eu, no átrio da vida.

 

Feliz quem escolhe e quem domina o sangue

Pois pedra me faço e me desfaço

Feliz de quem é seu próprio escultor,

Eu pedra, eu mármore frio, diamante em bruto

publicado por António às 16:57 link do post
05 de Dezembro de 2011

Custa-me saber que sou um grão de areia,

Um átomo, molécula, ponto infinito,

Pensamos que uma frase muda o mundo inteiro,

No fundo é mais da alma, um sopro, um espirro,um grito,

 

Uma aflição constante ser durável. Vejo

O derrame dourado sobre a ponte velha,

O rio eternamente jovem, e eu pareço,

Um primata à procura de fogo ou centelha.

 

Não mais querer pareço, lúcido e audaz,

Podeis sentir no verso escrito a sangue frio,

Vivi, não vivo mais. Sou escravo do passado

Preso a duas margens estreitas, sou um rio...

 

Aquele crocodilo passa a pente fino

As lamacentas águas dum rio africano.

Sua procura é válida, a fome justifica,

Nem fome ou sede tenho. Vivo, quase insano...

publicado por António às 17:35 link do post
22 de Novembro de 2011

Se em vez de um vendedor,
de enciclopédias, viesse
Alguém bater-me à porta
Com um beijo me detivesse

Se em vez de uma palavra,
Viesse erótico um beijo,
eu abriria as portas,
De imediato ao meu desejo

Se em vez de uma má notícia
Viesse a boa nova,
De liberdade crescente
Para vir-me pôr à prova,

E posto à prova desse
Meu amor imenso e forte,
e pudesse também beijar,
beijar de Sul a Norte...

Se em vez de uma doença,
Me viesse uma enfermeira,
curar minha loucura
e deitar-se à minha beira.

Abro os olhos, ninguém vejo,
Ao meu lado, a noite só,
Vejo então a desfazer-se,
Meu desejo em ar e pó...

publicado por António às 23:17 link do post
16 de Novembro de 2011

Ainda ontem consegui conter meu riso,

Ao ver triste figura onde ia no caminho,

Desesperado andava a ver se me afinava

Lanterna na palavra, luz do meu destino.

 

Partiu minha princesa, ruiu o meu castelo,

bem sei que só palavras punha no papel,

Amarrotado e triste meu coração tem,

Erguida, inatingível torre de Babel...

 

Dói tanto em vão saber que não mais poderei,

Deitar-me nos seus olhos, prados verdejantes

Deitado, a soluçar, meu corpo é como a folha,

Que se apercebe ser mutante entre mutantes.

 

Acorda, eis que a cidade iluminada tem,

Mil olhos, mil luzes de falsas estrelas,

vieram-me dar cor à solidão que vem

Vestida de veludo, visitar a minha cela.

 

Que digo? eu já não sei. Ao menos não me entrego,

ao mundo de licores e alucinações,

Que mania e vaidade pensarmos quem mais sofre

O nosso coração mais que mil corações.

 

Meu coração doente, ébrio, vem sentar-se

Num jardim, um velhote resignado e só,

Mergulhando no mar glorioso do passado,

Suspira por saber que em breve será pó.

 

Sou aqueles prédios em ruínas degredados,

Um peão sem corda, uma caneta sem tinta,

Mergulho nos meus versos ríspidos, truncados

Será que morrerei na casa dos trinta?

 

Acordo, a manhã sobe como um plúmbeo veu,

Nem a chuva me incomoda, só saber que estive,

à beira do abismo, ser feliz e sóbrio,

Só mesmo quem não teme é que no mundo vive. 

 

Ó gente sofredora que abafa um queixume,

De olhos inflamadas de noites em choro,

Ó rio do meu martírio nascido de um lírio,

que não mais regarei, sou água que evaporo,

 

amantes que ridículos falam-me de amor,

Quando esse amor vendido é fruto da mentira

Movesse as montanhas de solidão perene

Meu modo de viver melhor sustentaria.

 

que vale em vão sofrer, num canto, Às Escondidas

ao menos fosse um rio, ao menos fosse flor,

Trazei-me vinho e ar, deixai-me ser fantasma

A um canto numa mesa divagarei de amor...

 

castelo de areia à beira mar não dura,

Nem pegadas de flores, zumbidos de abelha

No ar, duram mais igrejas, catedrais,

As pedras duram mais que mil rosas vermelhas

publicado por António às 23:29 link do post
14 de Novembro de 2011

Já nem sequer te encontro nas palavras,

Mas encontro o teu rosto a erguer-se

como a Lua suspensa prateada e fatal.

Meu coração arrasta-se, sangue pisado

Coberto de bandos esparsos de corvos, meus pensamentos,

Vieram pousar em mim soturnos e viúvos,

Da vida, para me lembrar que não te vejo,

da Morte, para me levarem com eles um dia.

Escrevi versos chorosos com lágrimas de sangue,

escreverei relutante como se meu coração,

Fossem estas palavras lançadas ao abismo.

E não cheguei a contar-te,

Mas no dia da partida vi um pombo,

voando, na gélida manhã do adeus,

embatendo na fachada do prédio onde dormi,

e aquela praça, onde ouvimos ainda os gemidos,

dos que morreram heróicos por liberdade,

Caiu-me em cima de mim como a resolução do mistério.

Já sou cinzas antes da derradeira hora,

já sou choro dos entes queridos,

Rosas e lírios pálidos, desmaiados em mim,

E sou o fantasma, corpo sem alma,

Garrafa de plástico boiando nas águas,

Na culpa inútil de coisa nenhuma,

Desde que não mais me deitei no prado dos teus olhos,

tornei-me sombra sem árvore ao sol,

E avanço infeliz como alguem cego que vê,

Porque essa luz que me deste extigui-se,

Antes de saber se tornaria a iluminar,

O templo da minha vida...

publicado por António às 21:58 link do post
21 de Outubro de 2011

Ficou-me o que podia ser mas nunca foi,

E sei que acordarei com a imagem dum rosto,

Da saudade dolorosa que preferia não sentir

E amá-la sem vê-la é o meu maior desgosto.

 

Convida-me a ser vento, pó, cinza, tristeza

A entrar numa caverna, a mais escura que houver

Pergunto-me se o poeta tem esta natureza

Viver em agonia, longe do que quer.

 

Afinal, eu não escolhi ser poeta que não sou

Sou mais aquele curso de águas num canal,

Onde o mundo me suja, cospe, me maltrata

É no seio do bem que nasce um grande mal.

 

Há tanta, tanta gente que sofre em segredo,

Imprimem dor feroz em música e papel,

Eu quero ler os versos de quem sofre e sente

Dançar para sair deste louco carrossel.

 

Queria deitar fora, a saudade opressora

Lançar às águas turvas, imundas de tédio

Por onde vagueei ao luar livre e feliz

Que doença ser poeta, sem cura, sem remédio…

publicado por António às 14:39 link do post
18 de Outubro de 2011

Agora que sou o fantasma sem ópera,

De mãos nos bolsos sem canções para compor,

E me faltam notas de ouro numa partitura,

que desejei honrar na música o amor,

 

Sombra imperceptível, vaga, no que sinto,

Uma águia cativa com asa ferida

Trazei-me um copo de água, palinca, ou absinto

Para esquecer que fui no amor, ave abatida,

 

que voara céus cremosos, de um branco suave,

Contemplando a grandeza deste mundo incerto

No fresco amanhecer, que tesouro reluzente

De pedras preciosas brilhando num deserto!

 

E os sonhos, polidos espelhos num palácio

Com estátuas de deuses de Roma ou Grécia antigas

E veludos caros, flores luxuriantes

Sou nada, um fantasma, que nem a noite abriga.

 

Que estranho vazio nos meus pequenos olhos,

Dois veleiros brancos num mar de negrume,

Dois buracos de tiros de canhão num muro

Uma fogueira em ruínas, sem calor nem lume.

 

Que farei se à volta tudo lembram olhos verdes

dois pontos luminosos numa tempestade,

No meio dum mar nocturno, revoltado em chamas

Onde o Mal bem se vende, e tão mal a bondade.

 

Meu filho, tu que dormes um sono profundo,

Serás melhor do que eu. Aprende que estes versos

São frutos amargos de árvore plantada

Da dolorosa esperança criar-se universos.

 

Se olhares a janela quebrada num comboio,

vítima duma pedra lançada por mau gosto,

tenta encontrar beleza nisto, anda escondida

Mesmo num coração que encolhe por desgosto.

 

Se um dia por amor, teu coração chorar,

Lembra-te olhar o céu, as estrelas, um planeta

que a Lua veio ao mundo para consolar

quem sofre por amor e se tornou poeta....

 

publicado por António às 23:55 link do post
06 de Outubro de 2011

Vieram-me apagar a luz do candeeiro

Num quarto onde colava sonhos cor de prata

Onde acendia velas como ao longe luzes,

Cor de laranja doce que de noite mata

 

Quem pode ouvir da boca muda do futuro,

Seguro, uma certeza, em branco um diamante

No labirinto louco que é o coração

que de manhã quer ver uma Lua brilhante?

 

Nas penhas do destino, agora que me escapa

Areia entre as mãos castelos destruídos

Sei lá o que me prende, sei o que me mata

É não saber se os meus versos serão lidos.

 

Que o tempo os encaminhe como o vento as folhas

Nesta estação que mais parece o quente Verão

As rosas são bonitas se não as desfolhas

Como um pardal que vem comer à nossa mão

 

O cinto cintilante de Orion presente

Invoca-me a saudade, o céu de outro país,

Incrível, como o céu é igual para toda a gente

Mas não há muita gente que saiba o que diz

 

Os poetas possuem sonhos de mil esferas,

Com túneis e comboios em verdes montanhas

Há frases que da boca escapam como feras

É a lâmina fria da espada nas entranhas

 

Talvez por tecto venha a ter o céu estrelado,

De nuvens, quando a chuva vier molhar-me o corpo

Talvez me torne rei da própria liberdade

Oiço dizer que a vida passa como um sopro,

 

Um sopro ou baforada, anéis espessos de fumo,

Saídos duma boca mal agradecida,

Que hei-de fazer sem ti, que hei-de fazer sem mim

Se aceno à minha vida como à despedida?

publicado por António às 17:10 link do post
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